Entrevistas - Gustavo Paiva - Prêmio Itaú-Unicef

Entrevista: “A escola que se quer integral precisa olhar para a criança como um todo: corpo e mente.”

Há 15 anos, o Instituto Esporte e Educação (IEE) surgiu com a missão de ampliar o acesso de crianças e jovens às práticas esportivas e de lazer. Presidido pela ex-atleta do vôlei e medalhista olímpica Ana Moser, o instituto atua com projetos de formação, de atendimento direto e de sensibilização de políticas públicas. Em entrevista ao Cenpec, o coordenador pedagógico do instituto, Fábio D’Angelo, comenta a importância do esporte para a educação integral.

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Fábio D´Angelo: “O esporte na escola é um elemento muito importante para esse processo de educação integral, porque coloca como fator-base o corpo e a criança em movimento. Não se trata do movimento numa dimensão biológica apenas, mas do movimento em uma dimensão cultural.”

D’Angelo, que é mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor de pós-graduação em Educação Física Escolar da Universidade Gama Filho (UGF) e das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), critica as concepções de educação de qualidade que negam a corporeidade e o movimento. O coordenador comenta, ainda, os princípios do esporte educacional e dá dicas, a partir da atuação com a metodologia desenvolvida pelo instituto, para tornar as aulas de Educação Física inclusivas.

“Nossos projetos são estruturados a partir de cinco princípios: a inclusão de todos, a construção coletiva, o respeito à diversidade, o princípio de educar para a autonomia e a educação integral, que é o grande guarda-chuva da nossa metodologia, do nosso jeito de fazer o esporte”, comenta.

Confira a entrevista abaixo.

Nos projetos dentro e fora da escola vocês têm atuado com a concepção de esporte educacional. Qual é a importância desse olhar para o esporte?

Fábio D’Angelo: Essa dimensão do esporte educacional surgiu com alguns marcos legais, entre eles a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e, depois, a Lei Pelé, que organizou o esporte no Brasil em três dimensões: o esporte de rendimento, o esporte de participação e o esporte educacional. No último caso, está posta a ideia do esporte enquanto uma produção cultural, enquanto prática da cultura corporal que tem valores vinculados à educação. O mais relevante desse processo é que esses documentos e essas leis acenam para o esporte como um direito do cidadão.

Como surgiu a demanda de buscar parcerias entre o instituto e as escolas? Por que isso é importante?

Fábio D’Angelo: A gente sempre acreditou que a escola pode ser um espaço privilegiado de acesso ao esporte. Então, todas as vezes que a gente tem a oportunidade de dialogar e de conversar com a escola, procuramos fazer.

Essa parceria é muito importante porque na escola temos atores que são fundamentais para viabilizar esse acesso. A ideia, em princípio, é entender que a escola tem essa função social de dar acesso às pessoas, de transmitir às pessoas conhecimentos que foram socialmente construídos. Entre eles está também o conhecimento da linguagem corporal, da educação corporal.

Qual é o papel do esporte para se pensar uma educação integral?

Fábio D’Angelo: O esporte na escola é um elemento muito importante para esse processo de educação integral, porque coloca como fator-base o corpo e a criança em movimento. Não se trata do movimento numa dimensão biológica apenas, mas do movimento em uma dimensão cultural. Eu diria que o esporte e a Educação Física são componentes curriculares muito importantes quando se pensa a educação integral.

Recentemente a reforma do Ensino Médio, aprovada por medida provisória pelo governo federal, quase retirou a obrigatoriedade da Educação Física do Ensino Médio. Qual seria, na sua avaliação, os impactos dessa medida para os jovens dessa faixa etária?

Fábio D’Angelo: Temos muita dificuldade de entender o que os gestores públicos pensam e fazem com a educação. Toda vez que se reduz o currículo a essa ou aquela disciplina, abrindo mão dessa ideia de componentes curriculares que dão oportunidade para as pessoas se desenvolverem como um todo, que se nega o corpo em movimento, que se nega a motricidade, dentro ou fora da escola, estamos negando o ser humano em sua integralidade.

Componentes curriculares como Educação Física, Artes, Música, com todas as limitações que possam ter, são componentes que podem dar vazão a uma educação que pense o sujeito e o ser humano de uma forma integral. Por isso, eu lamento muito que ainda existam gestores públicos que imaginam que a melhor escola é aquela em que aluno fica sentado de quatro a seis horas por dia.

Outra mudança recente feita pelo governo federal foi nas diretrizes do Programa Mais Educação, que passou a ser voltado exclusivamente ao reforço de Português e Matemática. Qual é a sua avaliação sobre a mudança?

Fábio D’Angelo: O Programa Mais Educação nasceu de uma lógica de pensar a escola a partir do conceito de educação integral. Os programas de educação integral são, para mim, a esperança de uma escola que pudesse se fazer respeitando a criança como criança e o adolescente como adolescente. Quando o Mais Educação acena para essa ideia de reforço escolar, está simplesmente reforçando a ideia de que a escola não é boa. E não acredito que é com isso que a escola vai melhorar.


“Não dá para pensar em educação integral se não colocarmos essa ideia da motricidade, do corpo em movimento como um eixo condutor desse processo. O movimento é fator gerador de educação integral porque ele traz a possibilidade da criança e do jovem interagirem com o outro, interagirem com o mundo, interagirem com eles mesmos”


Quais são hoje os desafios para as escolas avançarem numa educação integral de qualidade?

Fábio D’Angelo: As escolas e as redes se apropriaram do discurso da educação integral, mas a minha convivência com as escolas no dia a dia está me dizendo que esse discurso está mais na intenção. Eu acho que está aí a relevância do Prêmio Itaú-Unicef, do Cenpec, do Instituto Esporte e Educação, que são instituições comprometidas com a prática da educação integral, que realmente constroem projetos e programas que são referência para professores, gestores e comunidades de como fazer a educação integral acontecer efetivamente.

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Por exemplo, não dá para pensar em educação integral se não colocarmos essa ideia da motricidade, do corpo em movimento como um eixo condutor desse processo. O movimento é fator gerador de educação integral porque ele traz a possibilidade da criança e do jovem interagirem com o outro, interagirem com o mundo, interagirem com eles mesmos e desenvolverem competências das mais variadas, inclusive cognitivas.

Como avalia a forma como se dá hoje a Educação Física na maior parte das escolas brasileiras?

Fábio D’Angelo: Aqui no Brasil, eu diria que quando o assunto é Educação Física na escola, a gente vive um grande paradoxo. Temos projetos de Educação Física muito bem desenvolvidos aqui no Brasil, que valorizam, em seu currículo, a ideia de corpo em movimento e da motricidade, mas que ainda dependem muito da figura do professor que, por questões individuais, demonstra intencionalidade no seu trabalho, estuda, se qualifica e faz uma educação física verdadeira, a partir dos princípios citados.

Agora, o Brasil é um país muito grande, então temos muitos desafios. Os maiores deles são: consolidarmos uma rede, valorizarmos mais a componente curricular e garantirmos qualificação da formação do professor de Educação Física. Enfim, não é muito diferente das outras componentes [curriculares]. A Educação Física também sofre com a falta de sistematização, com a falta de formação e de capacitação do professor e com a falta de recursos e de espaços dentro da escola.

Como enfrentar os desafios da inclusão e garantir que as aulas de Educação Física possam acolher toda a diversidade com que a escola lida?

Fábio D’Angelo: A palavra-chave é flexibilizar. O professor precisa ter essa competência, esse jogo de cintura para fazer do jogo e da brincadeira um espaço em que todas as crianças brinquem. Isso se deve construir desde muito cedo na escola. Não adianta chegar lá no Ensino Médio e ter a expectativa de que meninos e meninas vão fazer aula de Educação Física juntos se eles não foram educados para isso.


“O que seria uma boa aula de educação física? Seria uma aula em que se pode observar meninos e meninas brincando juntos, uma aula com recursos disponíveis para todas as crianças, uma aula em que vejo o jogar e o brincar, com as crianças participando ativamente.”


 

Se pudesse apontar alguns princípios para os professores que estão preocupados em melhorar sua prática com o esporte na Educação Básica, quais seria?

Fábio D’Angelo: A escola que se quer integral precisa olhar para a criança como um todo: corpo e mente. Não dá para ser como se só a cabeça fosse matriculada e não o corpo. Pensando em dicas concretas para o professor, diria que primeiro é preciso olhar qual é o tempo do corpo em movimento, da brincadeira e do jogo na rotina dos seus alunos. Em segundo lugar, é preciso valorizar muito a ideia do jogar e do brincar enquanto espaços significativos de aprendizagem.

Se me perguntarem quais são os critérios para escolher bons jogos, então eu daria algumas dicas:

  1. Jogos e brincadeiras dos quais as crianças participem ativamente.
  2. Jogos e brincadeiras em que as crianças construam a competência e aprendam a brincar sem ter interferência do professor o tempo todo.
  3. Jogo e brincadeira que possam sofrer alterações para trazer novos desafios que levem a criança a novas aprendizagens. Se as crianças estão brincando de pega-pega, posso colocar dois pegadores, aumentar o espaço do jogo, mudar os gestos e os movimentos da brincadeira.
  4. Jogos e brincadeiras que sejam flexíveis e possam incluir todos.

Muitas vezes o professor tem medo de perder o controle da turma e de que as crianças se machuquem, então ele mantém essa lógica das crianças controladas, sentadas, como se para aprender fosse necessário ficar sentado. O que seria uma boa aula de educação física? Seria uma aula em que se pode observar meninos e meninas brincando juntos, uma aula com recursos disponíveis para todas as crianças, uma aula em que vejo o jogar e o brincar, com as crianças participando ativamente.

Vídeo

A entrevista foi realizada durante a produção do vídeo Esporte e Educação Integral, que aborda o esporte educacional como um recurso pedagógico que contribui para o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens. Assista:

 

Tagsadolescentes, crianças, desenvolvimento, educação integral, esporte

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