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Carnaval nas Américas: seis festas para aprofundar o conhecimento sobre cultura

A ser comemorado em algumas semanas, o Carnaval é uma excelente oportunidade para aprofundar o interesse de crianças, adolescentes e jovens por diferentes manifestações culturais do Brasil e de outros países. Por isso, a plataforma Educação&Participação preparou uma série de sugestões para que educadores possam trabalhar com seus alunos. Confira

Um dos feriados prolongados mais aguardados no Brasil, o Carnaval é também rico em manifestações culturais e pode ser uma excelente oportunidade de trabalhar aspectos como música, arte, moda, história, cultura de massa e diversidade étnico-cultural sob a perspectiva da educação integral.

Nesse sentido, a plataforma Educação&Participação aproveita o mês de fevereiro e traz algumas informações sobre a origem da festa e como ela é celebrada em seis diferentes localidades do continente americano, cujas características contrastam com as versões que conhecemos aqui no Brasil.

 

Festas, navios e deuses pagãos

A rigor, as raízes do Carnaval são múltiplas e há dúvidas até mesmo sobre a origem da palavra. Na Roma antiga, por exemplo, em dezembro ocorria a Saturnália, festival em honra a Saturno, divindade agrícola que reinou em uma era dourada, segundo a mitologia.

Durante o festival, as pessoas dançavam pelas ruas e as normas sociais eram relaxadas ou mesmo invertidas, com banquetes, mestres servindo escravos, liberdade de expressão – não se podia punir os servos pelo que diziam –, além das comemorações pelo fim do ano agrário e religioso e as expectativas para o ano seguinte. O festival era encerrado com um sacrifício em honra a Saturno.

Durante os festejos, um antepassado do que hoje conhecemos como carro alegórico – o carrus navalis ou carrum navalis – passava pelas ruas, levando pessoas seminuas. Para alguns autores, é desse nome que deriva a palavra “Carnaval”.

O carrus navalis (carro naval) tinha esse nome por se assemelhar a um navio, talvez influência de celebrações religiosas do Egito antigo, onde se realizavam procissões com barcos no Nilo. Isso porque os próprios romanos assimilaram o culto à deusa egípcia Ísis e, no mês de março, celebravam o Navigium Isidis, que marcava o início da temporada de primavera na navegação. A festa em honra a Ísis sobreviveu na Península Itálica pelo menos até o ano 416 e contava com um carrus navalis mais típico, que singrava as águas do Mediterrâneo.

A tese mais aceita para a origem da palavra “Carnaval”, no entanto, é que ela se deve ao latim medieval carnelevāre ou carnileāria, que indicava a véspera da Quarta-Feira de Cinzas, quando se inicia o período da Quaresma cristã, em que não se pode comer carne. A expressão é derivada do latim clássico carnem levāre, que significa abster-se de carne.

A relação com a Quaresma é íntima devido ao calendário da Páscoa. Em 325, o I Concílio de Niceia da Igreja definiu a Páscoa cristã como móvel, para diferenciá-la da judaica, a ser comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que se sucede ao equinócio de primavera no hemisfério norte (equinócio de outono no hemisfério sul). Esse é o Domingo de Páscoa ou da Ressurreição, que marca o fim da Semana Santa, iniciada no Domingo de Ramos.

Por sua vez, a Semana Santa, de seis dias, soma-se a um período de preparação, jejum e oração de 40 dias, a Quaresma, que faz referência aos 40 dias em que Jesus Cristo teria jejuado no deserto, de acordo com a Bíblia.

No Ocidente, a Quaresma tem sido observada pelo menos desde o fim do século IV e, desde 1091, por decisão do papa Urbano VI, é oficialmente iniciada na Quarta-Feira de Cinzas, quando se realiza a missa das cinzas, ritual em que são queimados os ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior, cujas cinzas são misturadas à água benta.

Dessa forma, o Carnaval acabou por se fixar como o último momento no calendário litúrgico cristão em que os fiéis, sobretudo católicos, podem “cometer excessos” antes da preparação, comedimento e expiação dos pecados que devem observar até a chegada da Páscoa.

No entanto, o tom festivo, debochado e até de licenciosidade que conhecemos hoje é realmente uma herança pagã. O já citado festival romano da Saturnália, embora ocorresse em um momento diferente do ano, é reconhecido como uma das raízes do Carnaval, mas comemorações similares são encontradas ainda na própria Roma, com a Lupercália, em honra ao deus Lupércio, depois identificado com o grego Pã; na Grécia, com as Dionisíacas, festas em homenagem a Dioniso, ou Baco para os romanos; e no Egito, nas festividades para Osíris, para citar algumas.

A Igreja Católica inicialmente tentou combater essas tradições, mas, por fim, no ano 590, o Carnaval acabou incorporado ao calendário – e, ao longo do tempo, assimilou brincadeiras de rua, sátiras aos poderosos, críticas sociais, bailes de máscaras, fantasias e carros alegóricos. Finalmente, das características subversivas iniciais, acabou organizado em grandes eventos ao redor do mundo.

Introduzido pelos colonizadores portugueses por meio do entrudo – jogos e brincadeiras de rua relatados desde 1553 em Pernambuco, cujo nome deriva dos “entrudos”, bonecos gigantes de madeira e tecido das brincadeiras carnavalescas portuguesas do fim da Idade Média –, mas também influenciado pela cultura francesa e local, o Carnaval brasileiro, em suas diferentes manifestações, talvez seja o mais conhecido, sobretudo o do Rio de Janeiro. No entanto, outras versões, como as tradicionais máscaras de Veneza, na Itália, ou o Mardi Gras de Nova Orleans, nos Estados Unidos, são igualmente famosas.

Nas Américas, no entanto, há outros Carnavais sobre os quais não se fala muito – e que podem ser apresentados aos educandos, visando aprofundar o conhecimento da diversidade cultural no continente. Vejamos alguns.

 

Canadá: frio e folia

Bonhomme, mascote do Carnaval de Quebec, também participa de desfiles em outras cidades do Canadá, como neste realizado em Montreal. Foto: Jean Gagnon/Wikipedia.

Alternando períodos de observância e de ausência, o Carnaval da cidade de Quebec, capital da província de mesmo nome e Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), tem sido celebrado desde pelo menos o fim do século XIX.

As comemorações se tornaram ininterruptas apenas em 1955, o que não impediu que o Quebec Winter Carnival se consagrasse como um dos maiores festivais de inverno do mundo.

A principal atração são as paradas que contam com o mascote Bonhomme, um boneco de neve com gorro vermelho, e com luzes e esculturas de gelo. Há também festas públicas e privadas, shows, queima de fogos e bailes que desafiam as pessoas a saírem de casa em uma temperatura de até -10º C.

O verão brasileiro contrasta com o inverno canadense. Por isso, é interessante observar a festividade no Canadá, que ocorre em meio ao frio e à neve, tradicionalmente entre os últimos dias de janeiro e os primeiros dias de fevereiro, com duração média de 15 dias.

Veja como é festejar o Carnaval no frio intenso do Canadá:


Trinidad e Tobago: tradição negra

O Carnaval de Trinidad e Tobago é marcado pela música afro-caribenha surgida no país, com destaques para ritmos como o calipso e a soca.

O país insular localizado a apenas 11 quilômetros da costa venezuelana celebra o Carnaval, que remonta ao século XVI, no período tradicional, imediatamente anterior à Quarta-Feira de Cinzas. É uma das mais importantes festividades de sua cultura.

O último país a dominar Trinidad e Tobago antes da independência foi o Reino Unido, mas os franceses mantiveram o controle das ilhas até o século XVIII e foram os responsáveis por introduzir o Carnaval no país, por meio de bailes de máscaras frequentados apenas pelos proprietários das grandes plantações.

Impedidos de participar dos bailes, os escravos negros criaram, então, um Carnaval paralelo, que, além de assimilar elementos da festa europeia, caracterizou-se pelo colorido, sátiras e pelo domínio de ritmos musicais afro-caribenhos nascidos no país, com destaque para o calipso e, atualmente, a soca. Há competições musicais, sendo que o título de Rei do Calipso (Calypso Monarch) é bastante prestigiado.

Assista ao vídeo sobre o Carnaval de Trinidad e Tobago ao som de uma soca do produtor e cantor Kernal Roberts:


Equador: frutas e brincadeiras de rua

Frutas e flores são presença marcante do Carnaval da cidade equatoriana de Ambato.

A tradição equatoriana da cidade de Guaranda se remete ao Carnaval de rua, com brincadeiras que lembram os antigos carnavais brasileiros e seus lança-perfumes.

O interessante é o uso de balões de água, farinha e até mesmo ovos e lama, que são lançados contra amigos e familiares, mas também em direção a desconhecidos na rua. Uma espuma colorida muito parecida com creme de barbear, a carioca, é também bastante popular.

Já na cidade de Ambato, a festividade recebe o nome de Festa das Flores e Frutas. Mais “comportado”, esse Carnaval existe desde o começo dos anos 1950 como uma celebração pelo renascimento da cidade, que sofreu um grave terremoto em 1949 no qual morreram mais de 5 mil pessoas. É caracterizado por festas de rua, escolha da rainha da cidade e carros alegóricos orgulhosamente decorados com flores e frutas. Outras cidades equatorianas também comemoram o Carnaval, e há música, dança, fantasias e roupas típicas.

Assista ao vídeo mostrando as “guerras” com balões de água e outros produtos no Carnaval de Guaranda, no Equador:


México: adeus, mau humor!

O colorido é uma das marcas do Carnaval no México. Na cidade de Veracruz, a Queima do Mau Humor traz ainda um elemento de crítica política e social.

Os colonizadores espanhóis foram os responsáveis por levar o Carnaval ao México, onde é celebrado em mais de 200 comunidades por todo o país. Os dois maiores e principais acontecem nas cidades de Veracruz e Mazatlán.

Embora mais recente historicamente, o de Veracruz chama a atenção pelo tamanho e pela duração, que pode chegar a nove dias, sempre com desfiles, concertos públicos e eventos especiais em restaurantes, bares, casas noturnas e a céu aberto.

O destaque, porém, vai para a Queima do Mau Humor. É quando os mexicanos de Veracruz literalmente queimam, na principal praça da cidade, personagens, políticos, ideias, acontecimentos e quaisquer coisas indesejáveis – até vírus e doenças. O ritual conta ainda com a leitura de um texto sobre quem está sendo “queimado”.

Há, então, a escolha da rainha e do rei do Carnaval, as festas e, no final do período, o enterro de Juan Carnaval: os foliões se vestem de preto como luto pelo fim dos folguedos. Há, inclusive, a leitura de um testamento.

Veja como é a Queima do Mau Humor na abertura do Carnaval de Veracruz, no México:


Colômbia: a Batalha das Flores

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Na cidade de Barranquilha, na Colômbia, a disputa carnavalesca é para ver quem tem mais colorido e mais extravagância.

O Carnaval da cidade de Barranquilha, na Colômbia, foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2003 e é considerado a segunda maior festa do gênero no mundo, atrás do Rio de Janeiro.

Com forte apelo folclórico, é uma celebração que data, pelo menos, desde o século XIX: as atividades da cidade são paralisadas e as ruas são tomadas por foliões.

O ponto mais esperado e que marca o início da festa é a Batalha das Flores, um desfile de seis horas, liderado pela recém-coroada rainha do Carnaval, marcado por muita música, fantasia, carros alegóricos e cor, que celebra as criações mais originais e extravagantes. Na sequência, há também a Grande Parada. Ritmos típicos, como o mapalé e a cumbia, embalam a comemoração, que conta ainda com uma série de atividades e festas ao ar livre.

Assista a uma parte da Batalha das Flores em Barranquilha, Colômbia:


Bolívia: sincretismo e religiosidade

Farbenfroher Umzug beim Karneval in Oruro Bolivien
As Diabladas são a principal característica do Carnaval de Oruro, na Bolívia, e possuem uma origem religiosa.

Também reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Carnaval da cidade de Oruro, na Bolívia, conta com mais de 200 anos de existência e se remete a antigas tradições indígenas, depois incorporadas à tradição cristã ligada à Virgem da Candelária.

O Carnaval de Oruro tem origem na Festa de Ito, comemorada pelo antigo povo uru, que celebrava seus deuses por meio de danças que invocavam as divindades andinas de Pacha Mama e Tio Supay.

Proibidos pelos espanhóis de honrar suas divindades, os urus as sincretizaram com a Virgem e o Diabo, reforçando a principal característica do Carnaval de Oruro hoje em dia: as Diabladas, danças em que os foliões usam máscaras e trajes demoníacos, cuja origem pode ser também o período pré-hispânico, quando roupas similares apareciam na dança de Lhama Lhama, em honra do deus uru Tiw.

Assista a uma Diablada de Oruro, na Bolívia:

 

Oficinas de educação integral

Que tal relacionar o tema do Carnaval a atividades com crianças, adolescentes e jovens? Veja abaixo a lista de oficinas de educação integral que podem ser adaptadas aos temas carnavalescos:

Rostos e máscaras – Atividade que traz a experiência de viver outras personagens que gostaríamos (ou não) de ser. Clique aqui.

Raízes culturais – Promove a contação de histórias de raízes culturais, com desdobramento em jogos e brincadeiras. Clique aqui.

Entre deuses e heróis – Oficina que busca desenvolver o conceito de arte como forma de compreensão e transformação do mundo, por meio da criação de novos significados. Clique aqui.

Um dia de intervenção artística na comunidade – Atividade que visa compreender a arte como produção estética que surpreende, desestabiliza, emociona e quebra a rotina da vida diária. Clique aqui.

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