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Debate virtual: “A organização não pode ser um apêndice na escola: ela tem que se inserir nesse trabalho de uma forma orgânica”

De que forma uma organização da sociedade civil (OSC) pode estabelecer parceria com uma escola pública visando à educação integral? Por que a formação dos educadores é tão importante nesse processo? Como superar conflitos e desafios?

Essas e outras questões foram abordadas pelas especialistas Regina Estima e Eliane Ferreira Silva, com mediação da pedagoga Maria José Reginato, no debate virtual Relação ONG-escola: formando e fortalecendo educadores, realizado no último dia 27 de agosto, às 10h30. O debate integra as ações da Assessoria às Organizações Finalistas e Escolas Parceiras da 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.


“A parceria entre a OSC e a escola é uma construção, ela não está dada. Este é o objetivo das nossas formações: construir essa parceria para uma ação conjunta que não deve diluir nenhuma das características e propósitos de cada instituição, mas também não é uma mera justaposição” (Maria José Reginato)


Educadores e educandos: sujeitos de direito

Para Eliane Ferreira Silva, o educador tem uma formação tripartite: política, institucional e da prática. O desafio é, portanto, pensar em que momento esses níveis dialogam para formar um todo significativo que contribua para o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens.

A especialista dá algumas pistas de como estabelecer esse diálogo: primeiro, conhecer as bases que sustentam o currículo da instituição na qual o educador se insere; segundo, reconhecer a pessoa que se apresenta para ser educador como um sujeito e considerar que o processo de formação é tão mais bem-sucedido quanto maior for a participação coletiva, tanto por parte da OSC como por parte da escola.

Para isso, a formação não pode deixar de considerar alguns eixos fundamentais: a gestão democrática, quando profissionais de OSCs e escolas sentam juntos para pensar que saberes, conhecimentos e formações são pertinentes para determinado contexto; conhecimento do contexto onde o trabalho vai acontecer; e abertura para o novo: conhecer as crianças e os adolescentes que produzem e elaboram conhecimento.

De acordo com Eliane, a produção de conhecimento formativo não pode acontecer dissociada do momento atual que vivemos – em que jovens, adolescentes e crianças elaboram e produzem conhecimentos próprios, de uma maneira diferenciada.

Citando Miguel Arroyo e sua obra Imagens quebradas, ela pontua que é necessário que a escola compreenda que a contemporaneidade e o avanço tecnológico nos colocam diante de uma outra criança: “Desconsiderar que a criança e o adolescente que estão na escola produzem conhecimento de uma forma muito própria pode colocar a perder o trabalho que vai ser desenvolvido com essa criança, com esse adolescente”.


“A partir das novas tecnologias, hoje nós temos outras tantas formas de aprender. Não se pode pensar um trabalho de costas para essas realidades” (Eliane Ferreira Silva)


A contemporaneidade, portanto, requer dos educadores uma formação para a ética, para a solidariedade e para o protagonismo juvenil e da infância. “[É preciso] assumir como verdade que estamos dispostos a trabalhar a autonomia e o protagonismo de nossas crianças”, diz Eliane.

Intencionalidades explicitadas

A coordenadora de projetos apoiados do Cenpec, Regina Estima, falou de sua experiência a partir da implantação do Programa Tempo de Escola em São Bernardo do Campo (SP) e abordou tanto as diferenças como as complementaridades entre os trabalhos de OSCs e de escolas no território que ocupam.


“A contribuição das OSCs favorece a relação de crianças e jovens com as novas formas e práticas sociais nos territórios. Uma coisa que me chamou a atenção é que o trabalho pedagógico envolvendo diferentes linguagens, o que Roxane Rojo chama de multiletramento, é bem conduzido pelos educadores sociais” (Regina Estima)


Regina pontua que há dificuldades iniciais no diálogo, marcadas por desconfiança e conflito. Para ela, a superação passa por reconhecer que os desafios são propostos a todos, tanto professores como educadores sociais, diante da diversidade e da complexidade das demandas que existem hoje. Os conflitos, portanto, precisam ser discutidos, e os vínculos entre os educadores do território, estreitados.

Esse estreitamento é passível de ocorrer a partir do conceito, proposto por ela, de intencionalidades explicitadas: a OSC tem uma intencionalidade pedagógica, assim como a escola. Quando o diálogo entre ambas acontece de forma mais orgânica, expor essas intencionalidades é importante na medida em que fortalece as identidades de OSCs e de escolas e explicitam seus propósitos. Cabe à formação realizar essa aproximação. “A formação que tem como princípio ação-reflexão-ação favorece o fortalecimento de vínculos, de práticas educativas e da qualidade pedagógica das atividades”, conclui Regina.

As participantes

Eliane Ferreira Silva: diretora de escola pública, é graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduada pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, dirige uma escola pública na Penha, na cidade do Rio.

Regina Estima: professora e diretora aposentada das redes públicas de São Paulo, graduada em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP). Foi gestora e formuladora de políticas públicas na Secretaria Municipal de Educação na Prefeitura de São Paulo e atualmente atua no Cenpec, coordenando e acompanhando projetos educacionais nos sistemas públicos de ensino.

Maria José Reginato: professora e pedagoga, com trajetória na rede de ensino municipal de São Paulo, atuando como professora, coordenadora pedagógica e formadora, na gestão de Paulo Freire. No Cenpec, participou de diferentes projetos e produções. Atualmente, é responsável pelo Banco de Oficinas de educação integral na plataforma Educação&Participação (Fundação Itaú Social/Cenpec) e colaboradora do Prêmio Itaú-Unicef.

 

Saiba mais

> Saiba mais sobre o Programa Tempo de Escola no debate virtual Espaços de aprendizagem na educação integral e aprofunde-se no tema da gestão democrática assistindo ao debate virtual Como acontece o direito à educação integral na ONG e na escola?;

Maria José Reginato concedeu entrevista na sequência do debate. Leia aqui

Tagsorganização, OSC, parceria

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