Entrevistas - João Marinho - Educação&Participação

“A educação integral não alcançará êxito se ampliarmos a jornada com as mesmas propostas que temos hoje”, diz presidente da Undime

Diferentes conceitos e práticas de educação integral estão sendo cada vez mais divulgados, principalmente quando governos municipais, estaduais e federal vêm implementando a educação integral como política pública.

Nesse contexto, a plataforma Educação&Participação entrevistou Cleuza Rodrigues Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e secretária de Educação do município de São Bernardo do Campo (SP), para conhecer sua experiência na implementação de políticas de educação integral e para saber que conceitos ela defende para uma educação integral de qualidade.

Segundo ela, “a ocupação dos diferentes espaços da comunidade e da própria cidade, além do envolvimento com outros atores sociais, entre eles, as organizações não governamentais (ONGs), implica uma visão de educação mais inclusiva, participativa e acolhedora, pois entende a educação integral como um exercício de ampliação dos tempos e espaços de aprender e estabelece a cidade como território educativo em que cada membro da comunidade é um colaborador especial”. Leia a entrevista na íntegra.

Educação&Participação: Atualmente, há diversas concepções em relação à educação integral. Uma delas busca a ampliação da jornada e a disponibilização de novas ferramentas educacionais dentro dos limites da escola, e a outra refere-se à educação integral envolvendo agentes públicos e privados, de ONGs a empresas, e complementando a formação dentro da comunidade e no espaço da cidade – podendo ou não envolver a ampliação da jornada. Quais seriam os prós e os contras de cada uma dessas abordagens?

Cleuza Repulho: Ampliar o tempo de permanência na escola dentro dos espaços já existentes requer que as rotinas e dinâmicas de funcionamento da escola sejam revisitadas, assim como as propostas, os recursos e os objetivos para esse trabalho, ou seja, requer que olhemos de novo o próprio currículo. Manter os jovens dentro dos mesmos espaços em tempos de múltiplos estímulos externos, entre eles a tecnologia e o ingresso precoce no mercado de trabalho, nos provoca a considerar qual escola pode e deve ser oferecida quando se amplia o tempo de oferta de ensino-aprendizagem. Nossas escolas estão em condições de acolher mais pessoas nos mesmos espaços por mais tempo? Os profissionais que hoje atuam em nossas escolas darão conta das necessidades de aprendizagem destes jovens?

Os prédios escolares, quando construídos, não foram pensados para educandos que permaneceriam o dia todo em atividade, como a Escola-Parque de Anísio Teixeira. A ocupação dos diferentes espaços da comunidade e da própria cidade, além do envolvimento com outros atores sociais, entre eles, as organizações não governamentais, implica uma visão de educação mais inclusiva, participativa e acolhedora, pois entende a educação integral como um exercício de ampliação dos tempos e espaços de aprender e estabelece a cidade como território educativo em que cada membro da comunidade é um colaborador especial, além de ser outra maneira de ofertar oportunidades de convivência com o outro, como o meio, ampliando experiências que podem estar atreladas à ampliação de tempo na escola ou não.

É importante lembrar que torna-se difícil ofertar todas essas oportunidades de aprender em curto espaço de tempo. Formar leitores competentes, usuários da língua e das ciências em geral requer tempo e profundidade, por isso, com a aproximação da universalização do atendimento ao Ensino Fundamental, novos desafios vão se apresentando às redes, entre eles, a ampliação de tempo e oportunidades de aprendizagem, previsto inclusive no Plano Nacional de Educação (PNE) recentemente aprovado.

Educação&Participação: Nos últimos tempos, o entendimento do poder público e dos agentes educadores a respeito do papel da escola vem se transformando: no passado tida apenas como o espaço para a educação formal, ela passou a ser protagonista da formação de crianças, adolescentes e jovens como cidadãos. Gostaria que você traçasse um rápido histórico dessa transformação.

“Cada município tem características muito peculiares que devem ser consideradas ao pensar o formato de educação integral pretendida. É preciso que a rede defina suas escolhas com base na concepção de educação que tem em seus projetos político-pedagógicos, além das orientações nacionais e dos marcos legais”.

Cleuza Repulho: A escola não pode limitar-se à oferta de saberes mínimos: ler, escrever e contar, tampouco abrir mão da garantia desses direitos. O acesso ao universo do conhecimento é papel da escola. A importância de saber selecionar informação também. Empregar a tecnologia, apreciar a arte, a ciência, buscar alternativas mais criativas para solucionar problemas são atribuições da escola.

Temos ainda outras atribuições, como a formação ética, a preocupação com a sustentabilidade, a formação política, a discussão das políticas afirmativas, e isso se dá – respeitadas as especificidades de cada faixa etária – desde a creche. Sim, a escola ganhou novos contornos, forçada pelos desafios dos novos tempos, mais dinâmicos e desafiadores, e essa escola não está dada ou definida. Está por ser feita, desde o processo de democratização e abertura da escola para a população brasileira.

No entanto, temos um importante desafio para enfrentar: quem é o profissional dessa escola complexa e desafiadora? Quais caminhos ele vem percorrendo para que possa garantir todos esses direitos e possibilidades a todos e a cada um?


Educação&Participação: Com referência à questão acima, em que medida se insere o conceito de educação integral nessa abordagem ampliada do papel da escola?

Cleuza Repulho: A educação integral não alcançará êxito se ampliarmos a jornada com as mesmas propostas que temos hoje. Será necessário nos debruçarmos mais sobre o tema e garantir os investimentos necessários para esse trabalho. Outros profissionais, outros espaços, recursos e, principalmente, como ponto de partida: qual escola queremos? Para formar quais seres humanos?

Coexistindo diferentes conceitos sobre educação integral, qual o que você, como membro do setor público e da área de educação, acredita ser o mais viável e o que melhor atenderia, já trazendo a discussão para o jovem do Ensino Médio, às necessidades desse jovem?

Cleuza Repulho: O mais viável é considerar a realidade local. Cada município tem características muito peculiares que devem ser consideradas ao pensar o formato de educação integral pretendida. É preciso que a rede defina suas escolhas com base na concepção de educação que tem em seus projetos político-pedagógicos, além das orientações nacionais e dos marcos legais. Tudo isso pode favorecer o bom uso dos recursos de que dispõe, do desejo de sua rede e de sua comunidade.

Educação&Participação: Como a educação integral tem sido abordada e implementada nas escolas de Ensino Fundamental de São Bernardo do Campo?

Cleuza Repulho: Em São Bernardo, optou-se por identificar inicialmente as unidades escolares onde a contribuição da ampliação de jornada com a oferta de atividades de cultura, esporte, arte seria mais urgente e necessária, além de considerar as unidades com menor Ideb – indicadas pelo Ministério da Educação para o Programa Mais Educação. Nessas escolas, os alunos participantes são indicados com base nos critérios de risco e vulnerabilidade.

Para a realização do programa Tempo de Escola, optou-se pela aproximação com as organizações não governamentais da cidade por meio de um edital de chamamento, quando puderam conhecer o programa, saber de suas características e objetivos, para a realização de um convênio com a Secretaria de Educação. Nesse coletivo, um grande processo de formação foi realizado com a duração de um ano, garantindo que a diversidade de atores sociais envolvidos pudessem qualificar as propostas e consolidar princípios.

Foi necessário organizar o geoprocessamento da cidade e identificar espaços possíveis para a realização das oficinas, além dos espaços comuns das escolas e, nesse contexto, entraram os clubes, as praças, os ginásios esportivos, os salões de igrejas e centros comunitários, entre outros.

Os alunos do período regular também são beneficiados com essas propostas em horário de aula, evitando que o acesso a outras linguagens seja garantido apenas aos alunos que participam do programa de educação integral.

Hoje, aproximadamente 10 mil alunos são atendidos em horário regular. Eles fazem parte de 47 escolas. Observamos que a somatória das experiências próprias das organizações, alinhada à proposta da Secretaria de Educação, tem garantido a construção da identidade da educação integral na rede municipal.

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