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Prêmio Itaú-Unicef: educação deve garantir o direito à vida

Realizado na última quinta-feira (12), debate de lançamento da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef contou com a participação do sociólogo e educador Miguel Arroyo. Sua palestra sensibilizou o público ao tratar da educação integral abordando os principais atores desse processo: as crianças e os adolescentes.

 Saiba mais sobre a 11ª Edição do Prêmio Itaú-Unicef – Educação Integral: Aprendizagem que transforma

 

Miguel está cansado

Não porque já tenha se aposentado e queira agora descansar depois de tantos anos na labuta diária. Miguel está cansado de ouvir falar mal da escola pública. E costuma indagar seu interlocutor: quem são os verdadeiros atores da educação integral? Ele mesmo responde: são mulheres educadoras, esforçadas, que recebem salários indignos e, ainda assim, todos os dias acordam e vão para as escolas, onde desenvolvem uma série de projetos.

Professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Miguel Arroyo diz que continua participando de debates sobre educação porque alimenta a profunda convicção de que tanto a sociedade civil como a escola pública estão vivas.

Foi ao perceber que as escolas estavam cheias de projetos e iniciativas que Arroyo implantou a Escola Plural, em Belo Horizonte, quando foi secretário adjunto de Educação (1993-1996). Ele acredita que é preciso estimular aquilo que já está acontecendo de bom nas escolas e fortalecer a diversidade.

Mas, se as professoras são protagonistas da escola pública, o mesmo vale para as crianças e os adolescentes. Miguel Arroyo chega a afirmar que eles estão educando a própria escola e a obrigando a ter um novo olhar sobre os educandos. A infância e a adolescência interrogam a pedagogia. Isso é dramático, pois a própria palavra engloba a criança (paidós, em grego). Portanto, se a pedagogia esquecer-se da criança, deixará de ser pedagogia.

 

Miguel é um intransigente

Não transige nem negocia quando se trata dos direitos da infância e adolescência pobre e excluída. Sempre tivemos um olhar negativo para a criança filha do trabalhador. São milhões de crianças e adolescentes que trabalham, vivem e sobrevivem.

E pontua com clareza: esse direito está na Constituição Federal e no artigo 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que diz que a educação “tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando”. Isso é mais radical do que o simples direito à aprendizagem. A aprendizagem está vinculada aos conteúdos. A lei fala do direito à humanização.

Arroyo quer dizer pequeno regato que corre silenciosamente. Mas, em espanhol, sua língua materna, também tem outro significado, um tanto depreciativo: ambiente ou situação miserável. Talvez esse seja o elo que une esse educador com doutorado em Stanford (EUA) e pós-doutorado em Madri às crianças e adolescentes das periferias e dos rincões de sua pátria de adoção, o Brasil.

Então, o mestre lança mais uma de suas perguntas: por que educação integral? E dá uma aula que trata de infância, educação e vida. A educação integral não nasce da pedagogia, ela vem da infância, que pede para ser vista em sua totalidade. A infância chega à escola com vidas integrais. As crianças e os adolescentes são íntegros, totais, plurais. Somos, assim, obrigados à educação integral.

 

Miguel sonha e deseja

Inspirado em Paulo Freire, Miguel Arroyo não abre mão de vislumbrar um mundo melhor, em que todas as crianças e adolescentes, com toda sua riqueza identitária, de gênero, de cor, de formação religiosa, de orientação sexual, tenham o direito à vida. Por isso, ele lembra que o grande educador brasileiro dizia que a escola tinha uma função humanizadora. A escola tem a obrigação de recuperar a humanidade que foi roubada das crianças e dos adolescentes.

E o que seria o pleno desenvolvimento dos educandos? Neste ponto, Miguel Arroyo desenha seus desejos em planos concretos. Em primeiro lugar, a formação intelectual. E explica a importância desse aspecto: em nossa história, nunca se desejou que o povo participasse do conhecimento. Para o colonizador, o índio não deveria ter alma, não poderia ser humano. Somente isso permitiria a posse da terra e a escravidão.

Miguel denuncia que essa mentalidade ainda permanece em nossa cultura educacional, nas políticas e nos conselhos de educação. Por isso, vamos ter de rever nossa identidade. As infâncias pobres, as infâncias negras têm, sim, conhecimento, têm uma racionalidade.

Isso implica colocar nos currículos um conhecimento vivo, que ajude a infância e a adolescência a conhecerem a si próprias. E fecha o circuito com uma lógica inexorável: o conhecimento que não me ajuda a saber-me, para que serve?

 

Miguel é profeta

Não que ele se meta a prever o futuro. Não. Miguel Arroyo assume o papel dos profetas que, nos tempos remotos, incomodavam os poderosos com as críticas que faziam. E como falador de verdades ásperas, Miguel denuncia: somos a cultura mais segregacionista e a que mais reprova no mundo. E o que significa ser reprovado? Significa não ter direito ao trabalho, não ter direito a viver. A vida é o primeiro direito, e a escola se esquece disso e se presta a fazer parte do sistema segregacionista, racista e sexista.

Tomado da boa indignação, Miguel continua: perpetramos um culturicídio em nossa história. As crianças e os adolescentes precisam saber que suas culturas foram extirpadas e são, continuamente, desvalorizadas.

Mas o educador não fica apenas na crítica. Para ele, a criança e o adolescente são sujeitos de cultura. E aqui entra o segundo pilar da formação integral do educando, a formação cultural. E esta leva também à formação estética. Para ele, devem ser valorizados projetos que respeitem a cultura popular e os saberes que crianças e adolescentes já trazem.

O terceiro pilar é a formação ética. E Arroyo volta a se erguer para apontar mais uma mazela de nosso país. A nossa escola, historicamente, considera que a criança e o adolescente não têm valores. E hoje, ainda mais, a sociedade acredita que os jovens negros e pobres são delinquentes. E eles sofrem um extermínio.

Não é que a infância e a adolescência sejam violentas. Elas reagem porque não aguentam mais ser violentadas. Para entender esses apelos éticos, é preciso acolher os valores das crianças e dos adolescentes. Senão, a educação será um projeto moralizante. A escola não leva em conta que os principais valores vêm da mãe. Ela é a primeira grande educadora.

 

Miguel desenha e projeta

Como um arquiteto dos desejos, Miguel Arroyo prossegue o croqui do que considera a formação plena do educando. Ele diz que não se pode esquecer da formação corporal. Com que pedagogia educamos o corpo? Indaga-se. Parece que queremos parafusar o corpo das crianças nas carteiras. Temos uma pedagogia espiritualizada demais. Falamos em educar o espírito, educar a mente, mas não há espírito nem mente sem corpo. Somos corpo. Aprendemos com o corpo.

Isso não é pouca coisa. A formação corporal tem relação com a formação identitária. As crianças não são iguais. Depois de décadas lutando pela diversidade, ela precisa ser vista como riqueza, não como peso. Porque os sem direito a ter direitos são sempre os diversos, os diferentes.

Em seu esboço de uma educação integral, Miguel tem clareza de que a escola sozinha não dá conta de recuperar a humanidade roubada. É preciso que ela se integre com as forças vivas da comunidade, as associações comunitárias, a escola de samba, o posto de saúde, os grupos de hip-hop. A ideia de parceria não pode estar só nos gabinetes. É preciso levá-la aos lugares onde a infância se produz e se reproduz.

E, como o arquiteto que, ao olhar seu projeto, tem plena certeza de que aquilo é possível, Miguel Arroyo conclui: a sociedade produz uma infância e uma adolescência violentadas. E elas só poderão ser recuperadas pela própria sociedade. Por isso, a educação integral tem que ser também integrada.

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Total de 2 comentário(s)

  •    Rachel Bittencourt Nolasco  em 
         Educação&Participação respondeu em 
  •    Maria de Fátima Almeida e Albuquerque  em 
         Educação&Participação respondeu em