Debate sobre currículo na Educação Integral: temos que dar janelas e não espelhos para os estudantes

Transmitido ao vivo, o evento inaugurou o fórum online de discussão sobre Proposta Curricular na perspectiva da Educação Integral.

“Temos que dar janelas e não espelhos para os estudantes”. Assim afirmou Lucia Couto, ex-secretária de Educação nos municípios de Diadema e Embu das Artes e especialista no assunto, durante o Debate sobre Proposta Curricular na Educação Integral, realizado hoje (23 de outubro), no auditório do Centro de Estudos e Pesquisas para Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). O evento inaugurou o fórum online de discussão, que permite ao participante um canal de debate para aprofundar, nas próximas semanas, o tema da proposta curricular na educação integral.

O debate contou ainda com a participação Paula Louzano, doutora em política educacional pela Universidade Harvard e pesquisadora da USP e foi mediado pela coordenadora técnica do Cenpec, Maria Amábile Mansutti.

Num primeiro momento, Paula Louzano afirmou que o Brasil não tem uma política curricular clara e objetiva em comparação com outros países desenvolvidos e em relação à América latina. Essa falta de clareza, segundo ela, demonstra uma ineficiência do planejamento educacional referente ao que se ensina e como se ensina nas escolas públicas brasileiras. Para Paula, nenhum país concede a outras instâncias a definição do conteúdo curricular de seu território, ou seja, o Estado exerce o controle sobre o que será ensinado em âmbito nacional.

Paula Louzano: "com a diminuição  das obrigações impostas às escolas,  o professor consegue atuar com maior  liberdade e autonomia para propor  novas práticas e conteúdos para  seus estudantes
Paula Louzano: “com a diminuição
das obrigações impostas às escolas,
o professor consegue atuar com maior
liberdade e autonomia para propor
novas práticas e conteúdos para
seus estudantes

Para explicar melhor essa perspectiva, Paula contou a experiência da Finlândia, país localizado na região norte do continente europeu. Após passar por uma reforma curricular no sistema educacional, o país propiciou maior autonomia aos seus professores, pois conseguiu diminuir o conteúdo curricular nacional. “Antes, havia um documento de 700 páginas descrevendo o conteúdo didático que deveria ser ensinado nas escolas finlandesas; hoje, esse documento conta com 300 páginas. E o que isso significa? Significa que, com a diminuição das obrigações impostas às escolas, o professor consegue atuar com maior liberdade e autonomia para propor novas práticas e conteúdos para seus estudantes”, afirmou Paula.

Já em Cuba, o professor não tem nenhuma autonomia, pois o currículo é minuciosamente detalhado, sem nenhum espaço para a atuação autônoma e criativa do professor, completou ela.

A diferença entre escola de tempo integral e de educação integral foi enfatizada por Lúcia Couto. Para ela, há no país ações concretas para aumentar a carga horária, que servem apenas para proporcionar reforço escolar aos estudantes que possuem dificuldades no aprendizado. “A pergunta que devemos fazer é esta: os estudantes necessitam de mais tempo para quê? Eles não precisam de mais tempo apenas para satisfazer necessidades cognitivas e intelectuais, mas também para discutir temas relacionados à ética, às artes e a outros assuntos pertinentes à compreensão da sociedade contemporânea; portanto é preciso ampliar o tempo e o conceito atual sobre a educação brasileira”, declarou Lucia. De acordo com ela, para que isso ocorra, a escola deve utilizar outros espaços públicos, para proporcionar aumento de repertório e de novos valores para as crianças e jovens do país.

Lúcia Couto: A pergunta que devemos fazer  é esta: os estudantes necessitam de mais  tempo para quê? Eles não precisam de mais  tempo apenas para satisfazer necessidades  cognitivas e intelectuais, mas também para  discutir temas relacionados à ética, às artes  e a outros assuntos pertinentes à  compreensão da sociedade contemporânea;  portanto é preciso ampliar o tempo e o  conceito atual sobre a educação brasileira
Lúcia Couto: A pergunta que devemos fazer
é esta: os estudantes necessitam de mais
tempo para quê? Eles não precisam de mais
tempo apenas para satisfazer necessidades
cognitivas e intelectuais, mas também para
discutir temas relacionados à ética, às artes
e a outros assuntos pertinentes à
compreensão da sociedade contemporânea;
portanto é preciso ampliar o tempo e o
conceito atual sobre a educação brasileira

Para ilustrar como a escola pode se apropriar de novos espaços físicos e de novos conteúdos curriculares, Lúcia relatou a experiência no município de Diadema. Na época, quando era secretária de educação, a intenção era implementar nas escolas diversas atividades culturais. Como a própria secretaria não tinha experiência nesse assunto, fizeram uma parceria com as organizações não governamentais que já atuavam no território. Essa junção proporcionou maior interação da escola com a comunidade, além de permitir aos estudantes o contato com novas linguagens – aulas de canto, teatro, dança, entre outras.

Para finalizar o debate, foi destacada a importância de uma base nacional comum curricular. Para Paula Louzano, deve haver um pacto nacional para criá-la. Nesse sentido, a discussão curricular deve ser prioritária em relação ao sistema avaliativo. “A política pública educacional deve agregar os municípios, num sistema de cooperação para propiciar novos valores ao currículo nacional”, explicou. Um exemplo de como construir essa base nacional comum foi a implementação da lei nº 10.639, que incluiu o estudo da história e da cultura afro-brasileira nas escolas públicas e particulares de educação básica do país. “A história africana faz parte da nossa formação cultural, ou seja, devemos valorizá-la no âmbito nacional como forma de agregar novos valores importantes que fazem parte da nossa identidade. Essa lei é um exemplo claro de como instituir concepções básicas que atendam a demanda complexa e plural do país; independentemente da diversidade brasileira, esse tema se refere a toda população”, disse.

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Total de 1 comentário(s)

  •    Sueli Regina  em 
         Educação&Participação respondeu em