Educação Integral na atualidade: diversidade de olhares, espaços e fontes de conhecimento

“A ciência moderna, quando cria a objetividade, afasta os outros saberes, que são fundamentais, que geram inclusive a ciência. Portanto, trabalhar com todos os saberes é fundamental para você ter uma formação integral, uma formação cidadã. O mundo não se resume à ciência”. É o que afirma o físico e mestre em educação Nelson Pretto.
Sua fala se deu durante o Seminário Nacional Educação Integral: Experiências que Transformam, que reuniu educadores e representantes de organizações de todo o Brasil para debater a temática. Pretto participou da sala temática “Educação e novos saberes”.  Ele, ao lado da coordenadora psicopedagógica doProjeto Escola Viva na Rede do Instituto Kairós, Ana Lúcia Braga, abordou, entre outros aspectos, a necessidade de que os processos educativos atuais sejam modernizados, com o aproveitamento dos novos meios de comunicação disponíveis, a preocupação com a ressignificação de valores tradicionais e o respeito à diversidade de culturas e olhares.
Durante o diálogo, o momento atual foi tratado como um estágio de instabilidade que pode e deve ser visto não como problema, mas sim, como uma fase rica em oportunidades de avanços. Pretto, na ocasião, lembrou a atual utilização das redes sociais por movimentos ativistas de jovens, como o Fora do Eixo, para enfatizar a necessidade de que a escola acompanhe esses processos inovadores.
“Se não existe arte sem desordem, será que não precisamos de mais desordem na escola formal?”, perguntou aos participantes do debate. Ele defendeu também a transição do ensino centralizado, modelo antigo ainda presente nas escolas de hoje, a um processo de aprendizado descentralizado e distribuído, em que aluno e professor sejam autores, não meros atores dos processos educativos, e a escola pública possa produzir ressonâncias à comunidade. “A educação deve ser um círculo virtuoso de produção de cultura e conhecimento em distintos espaços de provocação”, concluiu.
A experiência do Instituto Kairós
Exemplos da aplicação prática dessa concepção integral da educação são as atividades desenvolvidas pelo Instituo Kairós, que tem como lema a geração e a transferência de tecnologias sociais orientadas ao desenvolvimento humano, em suas dimensões sociocultural, socioeconômica, socioeducativa e socioambiental.
O início desse trabalho, no município de São Sebastião das Águas Claras (MG), partiu da observação da realidade local e do diálogo com a comunidade. “Percebemos como problemas locais o turismo desordenado e a falta de acesso à cultura. Foi então que buscamos resignificar a cultura local, fortalecendo as bases identitárias da comunidade”, comentou Ana Lúcia Braga, coordenadora do Escola Viva na Rede, um dos projetos da organização.
A partir desse objetivo, a estrutura física e a conduta do instituto foram construídas coletivamente, com base em princípios, como o respeito aos saberes locais, a pedagogia da roda, a comunicação local, a diversidade cultural e a permacultura. São algumas das atividades desenvolvidas pela ONG atualmente: aulas de informática voltadas à busca por informação, oficinas de comunicação comunitária, audiovisual e expressão digital, apoio à escola formal, práticas lúdicas, corporais, esportivas e ambientais, realizadas em parceria com as famílias, intervenções artísticas e diálogos intergeracionais. Esses últimos são espaços de troca de conhecimento em que mestres da tradição oral da comunidade atuam como protagonistas, transmitindo às gerações mais novas seus saberes tradicionais.
“É preciso entender o saber humano como um processo. Não se trata de resgatar o passado, nem de trazer tecnologia para o ensino do jovem. A tecnologia já é do jovem. Basta se criar esse diálogo e entender a educação como um processo. O saber do passado não é o passado, é o saber da sociedade que está se transformando e se abrindo para o que há de novo. Não se trata, portanto, de resgate, mas sim, de olhar de uma maneira diferente e promover um encontro dos diferentes conhecimentos”, explica Ana Lúcia.
A ideia de que não há oposição nem distância entre as novas tecnologias aplicadas à educação e a busca de conhecimento na cultura tradicional é compartilhada por Nelson Pretto. “A união entre a ciência e os saberes tradicionais deveria ser algo muito simples, nós que complicamos. Se eu tenho um olhar respeitoso e enaltecedor do diferente, eu o olho sem me preocupar se o meu conhecimento é melhor ou pior que o dele. Eu o olho simplesmente como diferente, sem hierarquia de valores”, afirma o educador.


Saiba mais sobre o Instituto Kairós

Conheça o projeto Tabuleiro Digital, do qual Nelson Pretto faz parte.

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