Reportagens - Luiz Henrique Gurgel - Políticas de Educação Integral

Desafios da educação integral em Porto Alegre

O Programa Cidade Escola, da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, é responsável pela política de educação integral na capital gaúcha. Atualmente, a Secretaria quer aprofundar a integração entre escolas municipais e instituições conveniadas que fazem parte do Programa

Gabriel tem 12 anos e sempre foi um aluno irrequieto e irreverente. Raramente não estava envolvido em alguma agitação no pátio da escola ou mesmo dentro da sala de aula. Mas foi em certa ocasião, em meio a correrias sem fim pelo pátio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Novo, no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, que ele viu dona Mara Elisa, funcionária da escola e há anos trabalhando na rede municipal, puxar da bolsa no intervalo após o almoço, umas agulhas compridas, um novelo e uma peça de lã iniciada. Depositou tudo no colo e, recostada à cadeira, na entrada do prédio principal, começou a tricotar. Gabriel interrompeu a corrida atrás de um colega, parando de repente para observar os dedos ágeis de dona Mara, conduzindo as agulhas a separar e juntar fios em tramas para compor o tecido. O menino, curioso, aproximou-se e, como quem não quer nada, foi indagando aos poucos sobre o que ela fazia. Dona Mara talvez tivesse sorrido e achado graça que justamente o agitado Gabriel ficasse interessado pelo movimento sutil daquelas agulhas. Começou, então, a tricotar bem devagar, mostrando como cruzava e entrelaçava os fios para o aluno hipnotizado. Depois, passou o conjunto para ele. Gabriel gostou, apesar de a agulha não conter um teimoso fio que escapava das tentativas de trançá-lo com outro.

Assim começou, quase sem querer, uma nova ação de aprendizagem em que concentração, técnica, imaginação, destreza e habilidade com as mãos estavam sendo estimuladas e desenvolvidas entre os alunos. De modo despretensioso e espontâneo, nascia o Clube do Tricô da Emef Porto Novo, projeto que em quase um ano de atividade já reúne, em média, 40 alunos por semana. Às segundas, terças e quintas, meninos e meninas se juntam para tricotar no horário de almoço, antes de iniciarem as atividades escolares da tarde. Foram os próprios estudantes que pediram para aprender. Dona Mara, que fez magistério, mas nunca exerceu a profissão, se sente realizada e até já organizou uma mostra na escola com os trabalhos de seus alunos. O pai de Gabriel jamais imaginou que o tricô pudesse colaborar tanto com a transformação do filho e foi até a escola saudar o trabalho. O menino continua participando das correrias pelo pátio, mas anda mais concentrado nas aulas, já produziu algumas mantas e ajuda colegas em dificuldade com as agulhas.

A história ocorrida na Emef Porto Novo dá a dimensão de quão abrangentes e significativas podem ser as experiências de aprendizagem. Também ajuda a entender certos fundamentos defendidos pelo Programa Cidade Escola, da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed). Implantado em 2006 e responsável pela política de educação integral na rede municipal, o Programa promove ações educativas de diversas naturezas, ampliando o tempo de atividade com os estudantes. “O Programa quer tornar o aluno mais consciente, com uma formação mais ampla, pensada em sua integralidade”, explica a professora Cleci Maria Jurach, secretária municipal de Educação.

Integrar escolas e instituições conveniadas

Um dos principais eixos do Cidade Escola é o convênio com instituições que tenham experiência reconhecida com ações socioeducativas em Porto Alegre. Segundo a secretária Cleci, como a rede pública municipal não tinha espaços físicos suficientes para atender a demanda por atividades educacionais complementares ao turno escolar regular, estabeleceram-se convênios com essas instituições que já atuavam na capital gaúcha. “O grande papel da educação integral é garantir o direito de aprendizagem. Se não tenho carga horária suficiente no período regular, tenho o dever de oportunizar ao aluno, no turno inverso, a complementação da sua formação. Por necessidade de atender às matrículas, algumas escolas perderam os espaços que possuíam para promover ações de educação integral. Buscamos, então, pelo Cidade Escola, essa ampliação por meio de parcerias com instituições que trabalham com educação e que possuem espaços para que também haja uma experiência de transversalidade, para que a educação não fique só com o professor da rede municipal, mas também com educadores”, afirmou Cleci.

A diversidade de instituições e de propostas de atividades é uma das principais características do Programa, segundo sua coordenadora, Maria Cristina Garavello. Ela também destaca as ações da Secretaria para integrar cada vez mais o trabalho das equipes pedagógicas – coordenadores, professores e educadores sociais – dentro dos dois espaços: escolas e instituições conveniadas. “Nós estamos fazendo algo que nunca havíamos feito. Estamos fazendo e ajustando, fazendo e avaliando”, afirmou.  Para a secretária Cleci, cada escola está construindo a sua proposta e a sua sistemática de integralização. A Emef Porto Novo, por exemplo, organiza o atendimento de educação integral com professores da própria rede e também com educadores de uma instituição conveniada que trabalham dentro da escola. Outras unidades da rede oferecem atividades nos espaços das conveniadas, como é o caso das Emefs Timbaúva, Grande Oriente e Wenceslau Fontoura, todas na zona leste de Porto Alegre. Os alunos dessas escolas praticam capoeira, dança, música, horta, computação e robótica no Centro Social Marista (Cesmar), que fica na mesma região, e que também é responsável pelo transporte dos estudantes. Há ainda escolas que têm apenas professores da própria rede nos projetos de educação integral.

Em 2014, a Smed formalizou parceria técnica com a Fundação Itaú Social e o Cenpec para uma assessoria ao Projeto Cidade Escola na formação de coordenadores pedagógicos, professores e educadores da rede municipal e das instituições conveniadas. “Nesse ano e meio, o objetivo foi buscar maior integração entre as ações educativas realizadas pelos dois entes – escola e organização conveniada –, buscando patamares cada vez mais expressivos de qualidade”, explicou Solange Feitoza Reis, técnica do Cenpec que coordena a assessoria em Porto Alegre. As três escolas que trabalham com o Cesmar já estão realizando essa integração por meio de reuniões mensais entre as equipes pedagógicas, além de promoverem visitas dos professores das Emefs para acompanhar as atividades que seus alunos realizam na instituição. Até os conselhos de classe dessas escolas contam com a participação de coordenadoras pedagógicas do Cesmar. “Atualmente temos uma grande integração entre a equipe da escola e a do Cesmar”, afirma Aline Dambroso, uma das coordenadoras pedagógicas da instituição.

Para Marilice Clauss, coordenadora pedagógica da Emef Prof.ª Ana Íris do Amaral, é preciso prosseguir e ampliar esse processo de integração. “As instituições conveniadas precisam ser ainda mais parceiras e estarem mais integradas à escola”. Para avançar com esse projeto de educação integral, segundo Marilice, “é preciso mesclar os aprendizados todos, elevando o nível das oficinas, que são tão importantes quanto o ensino regular”.

Seminário

As experiências e os rumos que o programa está tomando no município foram discutidos no Seminário Regional – Políticas, Inovação Pedagógica e Práticas Curriculares na Educação Integral, realizado pela Secretaria de Educação em 17 de novembro na Câmara Municipal de Porto Alegre, em parceria com a Fundação Itaú Social e o Cenpec. O encontro reuniu cerca de 300 professores, educadores, diretores, técnicos e coordenadores pedagógicos de toda a rede municipal e de instituições conveniadas à Secretaria de Educação que trabalham com o  Cidade Escola, além de representantes de escolas estaduais da capital gaúcha que também implementam projetos de educação integral.

O encontro marcou o final de um período de trabalho específico com coordenadores pedagógicos das escolas e das conveniadas, com professores da rede e com educadores sociais. Além da secretária Cleci e de Solange Feitoza Reis, Dianne Rodrigues de Mello, da Fundação Itaú Social, também participou do evento. “A Fundação tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento de práticas educacionais que possam ser transformadas em experiências que se multiplicam”, destacou. Foi um dia inteiro de palestras e discussões com especialistas e representantes da rede de ensino e de instituições conveniadas abordando as possibilidades e experiências do trabalho pedagógico com estudantes do Ensino Fundamental, sob a perspectiva da educação integral.

Temas relacionados às expectativas das crianças e dos jovens em relação à escola e ao que significa, hoje, ser adolescente foram tratados pela psicanalista gaúcha Luciana Wickert. Já o professor Daniel Ferraz Chiozzini, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), apresentou um histórico com modelos e tentativas de implantação de uma educação integral no Brasil desde meados do século 20, falando das experiências de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e dos colégios vocacionais dos anos 1960, na rede pública paulista, que apresentavam uma proposta pedagógica inovadora e que foram fechados pelo regime militar em 1969. O objetivo das duas falas foi ajudar a contextualizar a ação que se desenvolve em Porto Alegre atualmente.

A última mesa de debate discutiu a questão da organização do ensino e as possibilidades de inovação pedagógica em relação à educação integral, com a participação de Ocimar Munhoz Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), Erondina Barbosa da Silva, do Ministério da Educação (MEC), e Maria Cristina Garavello, da Smed.

“Não temos, propriamente, uma teoria de educação integral”, afirmou o professor Ocimar. A questão que se coloca, segundo ele, é que pensar nessa perspectiva significa ampliar o “escopo de possíveis aprendizagens”, é pensar “para quem quero ensinar e o que quero ensinar”. A educação integral precisa articular tempo, espaço e currículo: “são mais coisas, mais fenômenos, exige, portanto, mais tempo”. Alavarse vê boas perspectivas no projeto que está sendo desenvolvido em Porto Alegre: “Outros lugares, fora do espaço escolar, proporcionam conhecimento legítimo e a escola deve buscar parceiros, mas – no bom sentido – ficar no controle”, afirmou.

Durante o seminário, nos intervalos das discussões, apresentaram-se um conjunto de cordas e sopro tocando música de câmara, um grupo de percussão e batucada e um grupo de dança. Eram alunos, meninos e meninas, das escolas municipais e das instituições conveniadas com o Cidade Escola de Porto Alegre, demonstrando, na prática, os resultados do projeto de educação integral.

“Foi um dia de muita reflexão, de trocas e provocações, de compartilhamento de experiências. E ver os alunos dançando, batucando, lendo, tocando foi um sonho, foi um momento de alegria”, resumiu Cristina Garavello.

O irrequieto Gabriel, lá da Emef Porto Novo, se tivesse participado do encontro, talvez não se interessasse muito pelas questões mais teóricas apresentadas no seminário. Mas aprovaria tudo o que fosse estimulante para sua curiosidade e para seu agir no mundo.

Assista ao vídeo sobre o seminário: 

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