Cenpec e Fundação Itaú Social assessoram projetos do poder público em educação integral

Os governos do Estado de Goiás e dos municípios de Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e Maringá (PR) buscaram essa parceria com o objetivo de garantir qualidade na ampliação da jornada escolar em seus territórios

O Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e a Fundação Itaú Social, há mais de 15 anos, vêm se dedicando à produção de conhecimento sobre educação integral e também ao trabalho de apoio às políticas públicas relacionadas com o tema e implementadas em todo o Brasil.

Por terem se tornado referência no assunto, durante o ano passado, a ONG e a fundação foram procuradas pelos representantes das secretarias de Educação do Estado de Goiás, e também dos municípios de Maringá (PR), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ), com um pedido de suporte ao desenvolvimento de programas de educação integral criados por esses órgãos governamentais, para aumentar a carga-horária escolar e aprimorar a qualidade do ensino em seus territórios.

Ainda que haja um período de ensino que vai além do horário escolar, o conceito de educação integral não se limita à extensão do tempo que um estudante passa na escola. Segundo informações sistematizadas pela Fundação Itaú Social e o Cenpec, que geraram, dentre outros trabalhos, a publicação “Tendências para Educação Integral”, de 2010, a ideia existe desde 1938, e pressupõe uma educação que leve em conta a interdisciplinaridade e a máxima diversidade das formas de aprendizagem, fazendo uso de outros espaços além da sala de aula, com a aplicação de diferentes tipos de linguagem e em constante intercâmbio com a realidade local.

“O conceito, a ideia de educação integral envolve sim mais tempo, mas não só isso, também outras formas de aprendizagem que o estudante não tem no currículo básico, utilizando diferentes linguagens e as oportunidades do território”, define Maria Estela Bergamin, coordenadora do núcleo de Educação Integral do Cenpec.

De acordo com a educadora, para compreender esse conceito, é preciso também admitir a incompletude de cada uma das instituições relacionadas com o processo de aprendizagem. “Se você está num território muito pobre, para que haja realmente uma educação integral, talvez só a escola não seja suficiente. Você tem que entrar com a questão da assistência social, da saúde, um programa de cultura, um programa para os pais, para que então tudo isso mobilize a aprendizagem da criança. É um conceito que está ligado às possibilidades do território e a outras políticas públicas, não só a educacional”, explica.

Como são muitos os fatores que interferem na consecução da educação integral, as formas de parceria entre instituições e setores da sociedade, com relação ao tema, também são variáveis e se modificam de acordo com as necessidades locais. Logo, as atuais parcerias do Cenpec e da Fundação Itaú Social com entes federados interessados em efetivar seus programas de educação integral, são construídas em diferentes modelos, segundo as peculiaridades de cada território e o estágio de desenvolvimento dessas diferentes políticas.
O trabalho de assessoria pedagógica oferecido pelo Cenpec vai desde o diagnóstico e a sugestão de melhorias à educação integral já aplicada em instituições de alguns territórios, até o apoio na redefinição de horários da jornada escolar e do conteúdo previsto às matrizes curriculares, assim como o treinamento de educadores, professores e gestores, para que estejam aptos a praticar a educação integral. Esse trabalho de formação geralmente aborda três grandes áreas temáticas: cultura e artes, corpo e movimento e ludicidade.
“Nós cuidamos muito para que os professores e gestores que vão receber a formação não tenham um curso teórico. Eles vão ter vivências, vão aprender a desenvolver algumas atividades, por exemplo, em Língua Portuguesa e Matemática, de uma forma diferente, com outras linguagens relacionadas à expressão visual, à prática teatral, e outras manifestações artísticas”, comenta Maria Estela.
Ela também explica que, a cada passo da formação, há a preocupação em contar com a colaboração de um perito na área de conhecimento que integra o currículo básico e outro especialista em alguma linguagem artística. “O objetivo é dar essa ideia de que a aprendizagem não ocorre só no cognitivo. Quando você vai aprender, você mobiliza diferentes capacidades. Quanto mais diversidade de linguagem você usar para abordar um conceito, maior a probabilidade de a criança aprender”.


Goiás

O primeiro ente federado a estabelecer essa parceria com a Fundação foi o Estado de Goiás, onde já há uma rede de 120 escolas que oferecem jornada escolar ampliada. A assessoria do Cenpec à Secretaria de Educação de Goiás começou com uma avaliação da política pública de educação integral desenvolvida no Estado, a pedido do governo estadual, que tem buscado aprimorar esse serviço.
A partir de tal diagnóstico, foi iniciada a construção de um “Plano de Reestruturação da Educação Integral em Goiás”, com objetivos, diretrizes e metas que devem ser concretizadas até 2014, bem como a reconfiguração dos horários e das Matrizes Curriculares das 120 Escolas de Tempo Integral, hoje sob a responsabilidade do Estado.
Também, em novembro do ano passado, ocorreu em Pirenópolis (GO) um processo formativo de 12 horas para 400 gestores da educação integral estadual, atuantes nas unidades educacionais ou na Secretaria e nos núcleos regionais de Educação, com o objetivo de socializar a ideia do programa, debatendo concepções, metodologias e resultados pretendidos.
Durante essa formação, foram priorizadas discussões sobre as concepções e os fundamentos da Educação Integral, e a articulação de aprendizados adquiridos nas oficinas de cultura e artes, corpo e movimento e ludicidade, com o currículo básico comum das escolas. Esse treinamento deve continuar em 2012.
“Nós vamos ter neste semestre ainda, talvez maio, uma grande formação em Goiás, para 320 gestores dessas escolas de educação integral. Vai ser um período de formação no qual vamos abordar especialmente a grade curricular deles nesse período ampliado, que inclui acompanhamento de Língua Portuguesa e Matemática, Arte e Cultura e Esportes”, informa Maria Estela.
De acordo com a educadora, ao longo desse processo, os educadores serão orientados sobre como trabalhar no acompanhamento pedagógico de Matemática e Língua Portuguesa de maneira lúdica, a partir da utilização de novas formas de linguagens. “A formação é para que os educadores possam fazer a criança aprender mais sobre a língua de um jeito mais interessante, agradável, e mais eficiente do que a metodologia tradicional que a gente tem no período do currículo básico”, acrescenta.


Belo Horizonte

Na capital mineira funciona o Programa Escola Integrada, que oferece jornada ampliada a adolescentes e crianças em escolas ou ONGs, por meio de parceria entre essas organizações e as unidades educativas municipais.
Em Belo Horizonte, há escolas com um currículo básico previsto para o turno da manhã, nas quais, à tarde, parte de seus alunos tem outras atividades dentro dessa mesma unidade de ensino, enquanto outros realizam a continuidade do aprendizado dentro de uma ONG do território. “A ampliação da jornada pode ser tanto na escola, como em outras instituições, ou também mista, como é o caso de escolas que não conseguem atender a todos os alunos no espaço da escola, durante o contra-turno”, explica a coordenadora do Núcleo de Educação Integral do Cenpec, Maria Estela.
Dentro desse contexto, o trabalho realizado atua na implantação do Programa Escola Integrada desde o ano passado, com a formação de gestores, professores comunitários, coordenadores e educadores de ONGs, gestores de escolas e técnicos regionais.
Em 2012, a parceria continua com o objetivo de potencializar o trabalho já desenvolvido e qualificar os resultados obtidos durante a primeira fase dos trabalhos de formação. O apoio técnico do Cenpec a essa política municipal também prevê a realização de visitas técnicas a ONGs e escolas, no dia subsequente ao trabalho de formação, com a finalidade de produzir insumos que colaborem com a definição de conteúdos e a elaboração de atividades a serem trabalhados nos futuros encontros. Também, por esse método, podem ser identificadas e registradas práticas exitosas de ONGs e Escolas.


Rio de Janeiro

Entre junho e dezembro de 2011, a Fundação Itaú Social e o Cenpec assessoraram a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro na implantação de Escolas de sete horas diárias. O governo municipal pretende estender esse turno a toda rede nos próximos dez anos. Em 2011, já havia 12 unidades educacionais funcionando com a ampliação da aprendizagem, além de outras experiências de educação integral, já consolidadas historicamente, como os Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) e, mais rentemente, as Escolas do Amanhã e os Ginásios Experimentais Cariocas.
Para consolidar o modelo da Escola de sete horas com vistas à sua universalização, a Secretaria de Educação do município propôs a identificação de potencialidades e desafios dessas outras experiências de ampliação da jornada, assim como elementos que poderiam ser incorporados à matriz curricular nas unidades educativas municipais.
Foram realizadas visitas técnicas a doze unidades educacionais, que culminaram na elaboração de dois documentos com impressões e recomendações, e levaram à proposição de alterações na matriz curricular que estão funcionando nas escolas municipais desde março de 2011, em caráter piloto.
O segundo passo da parceria se dará com o acompanhamento da efetivação da educação integral nas escolas de sete horas que aplicarão a essa nova matriz. Dentre essas, que somam 101 unidades, serão observados 31, cujos índices de aprendizagem estão abaixo da média. Essas escolas contarão com a avaliação de 10 técnicos das Cres (Coordenadorias Regionais de Educação), que serão assessorados pelo Cenpec no monitoramento dos processos de gestão e na avaliação da proposta pedagógica das escolas. A parceria também prevê a reavaliação do currículo, com a inclusão da metodologia de oficinas e projetos que empreguem diferentes linguagens.

 


Maringá

A rede municipal de Maringá conta com 94 escolas, sendo 45 destinadas ao Ensino Fundamental. Em 2009, a Secretaria de Educação do município aderiu ao Programa Mais Educação do governo federal, iniciando programas-piloto de ampliação de jornada, em duas escolas. Em 2010, houve extensão da proposta a mais cinco unidades e, no ano passado, para mais 12. Hoje são 19 escolas de ensino fundamental do 1° ao 5° ano que oferecem jornada escolar aumentada no município.
A maioria desses estabelecimentos educacionais funciona em territórios de alta vulnerabilidade social e oferece mais quatro horas diárias de atividades às crianças, que são realizadas em grande parte nas próprias escolas. Sua matriz curricular abrange atividades de Acompanhamento Pedagógico, Artes em suas diferentes linguagens e Esportes.
Nesse cenário, a parceria entre a Fundação Itaú Social, o Cenpec e a Secretaria de Educação do Município é recente e prevê formação continuada a gestores, educadores e professores, planejamento e elaboração de atividades curriculares, e também reuniões mensais e visitas bimestrais a três escolas, para acompanhamento e registro do processo de implantação do programa.
Os conteúdos da formação dos educadores terão como eixos: os conceitos e os referenciais para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, a importância de seu papel como educador num programa de Educação Integral e a ampliação de repertório didático nas diferentes linguagens.


Produção de conhecimento

Paralelamente a esses projetos, a Fundação e o Cenpec estão produzindo uma nova publicação sobre educação integral, na qual serão sistematizados e divulgados novos conhecimentos relacionados ao tema.
O trabalho, que aprofunda e dá prosseguimento ao conteúdo da publicação “Tendências para a Educação Integral”, de 2010, resultará de estudos e coletas de dados realizados em todo o Brasil, a partir da análise de como diversas instituições têm organizado seus programas de educação integral ou de ampliação da jornada nos municípios brasileiros.

Quadros Conteúdo relacionado

Faça um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Total de 0 comentário(s)