Entrevistas - João Marinho - Educação&Participação

“A educação integral é estratégica: ela tem uma força equitativa muito grande”

Em entrevista, Patricia Mota Guedes, da Fundação Itaú Social, comenta o impacto do Mais Educação como catalisador de políticas de educação integral no Brasil

Os resultados preliminares da pesquisa qualitativa A implementação do Mais Educação nas redes públicas de ensino brasileiras: da teoria à prática e da Avaliação de Impacto do Mais Educação, ambas produzidas pela Fundação Itaú Social em parceria com o Banco Mundial, foram o tema da entrevista especial que Patricia Mota Guedes, gerente de Educação da Fundação, concedeu ao Educação&Participação.

Entre desafios, conquistas, metodologias e resultados, Guedes comenta o impacto do Mais Educação na redução das desigualdades, seu papel como indutor de políticas de educação integral e a abordagem do tema pela mídia nacional.

 

Educação&Participação: Quais foram os dados da Avaliação de Impacto do Mais Educação apresentados no Seminário Itaú Internacional de Avaliação Econômica de Projetos Sociais?

Patricia Mota Guedes: A Avaliação de Impacto acompanhou os índices de Língua Portuguesa e Matemática na Prova Brasil e a taxa de abandono em escolas que aderiram ao Mais Educação de 2008 até 2011 – e não mostrou resultados de ganho em comparação com escolas similares, com características similares, em municípios semelhantes e que não aderiram ao Programa.

 

E&P: Esses dados podem indicar que o Mais Educação não tem atingido seus objetivos?

P.M.G.: De maneira alguma. Há limites de metodologia na Avaliação de Impacto. Os dados de Língua Portuguesa e Matemática não podem ser utilizados, isoladamente, para dizer que o Programa não está funcionando, na medida em que não há ainda dados disponíveis para todos os indicadores que o Mais Educação atinge. O Programa é maior e prevê o incentivo à aproximação da família na participação da vida escolar, redução de violência, a inclusão.

Ele propõe uma educação integral para além da nota, uma atuação em muitas outras dimensões, como o desenvolvimento de relações interpessoais, o desenvolvimento físico e emocional, a comunicação, a motivação para os estudos e a ampliação de repertório sociocultural como garantia de direito a uma população que, de outra maneira, a ele não teria acesso.

 

E&P: Há algum estudo que aborde esses outros indicadores?

P.M.G.: Sim, o estudo qualitativo A implementação do Mais Educação nas redes públicas de ensino brasileiras: da teoria à prática, também produzido pela Fundação Itaú Social em parceria com o Banco Mundial. Esse estudo, inclusive, traz subsídios para entender as limitações da Avaliação de Impacto. É claro que, quando há uma proposta pedagógica integrada, na perspectiva de uma educação integral, naturalmente pode ser estimulado um aumento nas notas de Língua Portuguesa e Matemática, mas isso requer tempo, requer aprimoramentos e requer indicadores, ainda não disponíveis, para acompanhar essa e outras evoluções.

Fizemos esse acompanhamento nas políticas de educação integral em Belo Horizonte (MG) e no Rio de Janeiro (RJ), e eles conseguiram identificar várias melhorias – mas, nessas redes, conseguimos muito mais que as notas: pudemos fazer pesquisa de campo, questionário com famílias e com alunos etc. Este é um desafio para o campo da avaliação, e ainda mais na avaliação da educação integral: continuar e avançar na metodologia, nas ferramentas e nos dados disponíveis.

 

E&P: Que informações você destacaria nessa pesquisa qualitativa?

P.M.G.: O estudo qualitativo mostra que há uma heterogeneidade muito grande no nível local da implantação do Mais Educação, de escolas que recebem a verba e atuam sozinhas na implementação e no acompanhamento pedagógico àquelas que recebem forte auxílio de suas redes, como Bonito (PE), que auxilia na seleção de monitores e no transporte para áreas rurais; ou Maracanaú (CE), que oferece suporte técnico e formação na área pedagógica. Em outros municípios, como São Bernardo do Campo (SP) e Porto Alegre (RS), além de Belo Horizonte (MG) e do estado de Goiás, há a integração das modalidades de educação integral que eles já possuem com o Mais Educação.

Esses dados mostram que a liderança das secretarias de Educação resulta muito importante para ampliar o sucesso da implementação do Mais Educação nas escolas, mesmo nos municípios com menos recursos, ao mesmo tempo que torna realidade o objetivo do Programa, que é induzir políticas públicas de educação integral.

 

E&P: Isso impacta o acompanhamento pedagógico?

P.M.G.: Com certeza. Mesmo em municípios com menos recursos, o apoio que a equipe pode dar para o acompanhamento pedagógico, na perspectiva de um aprimoramento, faz diferença – e a pesquisa qualitativa mostra alguns caminhos pelos quais é possível fortalecer esse apoio técnico dos municípios. O próprio MEC não tem condições e nunca se propôs a assumir o papel das redes públicas de fazer o acompanhamento pedagógico “na ponta”.

Sem dúvida, em um país como o Brasil, com tantas diversidades e desigualdades, o Mais Educação acaba sendo a única iniciativa de educação integral para muitos municípios, sobretudo considerando as dificuldades orçamentárias de tantas redes públicas. Mas o programa sempre se propôs, desde quando lançado, a ser um indutor de outras políticas públicas de educação integral, promovendo a implementação de outras iniciativas de educação integral por parte dos municípios e Estados. E ele tem cumprido esse papel em muitas redes públicas.

 

E&P: Então, na verdade, o que se sobressai é um caminho e a necessidade de aprimorar o Programa.

P.M.G.: Sim. Um aprimoramento que garanta mais formação e apoio técnico sobretudo para os municípios que não conseguiram, como Bonito e Maracanaú, qualificar mais a implementação local do Programa, apoiando suas escolas. O estudo quantitativo mostra que o Mais Educação cresceu muito em escala, e velozmente. Ele, de fato, chegou “à ponta”: a escola receber diretamente o recurso, via PDDE [Programa Dinheiro Direto na Escola], agilizou de fato a chegada dessa iniciativa.

Agora, depois desse momento caracterizado pela velocidade no ganho de escala, é natural que chegue a hora de olhar para aprimorar a qualidade. É preciso destacar que vemos a avaliação como uma ferramenta para o aprimoramento, nunca para dar um veredito final sobre um programa, se sim, deve continuar; ou se não, não deve. O que foi feito e o que se conseguiu com o Mais Educação não é pouco.

 

E&P: Por que a mídia se concentrou, então, mais nos dados da Prova Brasil?

P.M.G.: Acredito que se trata de um processo de amadurecimento do debate. Precisamos debater mais amplamente o conceito de educação integral. Os dados da Prova Brasil e do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] já são mais familiares para os jornalistas. A educação integral é mais do que notas de Língua Portuguesa e Matemática: ela busca o desenvolvimento integral, que não vai acontecer apenas nos ganhos de índices de determinada disciplina, pois passa por dimensões sociais, emocionais, culturais, físicas e éticas de cada criança e adolescente. Daí seu potencial na redução das desigualdades e da inclusão de todo um segmento da população. A mãe ou o pai de classe média ou alta que faz o sacrifício e arca com o custo de uma aula de caratê, de balé, de inglês para seus filhos entende que é necessário que a criança possua uma bagagem maior. Esse é um dos mais importantes efeitos do Mais Educação, que, por meio dos macrocampos, possibilita ampliar o desenvolvimento de crianças e adolescentes de segmentos vulneráveis que, em nosso País, não teriam outra oportunidade nesse sentido.

É muito interessante ver que, quando as famílias percebem isso e são sensibilizadas de que se trata de uma questão de cidadania, passam a ver que a oferta de educação integral é uma garantia de direito. Além disso, no que diz respeito específico à Avaliação de Impacto, temos clareza da necessidade de avançarmos e analisarmos outros indicadores, para além das notas.

O que dificulta, muitas vezes, é ter acesso a informações estruturadas sobre essas outras dimensões, que dizem respeito à implementação da política, ou aos indicadores mais amplos, que dizem respeito ao desenvolvimento integral. Onde pudemos coletar esses dados, em outras avaliações, como da política de educação integral de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, conseguimos um retrato mais detalhado nesse sentido.

 

Saiba mais

> Confira as apresentações exibidas nas palestras do 12º Seminário Itaú Internacional de Avaliação Econômica de Projetos Sociais;

> Iniciativa da Fundação Itaú Social com coordenação técnica do Cenpec, a publicação Percursos da Educação Integral: em busca da qualidade e da equidade traz experiências de políticas de educação integral municipais que contaram com aporte e contribuição do Mais Educação. Saiba mais aqui;

> Confira o especial da plataforma Educação&Participação sobre o Programa Mais Educação.

 

 

 

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