Reportagens - Vanessa Nicolav - Educação&Participação

Educação integral na aplicação de medidas socioeducativas

Saiba como as práticas de educação integral têm dado novas chances a jovens em conflito com a lei

Na parte da manhã, aulas com professores do ensino regular. À tarde, cursos de marcenaria, capoeira, teatro, culinária e informática. Cinco refeições ao dia, atendimento médico, odontológico, psicológico, prática de esportes e espaços de leitura.

Essa sequência de atividades, que poderia fazer parte do dia a dia de qualquer adolescente brasileiro de classe média alta, na verdade é a rotina de adolescentes e jovens internos dos diversos centros socioeducativos existentes no país. Nesses espaços, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), eles têm acesso a oportunidades educativas com o objetivo de garantir seu desenvolvimento integral e direitos básicos, que, na maioria das vezes, nunca chegaram a conhecer fora de lá.

Na contramão dessa realidade e da garantia dos direitos humanos previstos em lei, foi aprovada na madrugada de 2 de julho uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para reduzir a maioridade penal, que atualmente é de 18 anos. Patrocinada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que pediu celeridade na tramitação, a proposta recebeu 323 votos a favor e 155 contra.

A sessão de votação está sendo considerada por deputados contrários à redução como uma manobra política do presidente da Câmara, já que a proposta havia sido rejeitada em votação na madrugada do dia anterior (1).

O texto aprovado na sessão de hoje prevê a redução da maioridade para 16 anos em casos de crime hediondo, como sequestro e estupro, homicídio doloso (com intenção de matar) ou lesão corporal seguida de morte. Ele ainda deve passar por uma segunda votação na Câmara dos Deputados e por duas votações no Senado para que a Constituição seja alterada.

Nesse contexto de instabilidade da garantia de direitos, o Educação&Participação mostra um contraponto àqueles que se colocam a favor da redução da maioridade penal. Esta reportagem especial apresenta experiências realizadas em diferentes regiões do Brasil que, ao articularem práticas da educação integral, indicam caminhos para a plena efetivação do desenvolvimento dos adolescentes e jovens que estão em conflito com a lei, garantindo seus direitos e contribuindo para a sua reinserção na sociedade.

Adolescentes fora do alojamento em 90% de seu tempo

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Jovens durante oficina de capoeira em Minas Gerais. Foto: Divulgação.

Educação integral para requalificar o atendimento pedagógico, com foco especial na transformação dos espaços e dos tempos que esses meninos passam a experienciar no momento da internação.

Essa é a estratégia adotada pelo Governo de Minas Gerais que, por meio da Subsecretaria de Atendimento às Medidas Socioeducativas (Suase), atende 1.800 adolescentes privados de liberdade.

“Antigamente o garoto ficava 90% do tempo dele encarcerado. Todo o tempo dele era dentro dos alojamentos. Na época até se chamavam celas. E conseguimos inverter essa lógica totalmente: o garoto passa, hoje, 90% do tempo fora do alojamento”, afirma Bernardino Soares, superintendente de Gestão das Medidas de Privação de Liberdade da Suase.

O processo de transição para um atendimento pautado na educação integral ainda não está completo, mas as unidades que trabalham com base nesse nesse conceito realizam ações que contemplam o princípio de exploração do território e suas oportunidades educativas pelos adolescentes internados.

“Alguns garotos realizam cursos profissionalizantes fora da unidade. A gente dá um vale-transporte pra eles. É lógico que são garotos que já estão num processo avançado de comprometimento com a medida socioeducativa. Não é um garoto que chegou há um mês. Assim ele começa a frequentar os equipamentos públicos, e, na prática, já está sendo testado pelo sistema”, diz Bernardino.

Segundo o especialista, a ideia é uma proposta de aprimoramento do sistema que visa à reinserção do garoto na sociedade. “A gente entende que é fundamental esse garoto transitar na comunidade antes de ser desligado da Suase. Uns vão fazer esses cursos e outros vão trabalhar.”


“Na medida em que colocamos o garoto para realizar um trabalho, ali ele terá acesso a regras de convivência, e isso acaba perpassando por todo o processo de educação. Educação numa perspectiva mais ampla, não só no sentido de escolarização, mas na perspectiva da educação integral”


Após 10 anos, a experiência que aposta na ressocialização tem dado resultados. Segundo dados da própria instituição, hoje 90% dos adolescentes frequentam escolas e têm alta assiduidade, acima de 75%.

“Eu acho que esses resultados vêm mostrar que a melhor estratégia é aquela que aposta que o garoto pode ser ressocializado. A palavra ‘ressocialização’ no sentido de restabelecer seus vínculos. Na medida em que colocamos o garoto para realizar um trabalho, ali ele terá acesso a regras de convivência, e isso acaba perpassando por todo o processo de educação. Educação numa perspectiva mais ampla, não só no sentido de escolarização, mas na perspectiva da educação integral”, completa Bernardino.

Arte e cultura: valorização do potencial criativo e da autoestima

Jovens durante atividade de leitura. Foto: Divulgação.
Jovens durante atividade de leitura. Foto: Divulgação.

“Amar é um bagulho da hora. Quem não sabe aprende. Aprende um pouco. É a alegria, a pessoa poder expor a alegria, o caráter dela, colocar tudo o que ela tem, mesmo o que é de ruim. Tudo o que você tem de ruim você pode colocar num desenho lindo que você tá fazendo, explanar as coisas ruins, aquele momento ruim, fazendo um teatro, se inventando como outras pessoas: se você é o vilão, você vira o mocinho no teatro, você se relata de outras formas, de outras vidas através do desenho, do teatro, de tudo quanto é tipo de dança.”

A frase é de autoria de um dos garotos participantes do Projeto Educação com Arte, uma parceria da Fundação Casa, instituição que aplica medidas socioeducativas a jovens em todo o Estado de São Paulo, com o Cenpec, a Ação Educativa e outras duas ONGs do interior de São Paulo.

Promovido desde 2008, o Educação com Arte é um dos trabalhos que, em diálogo com a educação integral, busca ampliar as oportunidades culturais e expressivas de 1.200 adolescentes e jovens de 12 a 18 anos internados na instituição.


“Mesmo em situação de privação de liberdade, o adolescente deve ter o direito a se desenvolver, se conhecer e se expressar”


“Os garotos, em sua maioria, nunca tiveram acesso aos direitos básicos e muito menos a essa amplitude de conteúdos artísticos e culturais”, afirma Daniela Schoeps, do Cenpec e responsável pela coordenação técnica do Educação com Arte. Segundo ela, a educação é a melhor estratégia para a reinserção desses adolescentes na sociedade. “A gente aposta nisso, que mesmo em situação de privação de liberdade, ele deve ter o direito a se desenvolver, se conhecer e se expressar”, considera.

A iniciativa visa estimular o desenvolvimento integral dos sujeitos com base na ampliação de suas oportunidades educativas e na garantia plena de seus direitos.  O Projeto está em conformidade com as diretrizes do ECA presentes no artigo 94, que prevê que as instituições, em suas unidades de internação, têm como obrigação oferecer aos adolescentes escolarização e educação profissional, bem como atividades culturais, esportivas e de lazer.

Os adolescentes participam de oficinas com uma hora e meia de duração cada uma, divididas entre Artes Visuais, Artes da Palavra, Artes do Corpo e Artes Cênicas. O objetivo principal dessas atividades, que acontecem no contraturno escolar, é propiciar experiências educativas que trabalhem aspectos como autoria, identidade, valorização do potencial criativo e elevação da autoestima.

Daniela considera que a arte é uma forma de estimular o amadurecimento, o pensamento crítico e apresentar novas perspectivas de vida. A arte, segundo o programa, não é entendida como educação artística ou arteterapia, mas sim como estratégia que estimula a autorreflexão e pode abrir portas para diferentes valores, práticas e comportamentos. “Tudo isso é muito importante, principalmente para alguém nessa fase de desenvolvimento”, afirma a coordenadora.

Na visão de Marisa Fortunato, superintendente pedagógica da Fundação Casa e autora do artigo “Medidas socioeducativas e educação: uma relação difícil, mas possível“, que trata de práticas inspiradas na educação integral realizadas na Fundação, esse tipo de iniciativa dialoga com a necessidade de diminuir certas desigualdades sociais tão presentes em nossa sociedade.

“O nosso público, em quase sua totalidade, é oriundo das camadas populares e está cada vez mais sujeito a um processo de exclusão social. Por isso, propor um trabalho com arte e cultura pressupõe que a cultura também deve ser compreendida nesse contexto de exclusão, em que o acesso dos cidadãos às práticas artístico-culturais não é igualitário, mas muitas vezes um privilégio das camadas sociais mais abastadas”, diz Marisa.

A especialista também afirma que é importante propiciar experiências em que conteúdos formais e não formais se entrelacem, mostrando que o aprendizado ocorre por diferentes vias e que o conhecimento é construído na dimensão da razão e da emoção.

Melhoria da aprendizagem e garantia de direitos por meio da expressão e da arte

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Adolescentes e jovens durante atividade. Foto: divulgação.

“Caminho por um corredor extenso até me deparar com uma espécie de retângulo feito de grades. Mais um cadeado, mais uma revista, mais um funcionário da segurança. Em minhas mãos uma poesia de Machado de Assis, imagens produzidas pelos adolescentes e um livro.”

Esse relato de educador presente na publicação Reflexão sobre a prática Educação com Arte revela o trabalho difícil, no limite da contradição, que é levar referências e conteúdos do mundo de fora, do “mundão” – conforme linguajar corrente entre os garotos – para dentro das unidades de internação. Pois privados de liberdade é que eles terão contato com muitas oportunidades que lhes são de direito. É nesse momento que também se revela o ciclo de privações pelas quais eles passaram.

Conforme revela pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 70% da população nunca foi a museus ou a centros culturais, e pouco mais da metade nunca vai a cinemas. Os preços altos são colocados como obstáculo para 71% dos entrevistados, que acreditam que esse ponto é um importante empecilho para usufruir dos bens culturais. Outra razão apontada pela pesquisa é a barreira social imposta pelo perfil do público que frequenta espaços culturais. Para 56%, há essa barreira.


“O que queremos é romper com o ciclo de violência e a trajetória de privações pelos quais esses meninos passaram. Mesmo privados de liberdade, eles devem ter garantidos seus direitos, porque, segundo a lei, todos devem. A ideia não é tirar de ninguém, mas sim ampliar”


Além da questão cultural, a educação formal de qualidade ainda é uma necessidade significativa para a maioria dos adolescentes do Brasil, especialmente os que vêm a cometer infrações. Segundo dados da própria instituição, a maioria dos garotos chega à Fundação Casa com um índice de defasagem escolar muito alto, cerca de quatro anos. A maioria deles nunca leu um livro. Muitos deixaram a escola ainda na infância.

Para o coordenador regional e ex-educador do Educação com Arte, Tony Sagga, o projeto vem atuar justamente sobre essa defasagem, fazendo uso de diversas estratégias não formais para sensibilizar e abrir perspectivas para esse jovem. “O que queremos é romper com o ciclo de violência e a trajetória de privações pelos quais esses meninos passaram. Mesmo privados de liberdade, eles devem ter garantidos seus direitos, porque, segundo a lei, todos devem. A ideia não é tirar de ninguém, mas sim ampliar”, afirma.

Assista aos vídeos sobre o cotidiano dos educadores do Educação com Arte:

 

 

Com duração de três meses, atividades de autorretratos, criação de rimas de rap, aula de jornal, práticas de fotografia, capoeira, expressão corporal são oferecidas para estimular esses adolescentes, com tantas reservas sobre seu potencial e sobre a importância da educação.

As oficinas não têm uma estrutura fixa, são construídas conforme o repertório do arte-educador e os interesses de cada grupo. Mas, ao longo dos anos, priorizou-se a ideia de trabalhar com práticas de fruição e valorização da história e das tradições culturais, e também experimentações práticas de criação e expressão que ajudam na construção de identidade e autonomia pessoal.

E o que se percebe é que esse tipo de abordagem tem efeitos significativos no processo de amadurecimento do jovem. Mesmo em termos curriculares. “Começamos a perceber que essas atividades de criação musical, de resgate das histórias tradicionais tinham também um impacto na questão do letramento. Para conseguir escrever uma rima, participar do jornal, o garoto passou a se esforçar para escrever”, afirma Schoeps. “Os professores até perguntavam pra gente: ‘Mas como vocês conseguiram fazer o menino se interessar por escrita, por leitura?’.”

As questões de cidadania e de direitos humanos também acabam sendo pauta das atividades. Alguns professores que trabalham resgatando a história do samba, por exemplo, abordam a importância de entender as suas raízes, e como essas expressões foram surgindo. Outro exemplo é a atividade de capoeira, que envolve a disciplina, a relação do mestre com o discípulo, o respeito. “Então, além da questão corpórea, o grupo acaba assimilando esses valores também”, afirma Tony.

Vídeo: Opinião de adolescentes e jovens sobre a redução da maioridade penal – Carta Capital

 

Parcerias com organizações

Para a especialista da Fundação Casa, esse sistema que prioriza o atendimento socioeducativo dos adolescentes resultou de anos de lutas por políticas públicas para a juventude, e agora deve ser consolidado e ampliado com a articulação de parcerias com diversas instituições.

“O sistema ainda não é perfeito. Existem muitas questões a serem aprimoradas e muitas áreas a serem ampliadas. Para que isso aconteça, acreditamos que devemos convidar a sociedade civil, no sentido de completar esse atendimento com outras pessoas. É importante trazer serviços para dentro da Fundação. A gente precisa sim da sociedade civil aqui dentro. Para conhecer, participar e desenvolver trabalhos de qualidade”, afirma Fortunato.

Rio de Janeiro: qualificação para o mercado de trabalho

O Rio de Janeiro é outro Estado que adotou estratégias de educação integral para enfrentar desafios de ressocialização de adolescentes internados.

Hoje, por meio do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Novo Degase), todas as unidades de internação e de internação provisória têm uma escola da rede estadual de educação. Cada adolescente possui um programa de escolarização pensado individualmente, não somente com as aulas regulares, mas também com participação em oficinas, cursos de qualificação e profissionalização e em atividades de cultura, esporte e lazer. Há todo um trabalho da equipe técnica que acompanha esses adolescentes para sensibilizá-los sobre a importância do estudo e da qualificação para o ingresso no mercado de trabalho e na sociedade de forma geral.

Uma atividade de destaque é a TV Novo Degase. Fruto de oficina de vídeo realizada com os adolescentes, o projeto já recebeu as medalhas Pedro Ernesto e Tiradentes, e teve seus programas exibidos nos canais Futura e TV Alerj.

 

Vídeo: Visita de representantes do Unicef ao projeto

 

Vídeo: Retrospectiva de dois anos de projeto 

 

Sinase: quase uma década na luta pela garantia de direitos

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Jovens durante atividade esportiva em Minas Gerais. Foto: Divulgação.

Esses exemplos, mesmo que localizados e recentes, demonstram as transformações que podem ser realizadas por políticas voltadas à democratização dos direitos sociais – inclusive para crianças e adolescentes em conflito com a lei. Todos eles estão inseridos no plano de expansão das medidas de atendimento prioritariamente educativas para jovens autores de infração.

Criado em 2006, com a participação social do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) foi elaborado para garantir direitos presentes no Estatuto da Criança e do Adolescentes (artigo 94), e também legitimar diretrizes de acordos internacionais firmados pelo Brasil, como o Pacto de San José, a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude.


O ECA, em seu artigo 94, incisos X e XI, impõe que as unidades de internação têm a obrigação de propiciar escolarização, educação profissional, atividades culturais, esportivas e de lazer. E, no parágrafo único do artigo 123, estende as atividades de natureza pedagógica também à internação provisória. Já para a semiliberdade, os momentos de liberdade serão destinados à vivência social. Com isso, todas as ações da área pedagógica deverão ser necessariamente desenvolvidas na e pela comunidade.


O Sinase é vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e hoje atende 23.066 adolescentes em 448 unidades socioeducativas espalhadas pelo país. Apesar de recentes e com muitos aspectos a serem ainda aprimorados, as medidas socioeducativas apontam formas de tratamento mais humanas e geram impactos extremamente significativos, principalmente quando se opõem às políticas da “Doutrina da Situação Irregular”, que entendia as crianças e os adolescentes como sujeitos incapazes e objetos de intervenção protetiva do Estado

A criação do Sistema é resultado de anos de mobilização da sociedade civil e movimentos sociais ligados ao campo da educação que lutaram para a construção e implantação do ECA. O documento, que em 2015 comemora 25 anos, representa um avanço nas políticas de direitos humanos no país, e, devido a elas, hoje a legislação brasileira estabelece que o adolescente, independentemente de sua eventual condição de autor de ato infracional, é merecedor de proteção integral por parte da família, da sociedade e do Estado, e que esses setores devem priorizar políticas públicas e sociais que os protejam e promovam seus direitos.

Desde sua criação, conforme revela o relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2012, o Sinase alcançou resultados expressivos, tanto no que refere à transformação dos espaços e dinâmicas internas, quanto à metodologia conceitual com foco nas atividades educativas. O documento do órgão federal constata que o atendimento individualizado saltou da diretriz escrita e substanciou-se no trabalho cotidiano, que houve diminuição no índice de reincidência e que os adolescentes estão mais próximos de suas famílias.

Esse conjunto de leis se mostra especialmente importante num país com alto índice de desigualdade e que tem sérias questões de garantia de direitos a crianças e adolescentes. O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostra que, ao contrário do que afirmam os especuladores defensores da redução, jovens e adolescentes são os principais alvos de agressões e mortes violentas nos últimos anos, e não seus autores.


“Esses adolescentes estão ainda em fase de desenvolvimento. O que oferecemos é uma chance para que eles possam aprender novas práticas e valores, se conhecerem melhor e, no futuro, terem condições de fazer melhores escolhas de vida. E, para isso, três anos são mais que suficientes. O que temos não é pena, mas um trabalho socioeducativo”


Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte de adolescentes no país. Em 2012, foram 473 mortes violentas de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, e 9.295 adolescentes e jovens com idade entre 15 e 19 anos assassinados no Brasil, o que equivale a 28 mortes por dia.

Além de serem alvo da violência, muitos dos adolescentes e jovens que cometeram delitos não deveriam estar internados. “A maioria dos adolescentes que estão no sistema de justiça não cometeu delitos graves, mas sim delitos leves. Muitos deles nem deveriam estar internados.” Quem afirma é Marisa Fortunato, que além de ser contra a redução da maioridade penal, acredita que o máximo de três anos propostos pelo ECA é um tempo considerável para desenvolver um trabalho com esses adolescentes. “A esses adolescentes, que estão ainda em fase de desenvolvimento, o que oferecemos é uma chance para que possam aprender novas práticas e valores, se conhecer melhor e, no futuro, ter condições de fazer melhores escolhas de vida. E, para isso, três anos são mais que suficientes. O que temos não é pena, mas um trabalho socioeducativo”, afirma.


De acordo com uma estimativa do Unicef Brasil – feita com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e do Levantamento Sinase, ambos de 2012 – citada em nota da ONU contra a redução da maioridade penal, dos 21 milhões de adolescentes que vivem no Brasil, apenas 0,013% cometeram atos contra a vida.


Outro especialista e gestor público que segue a mesma visão é Bernardino Soares. Para ele, o aumento do tempo das medidas socioeducativas também não é a solução. “Se você encarcerar um garoto aos dezesseis anos e devolver ele à sociedade quando tiver 26, sem ao menos ter regularizado a vida escolar, o que estará fazendo, praticamente, é dizer que esse sujeito não tem chance nenhuma nesse mundo, é devolver esse sujeito à criminalidade.”

A colocação de Bernardino corrobora os dados de reincidência do sistema prisional, que são muito mais altos que os do sistema socioeducativo. O índice de reincidência em crimes para quem vai preso no Brasil é de 70%. Ou seja, de cada 10 pessoas presas no sistema prisional tradicional, apenas 3 não voltam a cometer crimes. Já a reincidência de crianças e adolescentes que são internados por cometerem crimes na Fundação Casa varia entre 13 e 22%.


“Há uma supervalorização do aspecto negativo do jovem. A população quer se sentir segura e acredita que a segurança é dada na medida em que se retira de circulação certas pessoas. Mas está mais que provado que encarcerar não resolve o problema. Faltam espaços que difundam esses dados amplamente, a população precisa de mais informação”


A mídia também é um elemento de preocupação, já que, segundo os entrevistados, não informa de maneira devida a amplitude da discussão. Para Bernardino, o resultado da pesquisa de opinião popular que aponta que 9 entre 10 brasileiros são a favor da redução da maioridade penal vem da falta de conhecimento da população sobre o sistema socioeducativo. “O primeiro ponto que a gente tem que esclarecer é que há um mito na sociedade, de que o garoto não é responsabilizado. Toda pessoa que comete um ato tipificado penalmente pode ser privada de sua liberdade a partir dos doze anos.”

Segundo Marisa, a maioria das pessoas conhece pouquíssimo o sistema socioeducativo. E ele, de modo geral, não tem muito espaço na mídia. “Há uma supervalorização do aspecto negativo do jovem. A população quer se sentir segura e acredita que a segurança é dada na medida em que se retira de circulação certas pessoas. Mas está mais que provado que encarcerar não resolve o problema. Faltam espaços que difundam esses dados amplamente, a população precisa de mais informação.”

Com falta de discussão e informação, a PEC 171/93 foi aprovada na Câmara dos Deputados. Apesar de o texto original ter sido alterado para prever punição somente aos jovens que cometerem crimes graves, a proposta ainda é considerada ilegal pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e motivo de diversas mobilizações pelo país.

Tanto o Unicef como a Humans Right Watch se posicionaram contra a proposta brasileira. O Movimento Nossa São Paulo lançou manifesto em oposição ao projeto, que simboliza, segundo o texto, a criminalização da infância e da juventude. O Cenpec e diversas outras organizações ligadas à educação também assinaram o documento.

Chamada de Amanhecer Contra a Redução da Maioridade Penal, uma campanha nacional tem conseguido gerar ações políticas para mobilizar e conscientizar a sociedade contra a redução da maioridade penal. Inspirada na campanha uruguaia No a la Baja, o movimento vêm realizando vigílias em diversas praças do país contra o que chamou de “onda conservadora que tomou o Congresso” e a “campanha massiva que a grande mídia está fazendo a favor da redução”.


Enquanto isso, no Uruguai…

Em 2010, o debate sobre uma possível redução da maioridade penal começou a se encaminhar no Uruguai. Os principais argumentos a favor, defendidos amplamente pelos grandes veículos de mídia, pautavam-se em casos isolados sobre fugas de adolescentes das instituições socioeducativas do país.

Foi aí que as organizações ligadas aos direitos humanos e à educação se uniram para dialogar com essa sociedade influenciada por notícias sobre crimes quase remotos realizados por adolescentes. Por quatro anos, o movimento No a la Baja mobilizou o país para disseminar informações contra a redução da maioridade penal. O projeto deu certo: no início, 73% dos uruguaios se diziam a favor da prisão dos jovens a partir de 16 anos. Ao final da campanha, 53% passaram a levantar a bandeira de que reduzir de 18 para 16 anos não é uma medida inteligente.


Na última quinta-feira (25), documento contrário à redução da maioridade penal foi lido no plenário do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. Assinado por ONGs como a Conectas, a Rede de Justiça Criminal, a Rede Nacional de Defesa do Adolescente em Conflito com a Lei e a Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente, o documento ressalta que a proposta representa um “grave retrocesso” para o país e criminaliza um “dos segmentos mais vulneráveis” da sociedade brasileira: os jovens pobres.

Tagsadolescentes, direitos, direitos humanos, jovens, juventude

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  •    ANTONIO MANUEL MARTINS MIGUEL  em 
         Educação&Participação respondeu em