Educação integral: retrospectiva 2014

retrospectiva_news

O que aconteceu de mais relevante no Brasil e nos programas acompanhados pelo site Educação e Participação. Confira! 

Escrito por João Marinho 

Com a proximidade do fim do ano, vem o desejo de fazer um balanço, organizar as ideias e estabelecer metas para o próximo período – e, para as pessoas que trabalham, dedicam-se e lutam pela educação integral, não é diferente. Para ajudar nessa reflexão, organizamos uma retrospectiva mostrando os avanços e desafios da educação integral no Brasil, bem como o que aconteceu de mais importante nos programas divulgados pelo Educação e Participação. Vamos lá?

 CONTEXTO EDUCATIVO EM 2014

Nenhuma retrospectiva acontece se não analisarmos o contexto em que os eventos foram realizados. Em 2014, o contexto educativo no Brasil foi bastante movimentado, marcado por algumas boas notícias, mas, ao mesmo tempo, impactado pela realidade de que há ainda muito a ser feito.

Uma das notícias mais desconcertantes do ano diz respeito à situação social e educacional dos jovens no mundo. Em novembro, houve o anúncio de uma estatística do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), segundo a qual o mundo nunca teve tantos jovens – 1,8 bilhão de pessoas –, e, no entanto, permanecem em grande parte negligenciados: mais de 500 milhões, por exemplo, vivem abaixo da linha da pobreza, enquanto 60% não têm acesso à educação.

Você sabia?

Ocorrida entre junho e julho, a Copa do Mundo acabou se convertendo em uma oportunidade única para ampliar ações educativas no Brasil. Uma delas, o Mundial da Educação, contou com um mapa destacando atividades educativas no País e recebeu cobertura do site Catraca Livre.
Outro destaque foi o projeto Fifa 11 pela Saúde, além de outras iniciativas de diferentes
instituições e escolas que também marcaram gols.

Os números falam diretamente ao Brasil, que é o sétimo país com o maior número de jovens, mas que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), registra 62,2% da população de 18 a 24 anos fora da escola e pouco mais de 34% das escolas públicas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio oferecendo matrículas em período integral. No País, 30% dos adolescentes de 12 a 17 anos não têm acesso à internet, enquanto 14% relatam terem sofrido algum tipo de discriminação e mais de 20% presenciaram discriminações baseadas em raça, cor ou sexualidade.

A situação da infância no mundo não é menos desafiadora. Em janeiro, o Unicef publicou o relatório A situação mundial da infância em números, segundo o qual 15% das crianças são ainda obrigadas a trabalhar, enquanto mais de 6 milhões de crianças de 0 a 5 anos morreram em 2012. Felizmente, houve progressos, como o aumento do ingresso escolar nos países desenvolvidos, que bateu os 81%.

Nesse sentido, o Brasil também registrou melhoras em seus indicadores, com uma tendência de crescimento no número de municípios com conselhos municipais de Educação (dados de 2011) e expansão nas matrículas em educação integral, que, no Ensino Fundamental, cresceram 139% desde 2010,segundo o Censo da Educação Básica. “Demos um passo bem grande para aumentar o ensino em tempo integral, mas ainda está muito longe do que queremos e devemos ter”, comentou a presidente Dilma Rousseff.

Reforçando as boas notícias, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado em setembro, ultrapassou a meta fixada para os primeiros anos do Ensino Fundamental, enquanto o Pronatec, que oferece ensino técnico, divulgou a marca de 5 milhões de jovens atendidos.

Entretanto, o Ideb mostrou que as metas dos anos finais do Ensino Fundamental não foram alcançadas. O Ensino Médio, por sua vez, permanece como gargalo, tanto com estagnação das matrículas quanto com o pior resultado do Índice.

 Veja a entrevista com Raquel Souza sobre o assunto:

raquel_editRaquel Souza: “Hoje em dia, a
juventude está mais escolarizada do
que seus pais; porém temos ainda
muitos desafios, pois a educação
oferecida à juventude materialmente
desfavorecida é precária, sem
investimentos capazes de criar
escolas com materiais e recursos
tecnológicos, bibliotecas
e laboratórios” 

 

 

Para avançar e melhorar o quadro da educação no País, o governo federal lançou um site sobre educação integral e tem estimulado a adesão de escolas ao programa Mais Educação. Em 2012, a presidente Dilma divulgou que o programa atendia 15 mil escolas de Ensino Fundamental em todo o País. Para 2014, a meta é de 60 mil escolas. No ano que vem, é nosso dever checar se foi alcançada.

 NO BRASIL, AVANÇOS LEGAIS

Outros avanços importantes para a educação no Brasil aconteceram no campo das leis e do Direito, como a Lei 12.960, de 27 de março de 2014, que foi aprovada pelo Senado em fevereiro e dificultou o fechamento de escolas rurais, indígenas e quilombolas. Mas, sem dúvida, a entrada em vigor do Plano Nacional de Educação (PNE) merece destaque.

O PNE estabeleceu o prazo de um ano para que estados e municípios realizem seus próprios planos, em harmonia com a nova proposta, que, por sua vez, se estrutura em uma série de metas contemplando todas as fases de ensino no País.

A meta 6 diz respeito à educação em tempo integral, e o site Educação e Participação publicou uma reportagem sobre a implementação de planos de educação integral, com base na experiência da Fundação Itaú Social e do Cenpec no estado do Pará. O Cenpec, por sinal, abriu em outubro um site para tratar especificamente do tema.

Marco Regulatório das ONGs

Outro avanço legal importante em 2014 foi a aprovação do Marco Regulatório das ONGs. A nova lei, que entra em vigor no ano que vem – o prazo foi prorrogado –, não diz respeito exclusivamente à educação integral, mas a impacta na medida em que cria normas claras para o financiamento público de organizações da sociedade civil, muitas das quais trabalham com a temática. Na avaliação de Maria Alice Setubal, o Marco é uma ação que faz repensar o papel do Estado e das organizações e aprofunda a democracia.

 AÇÕES FORMATIVAS E BANCO DE OFICINAS

Prêmio Itaú-Unicef realiza uma das ações de  irradiação e mobilização em 2014
Prêmio Itaú-Unicef realiza uma das ações de
irradiação e mobilização em 2014

A Fundação Itaú Social e o Cenpec vêm contribuindo com a educação integral por meio de uma série ações formativas, e, em 2014, não foi diferente.

O ano registrou, por exemplo, aAssessoria às 32 Organizações Finalistas e Escolas Parceiras da 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.

Por meio de encontros, cursos e de videoconferências, como a que discutiu comunicação e a que abordou os desafios e oportunidades nas parcerias entre ONGs e escolas, o Prêmio seguiu com a proposta de fortalecer esses agentes no desenvolvimento de projetos de educação integral.

Também foram realizadas Ações de Irradiação e Mobilização nos mais diversos locais do território nacional. Só até maio, foram contabilizadas seis ações. O primeiro semestre se encerrou com o total de nove, e setembro foi, no segundo semestre, o mês que registrou o maior número de encontros: cinco. Natal (RN), Maceió (AL), Araçatuba (SP), Petrópolis (RJ), Paranavaí (PR) e São Luís (MA) estiveram dentre os destaques.

Igualmente importante foi a disponibilização e disseminação do Banco de Oficinas, que ocorreu tanto por meio encontros em cidades como São Bernardo do Campo (SP) e Vitória (ES) quanto on-line. O Instituto Estre e asinstituições participantes do Prêmio Itaú-Unicef também contribuíram, divulgando suas próprias propostas.
 DEBATES VIRTUAIS
banner_debate_virtual2_520x300
Especialistas aprofundam questões sobre intencionalidade educativa, um dos debates virtuais transmitidos pelo site Educação e Participação.

Por falar em conteúdo on-line, investiu-se como nunca na internet. Os debates virtuais foram algumas das ações mais populares ao longo de 2014, abordando eixos como intersetorialidade;
infraestrutura e território; e avaliação de programas.

Parte desses encontros integra
o Fórum Políticas de Educação Integral, criado para fomentar o debate e o compartilhamento de práticas e experiências relacionadas à implementação de políticas públicas de educação integral nos municípios brasileiros.

Outros foram realizados no âmbito do Prêmio Itaú-Unicef e integram a nossa Sala de Debates “A garantia do direito à educação integral: papel de ONGs e escolas”, uma rede virtual aberta que reúne profissionais que trabalham com a educação integral e que aprofundou três temas ao longo do segundo semestre: “Direito à educação integral: que direito é esse?”, “Como acontece o direito à educação integral na ONG e na escola?” e “Articulação no território”.


 
Leia o artigo “Intersetorialidade: o desafio de uma nova arquitetura de gestão em Betim”

 Leia mais sobre infraestrutura e território:

–  Opinião do especialista: integração curricular

– Por outras referências no diálogo arquitetura e educação

– A fala dos passinhos errantes: a infância mensageira

 Confira as entrevistas:

cleuza_repulho2Cleuza Repulho: “A educação integral não alcançará êxito se ampliarmos a jornada com as mesmas propostas que temos hoje”.

 

salete_65x65Maria de Salete Silva: “Um ser integral precisa de política integral”.

 

icone_homeElsa Araújo da Silva e Cristiane Correia Rezende:
“Construir objetivos e ações em comum entre a organização e a escola são fundamentais para a parceria”.

cometaJosé Luís Adeve: “O esporte é mais do que uma atividade física ou motora. Ele desenvolve inúmeras potencialidades que estão latentes em cada criança, em cada jovem”.

 

 FORMAÇÃO E PROTAGONISMO JUVENIL

A juventude também foi contemplada em 2014, em uma série de ações e experimentações do programaJovens Urbanos, que teve a alegria de receber menção honrosa no 17º Prêmio Betinho.
O ano começou com uma formatura, que aconteceu na ETEC Santa Ifigênia, em São Paulo (SP), e logo prosseguiu com a abertura de inscrições no município de Caçapava (SP) – onde houve a apresentação dos Projetos Jovensreferentes a 2013, em março – e nas regiões do Capão Redondo e da Brasilândia, na capital. Em setembro, foi a vez do município de Serra (ES) fazer suas inscrições.

Participantes da 9ª Edição do Programa Jovens Urbanos em  São Paulo, em uma de suas atividades. Foto: João Marinho
Participantes da 9ª Edição do Programa Jovens Urbanos em
São Paulo, em uma de suas atividades. Foto: João Marinho

Em Serra, o Jovens Urbanos teve uma produtora, a Lab.Muy, como executora pela primeira vez. Não foi a única inovação do programa que, em 2014, diferenciou-se por se aproximar ainda mais da escola pública e diversificar parcerias.
Encontros

Dois encontros para a juventude merecem destaque em 2014. Em fevereiro, os jovens foram convidados para debater sobre a arte do grafite, enquanto, em abril, houve o Encontro Outras Palavras, que tratou das novas subjetividades juvenis.

Outro encontro que deve ser mencionado ocorreu em julho, quando os jovens foram recebidos para dar sugestões ao Programa Jovens Urbanos, uma iniciativa que amplia o caráter democrático de sua gestão.


 Leia também sobre a 
formação de gestores e técnicos em parceria com o governo de Minas Gerais

  Leia sobre o convênio estabelecido com a prefeitura de Santos (SP), para aplicação da metodologia do Programa no município

 

Caçapava

Em junho e outubro, os participantes do Jovens Urbanos de Caçapava (SP) realizaram dois encontros públicos, que reuniram jovens, famílias e educadores para apresentar à comunidade o trabalho que vem sendo desenvolvido pelos jovens no percurso de formação da edição 2014.

 

Serra

Os Jovens Urbanos de Serra (ES) tiveram destaque em dois eventos ocorridos no segundo semestre: um encontro público realizado em outubro e uma ocupação cultural na capital do estado, Vitória.

 

Brasilândia e Capão Redondo

Em São Paulo (SP), a Semana Expressão Jovem, ocorrida em setembro, possibilitou a ampliação de experiências e repertórios para os participantes do programa e foi um evento de destaque em 2014, que registrou ainda a apresentação de um número impressionante de Projetos Jovens dessas duas regiões paulistanas. No dia 12 de dezembro, foi realizada a Feira de Projetos, durante a qual o público pôde conferir os registros e produções de 39 intervenções.

Mais sobre juventude

 Saiba mais sobre experimentações ocorridas no âmbito do Programa Jovens Urbanos. 

 Leia o artigo “As ONGs e os programas para adolescentes e jovens

 Leia nossa reportagem sobre educação integral e sexualidade

 SEMINÁRIO INTERNACIONAL

lucia_couto_seminario
Lucia Couto, uma das especialistas presentes ao seminário, fala sobre o contexto da educação integral, tendências e desafios. Foto: Thais Iervolino.

 

Ponto alto de 2014, o Seminário Internacional Educação + Participação = Educação Integral foi realizado pela Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Cenpec, em novembro.

Ao todo, cerca de 500 pessoas, entre educadores, representantes de organizações e do poder público estiveram presentes na sede da Fecomercio, em São Paulo (SP), para debater com 14 especialistas do Brasil e do exterior temas relacionados à educação integral.

Faça um comentário!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Total de 1 comentário(s)

  •    [portfólio] Educação integral 2015: metas, perspectivas e desafios | ::: joao marinho  em