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Debate: “Não dá para fazer educação integral somente na sala dos professores”

Transmitido ao vivo na última quarta-feira, 3/9, debate discutiu o espaço de aprendizagem na educação integral e abordou conceitos como cidade educadora, ocupação de território, intersetorialidade, corresponsabilidade e empoderamento com base nas experiências no município de São Bernardo do Campo (SP)

A educação integral não se realiza apenas pela ampliação do tempo de aprendizagem, mas também pela ampliação dos espaços e dos tipos de aprendizagem. Nessa concepção, que tipos de espaços podem ser abordados em estratégias de educação integral? Qual a qualidade desses espaços? Quais os desafios e as estratégias possíveis no processo de ampliação?

Essas e outras questões foram discutidas no debate virtual “Espaços de aprendizagem na educação integral”, transmitido no último dia 3 de setembro, do qual participaram a arquiteta, consultora e pesquisadora do Grupo Ambiente Educação (GAE/FAU/UFRJ) Beatriz Goulart; e a psicóloga e pedagoga Grace Luciana Pereira, responsável pela seção de Programas Educacionais na Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo (SP), que desenvolve o programa de educação integral Tempo de Escola.

Assista o debate na íntegra:


O evento, realizado no auditório do Cenpec, foi mediado por Patrícia Mota Guedes, gerente de Educação da Fundação Itaú Social, e contou com a contribuição dos internautas, que enviaram perguntas reunidas em dois grandes blocos.

Grace Pereira abriu o debate explanando a estrutura do Programa Tempo de Escola, iniciado em São Bernardo do Campo em 2010. A pedagoga destacou a ação tripartite do programa, que conta com a participação da Secretaria de Educação do município, de 47 unidades escolares de Ensino Fundamental e de 80 organizações da sociedade civil (ONGs).

Em São Bernardo do Campo, o programa prevê que as ONGs, que precisam previamente ter um trabalho realizado no município, articulem as escolas e a comunidade circundante e contem com a contribuição de educadores oriundos da própria comunidade em uma estrutura de equipe – que inclui esses educadores; agentes de apoio, que os auxiliam nas oficinas; coordenadores pedagógicos; e coordenadores técnicos, responsáveis por mapear a cidade.

Educação e transformação

A iniciativa se guia pelo conceito de cidade educadora, em que espaços como centros comunitários, parques, clubes etc. e as pessoas que deles participam e neles circulam tornam-se parceiros na educação de crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, os espaços são ocupados pelos alunos, que passam a lhes dedicar um olhar transformador.

O olhar transformador no Tempo de Escola se realiza na avaliação, por parte dos alunos, do que pode ser melhorado, nas conversas entre os alunos e moradores por meio de um chamamento da população e na parceria com comerciantes locais. O resultado, segundo Grace Pereira, é que hoje 47 espaços estão sendo transformados na cidade, pela intervenção dos estudantes.

Ainda segundo ela, o Tempo de Escola tem estimulado a intersetorialidade, ao propiciar o diálogo entre os alunos e as diferentes secretarias municipais, o diálogo entre as próprias secretarias e o questionamento à população sobre o tipo de cidade que esta quer para si. Para a pedagoga, o processo tem como resultados positivos tirar o educador da zona de conforto, transformando-o em agente de pesquisa, e empoderar as crianças. Foram citados exemplos de projetos, oficinas e intervenções, como a solicitação do piso ecológico em seis ruas da cidade, feita pelos alunos, e a prática do esporte slackline, que trabalha o senso de colaboração entre eles.

Em sua participação inicial, Beatriz Goulart parabenizou a experiência de São Bernardo do Campo, “[onde] secretário recebe criança e arquitetura não é só para quem se formou”. Goulart destacou as teses do educador espanhol César Muñoz, do fazer “a partir de” e “com”, em vez de “para” – e diferenciou os conceitos de educação integral e de educação em tempo integral: “A educação integral pode ser feita em cinco minutos”.

Para a arquiteta, é positivo “bagunçar” o jeito de fazer escola que havia até dois ou três séculos atrás, e a discussão sobre o espaço de aprendizagem resvala no direito à cidade, como postulava Henri Lefebvre. Goulart também postulou uma ampliação da gestação tripartite explanada por Grace Pereira na experiência de São Bernardo do Campo e destacou a importância do Conselho Gestor da escola. Para a consultora, é preciso discutir o currículo sob a perspectiva de território expandido, o que recai nas discussões sobre como expandir a pedagogia e sobre a formação dos professores – mas também na necessidade de a gestão ser participativa e o Conselho Gestor, autônomo.

No que diz respeito ao poder público, Goulart criticou o fato de que a educação integral ainda é um tema abordado apenas nas secretarias de Educação e defendeu que o Plano de Educação e o Plano Diretor do município sejam discutidos em conjunto, unificados, para a efetiva produção de um território educativo.

Vínculos, conflitos e coletividade

O primeiro bloco de perguntas tratou do preconceito contra os espaços que não são considerados “bonitos”, além da preocupação de como lidar com a segurança durante a circulação dos alunos pelos espaços e como abordar a questão com os familiares. Finalmente, duas questões provocativas discutiram se a ideia de sair da escola vem do fato de a própria escola “não melhorar por dentro” e a problemática da intersetorialidade, de como articular diferentes agentes públicos em torno de um projeto educativo.

Em resposta a esses questionamentos, Grace Pereira destacou a importância do vínculo com a comunidade e os pais. Não apenas é importante ter os educadores próximos à comunidade – com, por exemplo, o envolvimento de associações de bairro –, como também a reunião de pais constitui um valioso instrumento, no qual os vínculos são estabelecidos e o avanço dos alunos é discutido.

Para Beatriz Goulart, a palavra-chave é “corresponsabilidade”. A arquiteta citou dois projetos, dos bairros-escola Vila Madalena, em São Paulo, e no município de Nova Iguaçu (RJ), como exemplos de iniciativas que provocaram a comunidade e o bairro para o envolvimento na educação: “A educação é ali mesmo”.

Goulart também fez uma retomada histórica da ideia de cidade educadora, que surgiu na Barcelona da década de 1990, e resgatou a proposta de Caminho Escolar, que envolvia o comércio como parceiro ao conceder um selo aos estabelecimentos. Para ela, a cidade educadora não pode se instalar sem conflito – a solução é aceitar o conflito e encontrar soluções coletivas para superá-lo.

Em novo aparte, Grace Pereira pontuou que, no Tempo de Escola de São Bernardo, as crianças descobriram a força do coletivo como maneira de construir cidadania e se fazer ouvir em suas propostas.

Sobre a questão de ir “para fora” dos muros da escola, explicou que, inicialmente, houve a necessidade de buscar novos espaços porque algumas escolas não os possuíam. No entanto, há outras que os têm – mesmo assim, o processo de ir “para fora” se consolidou porque se mostrou necessário ir para a comunidade mesmo havendo esse espaço. “Para entender a cidade como espaço educativo, a gente precisa ocupar”.

A intersetorialidade, tema do debate virtual anterior, foi abordada como problemática, na medida em que, nas palavras de Grace Pereira, o diálogo entre as diferentes secretarias ainda é difícil. O que facilita, segundo Pereira, é haver um projeto claro, escrito e validado pela comunidade e apresentado a diferentes agentes.

Beatriz Goulart aproveitou para pontuar que o processo cria uma intersetorialidade entre as próprias crianças e mencionou outras experiências de intersetorialidade, inclusive expandida, como a do Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento da Chapada Diamantina (CIDECADI), do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (ICEP), na Chapada Diamantina (BA), envolvendo, inclusive, mais de um município.

Superando as barreiras

As últimas perguntas dos internautas questionaram sobre o público que já estava na escola – professores, gestores etc. – e sua reação às novidades; e sobre a existência de propostas específicas para escolas rurais e ribeirinhas, além de questões próprias envolvendo as diferentes fases do ensino – Fundamental I e II e Médio.

Grace Pereira iniciou sua fala comentando que houve uma “desestabilização” dos gestores quando o Tempo de Escola começou a ser introduzido, com uma divisão entre os que se abriram às ideias e os que as consideravam “loucura”.

A dificuldade foi contornada com a ida dos educadores à sala de aula, a formação semanal dedicada a esses educadores e a participação dos coordenadores que já estavam nas escolas na criação do projeto político pedagógico. “A equipe gestora comprometida faz diferença”, pontuou a pedagoga.

Beatriz Goulart citou que a educação integral “joga mais vida” na escola, ao causar estranhamento nos monitores – e ressaltou a importância da participação do professor de sala na construção do projeto, em sistema colaborativo.

A respeito das escolas rurais e ribeirinhas, Grace Pereira citou que, em São Bernardo do Campo, existem bairros que podem ser considerados rurais, nos quais a escola é o centro da comunidade. Se, por um lado, esses bairros apresentam potencialidades que inexistem em outras regiões mais urbanas, como um maior espaço físico com árvores e ruas para brincar, por outro lado, existe uma carência de produtos culturais, que fatalmente serão disponibilizados na escola. Nesse caso, o trabalho tem de ser revestido de intensa ludicidade, dada a responsabilidade da escola para com essas comunidades.

Sobre as especificidades dos diferentes estágios de ensino, é preciso levá-las em conta, comentou Grace Pereira, mas não transformá-las em barreira ou “preparação” para um estágio posterior – e, para isso, faz-se necessário escutar o que as crianças têm a dizer.

Goulart pontuou que, em sua visão, o Brasil é essencialmente rural, com cidades pequenas e existência, por exemplo, de comunidades indígenas e quilombolas que foram atropeladas por uma “cultura letrada”. “Temos uma dívida com o campo”, disse a arquiteta, segundo a qual ainda não se aprendeu a olhar, de fato, essas comunidades. Iniciativas como o Ensino Médio Inovador, no entanto, vêm ao encontro dessa realidade, ao propor espaços de aprendizagem a serem moldados da forma que o coletivo quer que seja.

Por fim, Grace Pereira destacou que o Tempo de Escola ainda não tem todos os caminhos, apesar dos resultados da experiência. “Pensar a criança [na] integralidade”, diz Pereira, é ainda “o grande desafio” – e, nesse sentido, o olhar de estranhamento é importante, pois possibilita discutir com outros olhares os espaços: “Não dá para fazer educação integral somente na sala dos professores. É preciso muito mais do que isso”.

 

Para saber mais

Indicações de leitura sobre conceitos discutidos no debate:

 Educação integral: experiências que transformam, de César Muñoz Jiménez

 Qual a cidade educadora que queremos?, de Fernando José de Almeida, Âmbar de Barros, Marco Aurélio Nogueira e Selma Rocha

 Intersetorialidade: o desafio de uma nova arquitetura de gestão em Betim, de Dalvonete Aparecida dos Santos e Darli de Souza Dias

 Sobre a cidade e o urbano em Henri Lefebvre, de James Amorim Araújo

Tagsdebate virtual, infraestrutura e espaço, intersetorialidade, políticas de educação integral, políticas públicas, território

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  •    luiz miguel galvao queiroz  em