Escola e comunidade: diálogos, construções e conquistas

Falar de Educação Integral em tempos em que todos os desafios estão colocados simultaneamente é importante e desafiador. Como gestores públicos é preciso implementar políticas cada vez mais ousadas, garantindo acesso, permanência e a necessária qualidade dos tempos e espaços de aprendizagem nas diferentes modalidades. Para corroborar com os objetivos e metas estabelecidos em cada município é preciso, entre programas e projetos relevantes, ampliar progressivamente, o atendimento à educação integral, para além da ampliação de jornada na escola.

Para construir a concepção de Educação Integral em São Bernardo do Campo, em 2009, houve o entendimento da Administração que era preciso dialogar com as instituições presentes nas comunidades, com atendimento em atividades socioeducativas, aos próprios alunos das unidades escolares municipais. As organizações não governamentais da cidade contavam com diferentes percursos, atores, recursos, já estavam em contato com as famílias e teriam importantes contribuições para esse trabalho no diálogo com a Secretaria de Educação e com as Unidades Escolares.

O trabalho, para atender inicialmente 30 das 70 escolas da rede – hoje são 37 escolas e oito mil alunos atendidos – , contou com algumas etapas iniciais: edital de chamamento das organizações da cidade, apresentação da proposta de trabalho, visitas técnicas às organizações para conhecer seus percursos, concepções e espaços, seleção e definição das parcerias para os  processos de conveniamento, estudos para organização dos módulos de atendimento, definição da proposta e do parceiro formativo para todos os atores do programa, definição das oficinas desejadas pelas escolas, com a seleção dos materiais e espaços necessários para sua realização foram algumas das fases que precederam o início das atividades do programa.

Um dos objetivos da Educação Integral nesta rede é garantir ampliação do repertório de mundo dos alunos e alunas, por meio de propostas que possam coloca-los em contato com outras possibilidades de construção de conhecimento por meio da música, das danças, das artes em geral e esportes, não ignorando o conhecimento e a cultura que os alunos já têm, mas explorando novas habilidades e saberes, reforçando a necessidade de convivência, de construção de regras, não apenas para que todos possam aprender mais e melhor, mas para que sejam humanos melhores, que compreendam a complexidade atual e possam lidar com os desafios impostos pelas mudanças rápidas que não param de acontecer.

Trabalhar com novos parceiros no processo pedagógico, entre eles educadores sociais com seus saberes e percursos, mudou a rotina das escolas, introduziu novos atores, novos ritmos, cores, jeitos, dinâmicas e propostas. Tudo isso demandou muita organização em todas as instâncias, articulação permanente e muito diálogo, principalmente, porque os espaços escolares não comportavam e ainda não comportam  necessariamente todas as oficinas, todos os dias. Foi necessário mapear espaços e possibilidades nas comunidades e contar com apoio dos familiares que normalmente consideram pouco seguro expandir o trabalho pedagógico para além dos muros da escola, para ocupar novos espaços, entre eles: clubes, centros de convivências, associação de moradores de bairro, salões de igreja, espaços de outras secretarias. Para ter apoio e confiança dos familiares é preciso garantir informação e formação, assim,  se pode progressivamente compreender ampliação de jornada, como continuidade das propostas pedagógicas previstas nos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas, com intencionalidade pedagógica e acompanhamento dos processos e resultados.

Circular pelas comunidades, também demandou contato e discussão constante com as famílias e para que tudo isso ganhe sentido, é preciso estar seguro dos objetivos deste trabalho, das etapas do programa, da necessidade permanente de reavaliar. Todas essas questões são possíveis quando são garantidos momentos para o debate e para os processos formativos. Neste sentido, os registros são de fundamental importância.

Com um ano de existência do programa, foi possível perceber que as propostas realizadas em ampliação de jornada, poderiam e deveriam ser desenvolvidas também no horário regular quebrando a lógica dos privilégios, garantindo na rotina de todas as salas das escolas que contam com o programa ‘Tempo de Escola’ oficinas de capoeira, de dança, de desenho, dehip hop, de skate, entre outras. Organizadas a partir da definição da equipe pedagógica da escola e da discussão com os professores sobre quais oficinas poderiam estabelecer melhor relação com suas propostas de trabalho e em qual tempo.

Organizar essa rotina tem sido tarefa complexa, trabalhosa, mas instigante e altamente compensadora, quando se pode constatar em pouco tempo de existência do programa, que os alunos e alunas certamente serão humanos melhores do que somos, e mais do que isso, eles já tem nos dado lições de generosidade e cidadania e nada disso seria possível sem os profissionais de cada escola e de cada organização que trabalham intensamente pela construção de uma escola melhor e uma cidade mais acolhedora.

 

Autoras:

cleuza-repulhoCleuza Repulho – professora, mestre em Educação de Jovens e Adultos, Cleuza foi secretária de Educação de Santo André (SP) de 2001 a 2007. Em 2008, atuou na Unesco e no MEC. Desde 2009, é secretária de Educação de São Bernardo do Campo (SP) e, atualmente, preside a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).


 

maria_helena_negreirosMaria Helena Negreiros –mestre em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo e mestre em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC, na linha de pesquisa sobre políticas públicas de educação integral. Maria Helena é autora do livro Leitura e lazer: uma alquimia possível.


percursosOriginalmente, o texto foi publicado no livro Percursos da educação integral.

 

 

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