Debate virtual: “Em muitas escolas e redes de ensino, a educação integral significou apenas a oferta ampliada de algumas atividades, sem a perspectiva de articulação e, sobretudo, sem avaliar essa ampliação”

Realizado na quarta-feira, 3 de dezembro, evento aprofundou experiências e conceitos relacionados a avaliação e monitoramento de programas e políticas de educação integral

 

Escrito por João Marinho

Como lidar com a avaliação de programas de educação integral diante da expansão de políticas nesse sentido? Como a avaliação pode contribuir, ela mesma, para a implementação de políticas de educação integral? Como avaliar o conteúdo diversificado do currículo? O que não pode deixar de ser observado ou avaliado? Seria correto avaliar atividades lúdicas? Índices como o Ideb, Prova Brasil, Pisa etc. são suficientes para avaliar a qualidade da educação integral oferecida aos estudantes?

Essas e outras perguntas foram abordadas no debate virtual Avaliação na educação integral pelos especialistas Ocimar Munhoz Alavarse, doutor em Educação e professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), e Débora de Lima Marreiro, pedagoga com especialização na área de Educação e coordenadora pedagógica do Programa Escola Total, de Santos (SP), com mediação da coordenadora técnica do Cenpec, Maria Amábile Mansutti.

AVALIANDO CONCEITOS

Para Ocimar Munhoz, só existe avaliação quando há um julgamento, a emissão de um juízo. No caso da educação integral, a avaliação constitui avaliação institucional, ou seja, aquela que busca julgar a ação da instituição, da organização – e julga-se a ação de dois entes que se encontram articulados, mas não se confundem: as escolas e as secretarias.

Desse modo, é preciso delimitar o que se quer julgar e, ao mesmo tempo,definir critérios a fim de apontar perspectivas de novas ações e tomadas de decisões. Outro aspecto é definir quem é o sujeito da avaliação: quem a conduz – e, aqui, Munhoz ressalta a importância de convidar os beneficiários das políticas, ou seja, os próprios alunos, para contribuir: “Dar voz a esses alunos, permitir que eles exercitem esse espaço de avaliação é algo bastante relevante”. 

O VELHO E O NOVO: ABERTURA PARA O DIÁLOGO

Mesmo assim, sustenta o professor, a educação integral não traz uma nova avaliação, mas novos desafios, “talvez em condições de serem enfrentados num patamar superior ao [do] que nós chamamos de educação não integral, ou escola de tempo parcial”. Entre esses desafios, está o diálogo entre o novo e o antigo.

Escola de massas

Para Ocimar Munhoz, a educação integral constitui um esforço de ampliação de um conjunto de atividades que a escola propõe a seus alunos, e essa a ampliação lida com uma tradição, a da escola de massas, que, no Brasil, se estruturou em torno de alguns conhecimentos das áreas mais consagradas. No Ensino Fundamental, Língua Portuguesa; Matemática; História; Geografia; Ciências (que abarcam Física, Química, Biologia); Arte; Língua Estrangeira, notadamente o inglês; e Educação Física

Para Munhoz, a educação integral estabelece um diálogo com a tradição que a precede, que acabou caracterizada por uma delimitação curricular insuficiente, fosse porque algumas áreas não eram contempladas, fosse porque mesmo as que eram, da maneira que estavam sendo apresentadas, não alcançavam o sucesso pretendido para seus alunos.

É nesse momento que a educação integral vai dialogar com esse quadro, na medida em que ressalta a necessidade de ampliação do conjunto de áreas (ampliação curricular) e, em alguns casos, como o da Arte, uma demarcação mais precisa de que ela é uma área plural. Trata-se, portanto, de umaampliação cultural a ser traduzida na organização curricular da escola.

Para Munhoz, essa ampliação se insere na própria ideia de justificar a obrigatoriedade do ensino. Segundo o professor, o Ensino Fundamental é obrigatório no Brasil, e, à medida que impomos às crianças a frequentar a escola, “temos uma tarefa, que é de justificar essa obrigatoriedade – e nós acreditamos […] que essa obrigatoriedade se coloca como uma necessidade de ampliar o desenvolvimento desses alunos, na perspectiva de que esse desenvolvimento cultural não ocorreria se não fosse indo para a escola”.

Avaliações cognitivas

Um aspecto importante da avaliação em educação integral, para Ocimar Munhoz, é o das avaliações cognitivas: “Sou da opinião de que muito do que a escola fazia não fazia completamente, e nós temos fartos resultados que evidenciam isso. A avaliação desses domínios cognitivos não pode ser diminuída e, muito menos, menosprezada, [pois] a educação [em tempo] integral não aparece para negá-los: entre outras possibilidades, ela também aparece para criar melhores condições de apropriação”

Desse ponto de vista, a educação
integral tem, portanto, de articular essa ampliação curricular que envolve diálogo entre antigos e novos objetos do ensino, propiciar uma melhor aprendizagem dos alunos e, necessariamente, envolver os profissionais de educação no processo. “Em muitas escolas e redes de ensino, a educação em tempo integral significou apenas […] a oferta ampliada de algumas atividades, sem a perspectiva de articulação e, sobretudo, sem avaliar, sem julgar essa ampliação”, critica o professor. “A educação integral traz a ideia de ampliação, mas é uma ampliação que vai na direção do que a educação regular, de tempo parcial, já se propõe a fazer há muito tempo, mas não consegue. Então, na hora de pensar o currículo, não é um currículo ‘diferenciado’, mas um currículo que vai dando conta das coisas que nós, há muito tempo, queremos fazer”, concorda a mediadora Maria Amábile, em um aparte.
É, porém, exatamente na formação dos profissionais de educação que se encontra mais um desafio. Para o professor Munhoz, os profissionais são produtos de um tipo de escolarização, via de regra, marcada por uma delimitação cultural: “Muitas vezes, essa ideia de uma ampliação curricular expressa na educação integral tem de ser desenvolvida por pessoas que nunca tiveram esse tipo de experiência”.

Escola total, cidade educadora

Criado em 2006, o Programa Escola Total prevê a implementação da educação integral no município de Santos (SP) sob a perspectiva de uma cidade educadora. Além da ampliação da jornada escolar, a iniciativa busca oferecer a crianças, adolescentes e jovens atividades e oficinas lúdico-pedagógicas nas áreas de esportes, arte e cultura, minimizando sua exposição
a riscos sociais e, consequentemente, melhorando seu rendimento escolar.

Em 2013, houve uma reelaboração do programa e dos fundamentos de sua avaliação, que passou a incluir a mandala de avaliação das aprendizagens.

A EXPERIÊNCIA DE SANTOS (SP)

Experiência e construção coletiva foram os motes da participação de Débora de Lima Marreiro, que apresentou os fundamentos da avaliação do Programa Escola Total, de Santos, no litoral paulista.

Segundo Débora, o Escola Total atua em dois formatos no município: nas escolas de tempo integral, em que as crianças permanecem o período integral na escola, e no atendimento em núcleos, em que as crianças saem da escola após o período regular e passam a ser atendidas em outros agentes no território.

A avaliação do programa se baseia nos quatro pilares da educação da Unesco e em três controles:

– controle de frequência;

– formação dos educadores, de maneira continuada;

– avaliação e monitoramento.

Que, por sua vez, remetem-se a cinco dimensões:

– infraestrutura e condições materiais;

– acesso e permanência;

– articulação no território;

– formação dos educadores;

– práticas educativas;
No processo de avaliação, informou a coordenadora, não são envolvidos apenas os educadores, mas também os alunos e seus pais. A prática aprofunda uma característica democrática e o conceito de coavaliação.
Um dos destaques dados por Débora foi exatamente oriundo dos relatos de crianças, em especial no que dizia respeito à violência – a definição que as crianças adotavam, de uma perspectiva mais física e concreta, em contraposição à definição que os adultos adotavam.
Segundo a coordenadora, os resultados são coletados e discutidos com os educadores e são compartilhadas as descobertas e inquietações, como a questão da violência. Da mesma forma, são feitas perguntas e pesquisas a fim de traçar novos rumos. Desse modo, a avaliação realiza um diagnóstico e, com base nele, podem-se desenhar novos caminhos e uma retomada de rota.

Pilares da educação

Os quatro pilares da educação são conceitos de fundamento da educação baseados no Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenado por Jacques Delors (fonte:pt.slideshare.net/soaresd2004/delors-jacques-et-al).

No Brasil, o relatório foi publicado em livro com o título Educação: um tesouro a descobrir pela editora Cortez. Nesse livro, os pilares – aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver juntos (ou a conviver); eaprender a ser – são discutidos no quarto capítulo, que se encontra transcrito on-line, com autorização da Cortez, neste site. Um conteúdo mais completo do relatório pode ser visualizado aqui.

 Assista abaixo à íntegra do debate e à apresentação da experiência de Santos (SP):

 

OS DEBATEDORES

 

Ocimar Munhoz Alavarse: licenciado em Pedagogia pela Universidade Federal de São Carlos (1984) e mestre (2002) e doutor (2007) em Educação pela Universidade de São Paulo, Ocimar é professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), onde coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional (Gepave), investigando, principalmente, os temas de ciclos, progressão continuada, gestão educacional e avaliação educacional.


Débora de Lima Marreiro:
 pedagoga com especialização na área de Educação, Débora é coordenadora pedagógica do Programa Escola Total, de Santos (SP).

Para saber mais

 

380x260_editGuia Políticas de Educação Integral: orientações para implementação no município informa que o acompanhamento e a avaliação da política de educação integral são processos que devem focar prioritariamente as aprendizagens de crianças, adolescentes e jovens e a condução do processo pelos profissionais, pelas instituições e pela própria Secretaria de Educação.

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