Reportagens - João Marinho¹ - Educação&Participação

Educação integral e cultura popular brasileira: as infinitas potencialidades e o desafio do diálogo

O Brasil é um país rico em ritmos, danças e brincadeiras, com um extenso potencial educativo e histórico. No entanto, as manifestações da cultura popular são ainda subaproveitadas ou de difícil assimilação na educação formal. Como enfrentar esse desafio?  

Grupo de Apresentação do projeto Meninos de Minas. Clique para ampliar. Foto: Reprodução.

Você sabe o que é carimbó? Conhece o cacuriá ou sabe usar matraca para marcar a marcha do boi? Já dançou jongo, vilão, siriri ou coco de roda? Se você mora em uma grande cidade, é provável que nunca tenha ouvido esses nomes ou expressões.

Para saciar a curiosidade, o carimbó é uma dança e ritmo típico da região Norte, especialmente do Pará, que mistura elementos indígenas e negros. Já o cacuriá é uma dança mimética do Maranhão, ligada às festas do Divino Espírito Santo; no mesmo estado, há também uma variação do bumba meu boi que utiliza matracas (instrumento de percussão constituído por dois bastões de madeira) para marcar o ritmo dos participantes durante o folguedo. O jongo, ou caxambu, é um ritmo que se desenvolveu principalmente entre negros escravizados nas fazendas de café do Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro, e considerado precursor do samba. O coco de roda vem do Nordeste, onde se fixou inicialmente como um canto de trabalho, para tornar a lida diária menos dolorosa. Finalmente, o siriri, com suas batidas de mão espalmadas, é típico dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; e o vilão, hoje raro e quase extinto, é uma dança que mistura influências portuguesa e negra e surgiu para festejar as colheitas em Santa Catarina.

Todos esses ritmos, danças e folguedos fazem parte de uma rica cultura popular brasileira e representam elementos-chave da história do país, de sua formação identitária e diferentes populações, mas com uma potência educativa muitas vezes subutilizada. “Somos muitos brasileiros distintos, temos muitas danças distintas, temos ritmos distintos, temos corpos distintos […], mas essa potência toda que nós temos, por puro preconceito da sociedade, é ignorada na ação educativa. Serve para ser explorada no turismo, aqui e acolá, mas essa riqueza não chega à escola: fica detrás do muro […]. Preferimos, hoje em dia, implantar uma festa estrangeira, como o Halloween, a pesquisar as raízes de um Saci-pererê e de outros mitos brasileiros”, comenta Leandro Medina, artista educador do Núcleo Pé de Zamba.

 

Cultura popular e educação integral

Espetáculo “Glocalidades – Antropofagia nossa de cada dia”, do Núcleo Pé de Zamba. Clique para ampliar. Foto: Reprodução.

No entanto, o que vem a ser cultura popular – e por que ela é importante para a educação integral? Na definição clássica do antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, no livro Primitive culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom (1871), cultura é “esse todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

O termo vem do latim, com o sentido original de ação de cuidar, tratar, preparar – de onde, agricultura – e depois honrar, venerar, respeitar. Não por acaso, é uma palavra aparentada com “cultivo” e “culto” (cultivado) que, segundo o dicionário Houaiss, teria entrado na língua portuguesa no século XV, período que coincidiu com o Renascimento – que se estendeu dos séculos XIV ao XVII.

Graças ao político e orador Cícero, a adaptação da palavra “cultura”, no sentido de “cultivar” o ser humano, já veio da própria Roma antiga. Na série de livros Tusculanae disputationes, Cícero utilizava uma metáfora agrícola para descrever um “cultivo da alma”, ou cultura animi, que entendia como o desenvolvimento de uma alma ideal filosófica.

De certa maneira, essa visão se desenvolveu ao longo do tempo, dando ao termo uma característica por vezes elitista. Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, distinguiam cultura de estado natural, sendo a primeira relacionada à ideia de civilização. Posteriormente, sistemas teóricos e filosóficos possibilitaram classificar países e nações como mais ou menos civilizados e pessoas como mais ou menos aculturadas e, em um segundo momento, a classificar culturas em “alta” e “baixa”. Assim, a alta cultura, de valor mais refinado e universal, se contraporia à baixa cultura, espontânea… Popular².

Ainda hoje, é possível encontrar uma dicotomia semelhante entre os termos cultura erudita e cultura popular. Por definição, a erudita é institucionalizada, polida, mais refinada e sofisticada e requer um estudo apurado para ser produzida, como se vê no caso das músicas clássicas, por exemplo. Dessa forma, tende a ser consumida pelas elites ou estratos sociais com amplo acesso à educação. Já a cultura popular, informal e espontânea, é improvisada, não institucionalizada e produzida pelo povo, em especial os estratos sociais menos abastados – e bastante ligada ao regionalismo, como explica o escritor e educador César Obeid no vídeo a seguir.

Embora se deva pontuar que não existe consenso sobre o alcance da cultura popular ou mesmo sobre alguns de seus elementos definidores, é fácil perceber que o termo se relaciona intimamente ao conceito de território, um dos fundamentos da educação integral, definido pelo geógrafo Milton Santos na obra Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial (3ª edição, 2007) como “o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”.

A cultura popular, portanto, constitui um dos elementos do território e, na medida em que contribui para o senso de pertencimento e identidade, deve ser considerada na perspectiva da educação integral e sua proposta de pleno desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens.

Ouça mais sobre as potencialidades da interação entre cultura, cultura popular e educação integral na entrevista de Leandro Medina para a plataforma Educação&Participação.

 

A cultura popular no currículo

Alunos da rede municipal de Itabira no projeto Meninos de Minas. Clique para ampliar. Foto: Reprodução.

“Eu penso que nós temos a obrigação de reconhecer, incentivar e preservar a cultura popular, de forma que as futuras gerações se sintam herdeiras, para que, assim, possam repassá-la para suas próximas e próximas gerações. Pensando assim, nós integramos o tempo integral da escola com os Meninos de Minas […]. Em parceria, pudemos fazer um trabalho diferenciado e, a partir daí, descobrir talentos. Na escola, víamos crianças que não participavam de nada e que, a partir da inserção dessa criança no projeto, ela criou vida, se tornou uma outra criança em todos os aspectos: nas apresentações, na sala de aula, entre seus colegas e com os profissionais da escola.”

O depoimento é de Ana Lúcia Guimarães Oliveira, ex-diretora e hoje coordenadora pedagógica da Escola Municipal Coronel José Batista, de Itabira (MG) – escola onde estudou o poeta Carlos Drummond de Andrade –, a respeito da parceria com o projeto Meninos de Minas, que traz uma proposta de cultura popular com o repertório musical do congado e da marujada de Minas Gerais. A experiência é um dos exemplos em que a cultura popular entrou na escola, com efeitos bastante positivos para crianças e adolescentes.

No entanto, apesar desses impactos, uma reconhecida dificuldade é a integração entre as propostas de projetos de cultura popular e o currículo da escola formal. É o que comenta a professora de História das séries iniciais e finais do Ensino Fundamental, Maria Aparecida Martins: “A cultura popular é a nossa história. Acho muito importante que todos tenhamos acesso a projetos de extensão com esse tema, mas, muitas vezes, eles já chegam ‘prontos’ […] e acaba não havendo conexão entre projeto e escola formal porque não há discussão com a comunidade, os professores e os alunos – e nós teríamos muito a contribuir”.

“Nós ainda estamos em um movimento de entender que a educação integral vai para além da ampliação do tempo e inclui o pleno desenvolvimento da pessoa humana, como está previsto na Constituição brasileira. Nesse sentido, ainda há uma dificuldade de alinhamento com o currículo regular tradicional”, diz a historiadora Débora Tersalia Santiago, que, até o ano passado, atuou na Secretaria de Educação de Itabira. É ela quem conta, no áudio a seguir, como se deu a articulação entre o Meninos de Minas e escolas da rede municipal e comenta a importância do diálogo entre cultura popular e currículo na educação integral.

 

O desafio do diálogo com saberes e territórios

Espetáculo “Para lá das palavras”, do Núcleo Pé de Zamba, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP). A atividade contou com a participação de Leandro Medina (de azul, à direita). Clique para ampliar. Foto: Reprodução.

Tião Rocha é idealizador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), de Belo Horizonte, organização da sociedade civil (OSC) fundada em 1984 que atua em educação popular e desenvolvimento comunitário sustentável com foco em educação do campo. Ele se define como “antropólogo por formação acadêmica, educador popular por opção política, folclorista por necessidade, mineiro por sorte e atleticano por sina” – e é exatamente na integração da cultura popular ao currículo escolar que reside uma de suas principais críticas.

“O CPCD surgiu há 35 anos para aprender – e, para aprender, percebemos que temos de fazer perguntas, e a primeira delas é se era possível fazer educação sem escola, embaixo de um pé de manga, e é possível, porque educação é um fim e a escola é um meio: é possível fazer uma boa educação sem escola, mas é impossível se não tivermos bons educadores […]. A partir daí, não paramos mais de fazer perguntas, e passamos a nos perguntar como mobilizar uma comunidade, reduzir a mortalidade infantil e neonatal, retirar os meninos do analfabetismo […], e hoje o que mais me motiva é perguntar de quantas maneiras podemos conseguir isso por meio da construção de centros de excelência de educação do campo. Por que cheguei a isso? Quando estava na escola, aos 7 anos de idade, a professora leu um livro para a classe, As mais belas histórias, e começou a falar das histórias de reis e rainhas. ‘Eu tenho uma tia que é rainha’, disse eu, levantando a mão. Não fui levado a sério, acabei indo à diretoria e ameaçado de ser expulso. Depois disso, nunca mais falei nada […], nem no primário, nem no ginásio. Fui encontrar quem era minha tia rainha depois de estudar História e Antropologia. Minha tia era a rainha Perpétua do congado, e ela era visitada por grupos de caboclinhos, marujos, vestia uma roupa bonita e eu tinha muito orgulho de andar com ela – mas essa cultura popular da qual minha tia fazia parte e que constituía histórias de meninos e meninas como eu nunca foi motivo de história na escola”, conta o antropólogo.

O Projeto Ser Criança – Educação pelo Brinquedo, do CPCD, oferece atividades complementares à escola para crianças e adolescentes de 6 a 14 anos em Araçuaí (MG). Foto: Reprodução.

Para Rocha, cuja organização é responsável pelo Projeto Ser Criança – Educação pelo Brinquedo, um dos premiados na Regional Belo Horizonte da 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, é preciso trabalhar com a cultura e com as pessoas, seus diferentes saberes e quereres, mas principalmente evitar a “folclorização” indevida da cultura popular: “Há muita resistência em integrar a cultura popular, e vem dos que comandam as escolas e universidades, gestores, secretários de Educação, pois, quando converso com os educadores, eles sempre dizem que adorariam trabalhar melhor o tema, mas não podem. Então, nada muda, não se permitem transformações, […] e a escola tende a ‘coisificar’ as manifestações. Veja o exemplo das festas juninas: as crianças são ‘travestidas’ de caipira, fazem um papel caricato e estigmatizado similar ao Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, porque foi isso que a escola ensinou. Há um desrespeito com a religiosidade do mundo rural, que não é levada em consideração, e com as trajetórias dos santos que representam a família: Santo Antônio, do casamento; São João, para as mulheres jovens; São Pedro, para as viúvas. Há todo um simbólico envolvido, sobre o qual há um absoluto desconhecimento […]. A cultura popular vira um apêndice, e não se considera o outro como diferente, mas como desigual, desqualificando-o […]. É preciso pontuar, então, o que a escola faz pelos meninos e qual a causa que embasa a promoção de um desenvolvimento integral – e entendo que este seria o compromisso de não perder nenhum menino, não deixar nenhum para trás”.

Em um período do ano imediatamente posterior às festas juninas – oficialmente finalizadas nos dias de São Pedro e São Paulo, 29 de junho –, as reflexões enfatizam que esses desafios são os mais prementes para as propostas e políticas públicas que procuram estabelecer um diálogo entre educação integral, território, identidade, desenvolvimento humano e cultura popular.

 

Clique aqui para conhecer os projetos do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento em Minas Gerais, São Paulo e Maranhão.

 

Saiba mais

> Confira alguns vídeos do YouTube com danças e ritmos citados no início desta reportagem:

  • cacuriá

  • coco de roda

  • carimbó

  • siriri

  • dança do vilão

  • jongo

> Ouça o áudio de Leandro Medina sobre as atividades do Núcleo Pé de Zamba, de São Paulo (SP).

> A plataforma Educação&Participação disponibiliza oficinas de Arte e Cultura, algumas das quais trabalham com ritmos e expressões populares, como quadrilha e marujada. Visite a nossa página.

> Que tal se aprofundar no tema da cultura popular? O site do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular possui rico material e um tesauro de manifestações artísticas.


¹ Com colaboração de Débora Tersalia Santiago, que disponibilizou as entrevistas com as educadoras de Itabira (MG). Agradecimentos especiais a Leandro Medina pela formação “Corpopular: um jeito brasileiro de dançar”, conduzida dia 24/6/2017 no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo; e a César Obeid, que autorizou a reprodução do vídeo sobre cultura popular especialmente à plataforma Educação&Participação.
² A esse respeito, consultar:
Tagsarte e cultura, articulação, cultura, cultura popular, educação integral, escola pública, manifestação cultural, música popular, parceria, políticas de educação integral, tradição cultural

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