Debate virtual: “Quanto mais democrática for a escola, mais integral ela será”

Prática reflexiva, autonomia, sujeitos de direito, gestão democrática. Esses foram alguns dos conceitos-chave abordados no debate virtualComo acontece o direito à educação integral na ONG e na escola?, que ocorreu no dia 29 de outubro, das 11h às 12h (horário de Brasília).

O evento marca o segundo tema da Sala de Debates A garantia do direito à educação integral: papel de ONGs e escolas, ambiente virtual que é iniciativa do Prêmio Itaú-Unicef e reúne profissionais de diversos lugares do País – de ONGs, escolas, universidades, gestão pública – interessados em discutir e aprofundar questões sobre o assunto.

Mediado pela repórter Dani Moura, do Canal Futura, o debate contou com a presença de Sueli de Lima, coordenadora da ONG Casa da Arte de Educar, vencedora nacional do Prêmio Itaú-Unicef em 2009; e Eliane Ferreira Silva, pedagoga, diretora de escola pública no Rio de Janeiro (RJ) e mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). A abertura foi de Nazira Arbache, coordenadora do Prêmio Itaú-Unicef.
 

Diálogos interculturais

Já respondendo a uma pergunta lançada por Dani Moura – como garantir que a escola esteja preparada a receber crianças visando à educação integral? –, Eliane Ferreira abriu o debate com uma citação de Anísio Teixeira, segundo o qual educação não é privilégio, é direito.

Para Eliane, a concepção que se tem de escola é a primeira garantia para a implementação da educação integral: é preciso que a escola entenda a educação como direito, pensando o espaço escolar, a formação dos professores e compreendendo, sobretudo, o território onde se encontra.

Para a pedagoga, o Plano Nacional de Educação (PNE) traz o desafio de estender a educação em tempo integral para escolas que, originalmente, não foram pensadas para recebê-la e de pensar o horário integral para jovens e adolescentes.

Dessa forma, pensar a educação em tempo integral é ter em vista que não haverá um único modelo que dará conta da estruturação do horário integral de todas as escolas e que, sozinha, a própria escola não dá conta da integralidade: é preciso que ela tenha um conhecimento de quem é o aluno e de quem é sua família, o que só se dá por uma prática reflexiva que deve envolver todos os atores sociais: “A educação não é um papel só da escola: educação é uma responsabilidade de toda a sociedade”.

PNE em discussão

O Cenpec lançou um especial para ajudar na implementação dos Planos Municipais de Educação (PMEs), que devem se articular com o PNE. 

Abordando a responsabilidade das ONGs como um desses atores sociais, Sueli de Lima utilizou o trabalho da Casa da Arte de Educar, no Rio, como um exemplo da necessidade de aproximar professores de carreira acadêmica e educadores do território e lideranças comunitárias. Para a educadora, a construção de um projeto pedagógico com atores de diferentes experiências é um desafio, mas também importante e enriquecedora.

Mandala dos Saberes 

Citando a metodologia da Mandala dos Saberes, Sueli reforçou a necessidade da reflexão trazida por Eliane: não é só a prática, só fazer oficinas, ir à sala de aula; é preciso que a prática esteja associada a uma reflexão, seja nos trabalhos acadêmicos, seja no dia a dia dos educadores. Para Sueli, também é importante a existência de ambientes de monitoramento dessa prática, para que o diálogo entre aquilo que é feito e aquilo sobre o que se reflete possa acontecer.

A metodologia da Mandala dos Saberes foi desenvolvida pela Casa da Arte de Educar para a educação integral e, posteriormente, foi adaptada e aperfeiçoada para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A metodologia se estrutura com base em um diálogo entre a cultura popular e os conteúdos escolares, com a proposta de criar um sistema não linear capaz de representar a complexidade do esquema articulado entre currículos e vida cotidiana. Atualmente, a Mandala tem sido utilizada e construída em parceria com os programas Cultura Viva(Pontos de Cultura), do Ministério da Cultura (MinC), e Mais Educação, do Ministério da Educação (MEC). Veja mais informações sobre a Mandala dos Saberes aqui.


Direitos e autonomias

A educadora também abordou a importância da autonomia dos docentes, junto às autonomias das escolas e dos territórios, exatamente por conta da realidade, levantada por Eliane Ferreira, de que não existe um único modelo de educação integral que dê conta de toda a diversidade do País.

 

Para Sueli de Lima, isso equivale a recuperar a dimensão pública da escola e traz o que ela considera o maior desafio da educação integral no Brasil: a recuperação da dimensão intercultural, da escola como um espaço produtor de cultura e de trocas culturais. É necessário, segundo ela, que a escola se abra à realidade de que o estudante também possui múltiplos saberes, é um sujeito de direito e que ela, escola, não é a única produtora de informação, constituindo assim um espaço de formação de fato, de debates, de trocas.

 

Dessa forma, trabalhar a autonomia da escola dentro do território, no diálogo com diferentes atores, e promover o empoderamento dos docentes promove a intencionalidade da prática pedagógica – o que resulta na necessidade de investir na formação dos professores nesse sentido.

 

Eliane Ferreira pontuou, na sequência, que a autonomia não é dada, mas conquistada e ressaltou a importância de a escola ter um corpo, um “norte”, saber onde quer chegar para adquirir essa autonomia. É preciso haver uma intencionalidade para que a escola não se torne o local “onde tudo cabe” e, principalmente, é essencial que o trabalho com outros atores, como o terceiro setor, não signifique que o governo abra mão de suas responsabilidades.

 

A pedagoga também traz uma provocação: a necessidade de rediscutir os currículos, que, segundo ela, têm sido tomados por uma racionalidade técnica que não tem levado a contento a dimensão humana daquilo que a escola faz, trabalhando os aspectos local e global.

 

Tecnologia à vista
 

Trabalhar o local e o global, para Eliane Ferreira, significa que a escola não pode atuar de costas para o desenvolvimento tecnológico, que constitui uma ferramenta capaz de trazer o mundo para dentro da escola e levar o mundo para fora da escola. O desenvolvimento tecnológico foi extensivamente abordado na videoconferência Conceitos e práticas de comunicação na educação, promovida pelo Prêmio Itaú-Unicef, com a participação de Alexandre Le Voci, Izabel Brunsizian e mediação de Fernando Rossetti. Leia mais sobre a videoconferência e assista à íntegra aqui.

Retomando a temática do estudante como sujeito de direito, Sueli ressalta que esse é o principal requisito para a implantação de uma educação integral – é preciso que o estudante seja ouvido na escola, o que, inclusive, traz implicações à sua aprendizagem. É preciso que a escola amplie tempos, espaços, mas também as condições de troca de saberes: “Quanto mais democrática for a escola, mais integral será a escola”.

Em conformidade, Eliane Silva afirmou que é preciso que o aluno se perceba como sujeito na escola, e que a democracia não pode ser “estilizada”: é necessário verdadeiramente abrir espaços de discussão e participação para os alunos e as famílias, construindo uma gestão democrática em que o aluno sejacogestor da própria escola.

Para Sueli de Lima, esse é um dos pontos em que o papel das ONGs se mostra mais preponderante na parceria com a escola: na formação do estudante como pesquisador e sujeito de direito, promovendo a curiosidade, a participação, o diálogo, a sustentação de hipóteses, a criatividade.

Fique de olho

O Canal Futura exibe, a partir de segunda-feira, 3 de novembro, uma série de reportagens sobre educação integral. O material abordará conceitos de educação integral, currículo, formação de professores, Ensino Médio, dentre outros assuntos, e será exibido no Jornal Futura às 17h, com reprise à meia-noite. Os vídeos também estarão disponíveis para visualização no Educação e Participação.

 

As participantes

Eliane Ferreira Silva: diretora de escola pública, é graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pós-graduada pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente, dirige uma escola pública na Penha, na cidade do Rio de Janeiro, com atendimentos a alunos na faixa etária de 10 a 16 anos.

Sueli de Lima: doutora em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), atualmente coordena a Casa da Arte de Educar, organização que trabalha pela garantia de direitos de crianças e adolescentes e que, em 2009, foi a vencedora nacional do Prêmio Itaú-Unicef, com o projeto Educação e cultura em periferias. Entre suas obras publicadas, destacam-se o livro Experiência crítica, de Ronaldo Brito (São Paulo: Cosac Naify, 2005), do qual foi organizadora , e o caderno Rede de saberes: pressupostos para projetos pedagógicos de educação integral, lançado pelo MEC em 2009.

Dani Moura: repórter, apresentadora, editora e produtora, é profissional com ampla experiência em reportagem, produção e finalização de matérias jornalísticas, vídeos institucionais, comerciais e de treinamento. Atualmente no Canal Futura, foi repórter dos programas Fantástico, Linha Direta, do Jornal do SBT-Rio e do Via Legal.

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