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Currículo, parcerias e experiências de educação integral são destaque de encontro em SP

Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora, de São Paulo (SP), discutiu currículo e educação integral, compartilhou experiências em educação infantil e destacou parcerias entre escolas e museus em evento realizado na Câmara Municipal, no dia 24 de agosto.

Cláudia Galian, Alexandre Isaac e Erica Seabra na mesa da mesa Currículo na Educação Integral. Clique para ampliar.

Como se constrói um currículo voltado para a educação integral? A discussão, que já esteve presente em uma temática na plataforma Educação&Participação, foi o tema do 5º encontro do Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora, de São Paulo (SP), realizado na última quinta-feira, 24 de agosto, no Auditório Prestes Maia da Câmara Municipal.

Cerca de 130 pessoas se reuniram entre 9h e 12h30 para ouvir os palestrantes da mesa Currículo na Educação Integral, que contou com a participação de Cláudia Valentina Assumpção Galian, especialista em currículo e docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP).

Além dela, participaram: Erica Solange C. Seabra – diretora da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Carlos Gomes, localizada no distrito paulistano de Vila Maria –, que contou a experiência de educação integral da unidade; e Alexandre Isaac, do Núcleo de Educação Integral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), como mediador.

 

Currículo: processo contínuo

Cláudia Galian iniciou sua participação conceituando educação e o papel da escola: “Educação é um processo mais amplo, que acontece continuamente, desde que nascemos – mas há práticas educativas que têm intencionalidade, como na escola, […] práticas essas a que chamamos de pedagógicas –, e não podemos perder de vista que a definição dessa intencionalidade é política. Em uma sociedade desigual como a nossa, o que pretendemos com a escola não tem uma resposta única”.

“Quando se fazem escolhas, a discussão é ideológica.”

(Alexandre Isaac, Cenpec)

Galian pontua que o currículo nunca será definitivo: ele responde à correlação de forças na sociedade, o que implica que algumas vozes – ou culturas – serão contempladas e outras serão silenciadas ou distorcidas. Reconhecer isso é estar aberto para mudanças e para debater o tipo de sujeito que se quer formar. “Escolher é parte do trabalho de educação escolar […]. Preservar e conservar a cultura é parte da função da escola, [mas] pode ser feito na perspectiva crítica”, diz a especialista.

A partir dessa reflexão, Galian discutiu currículo com base no trabalho de José Gimeno Sacristán, para quem o conceito envolve múltiplas dimensões e se encontra em processo.

Dentro dessa concepção, o documento curricular, atualmente em discussão por meio da Base Nacional Comum Curricular, por exemplo, é apenas parte do processo, denominada currículo prescrito. Há, porém, as dimensões do currículo planejado, que engloba a produção de materiais pedagógicos; do currículo organizado, que compreende o conjunto de escolhas feitas pela escola; do currículo em ação, que abrange o que acontece, na prática, na interação entre professores e alunos; e do currículo avaliado, que é o conjunto de conhecimentos a respeito dos quais se deve garantir a aprendizagem e que compreende as avaliações realizadas tanto pela escola como por agentes externos.

“Buscar por novos arranjos de tempos, espaços e sujeitos rompe com a estrutura que reforça desigualdades sociais.” 

(Cláudia Galian, USP)

De acordo com Galian, todas as dimensões ocorrem em conjunto e se influenciam mutuamente – e depois de chegar à dimensão da avaliação, esta retroage sobre o currículo prescrito, podendo promover mudanças nele.

Em uma visão crítica, entretanto, atualmente está ocorrendo um processo inverso, segundo a docente da USP: a avaliação é que tem pautado o currículo prescrito de antemão, o que representa um risco para o objetivo de uma proposta curricular: “O melhor currículo é o que pode ser viabilizado e produz aprendizagem e crescimento de todos os alunos e professores”.

 

Desafios do currículo para a educação integral

Para Cláudia Galian, um currículo na perspectiva da educação integral deve superar a dicotomia entre turno e contraturno e a falta de integração entre o conteúdo considerado “tipicamente escolar” e a parte diversificada, além de considerar as diversidades e especificidades dos alunos. Também é importante considerar que a educação integral não se resume apenas à ampliação da jornada. “Há um reforço da ideia de que a escola e os conteúdos escolares são a parte ‘chata’ do currículo e a parte ‘divertida’ fica para as outras experiências […]. O ideal é que o ensino integral trabalhe com um currículo que integre tudo […]. A grande tensão do currículo é como falar de uma formação comum para todos e, ao mesmo tempo, fazer menção ao respeito à diversidade que os alunos trazem para a escola.”

“Não se pode negar que aumentar o tempo amplia as possibilidades, mas esse aumento de possibilidades somente ocorre se você repensar o currículo.”

(Cláudia Galian, USP)

Segundo a especialista, uma forma de atenuar essa tensão é permitir um maior espaço para que a escola e os professores façam escolhas: “Perde-se o cuidado com a diversidade na medida em que há um documento central que alinha demais e restringe demais os espaços para as escolhas […]. Há quem ache que pode resolver todos os problemas da educação por meio de um novo documento curricular. Será que o documento curricular deve incidir na prática do professor? Isso é parte da escolha profissional do professor! Invadir a esfera de escolha do professor é desrespeitá-lo”.

Galian encerrou a participação discutindo os riscos que um currículo para a educação integral pode correr. Para ela, entre os principais riscos, estão pensar que a educação integral é apenas para os mais vulneráveis – como uma política especial, em vez de ser algo direcionado a todos –, a fragmentação no trabalho e a restrição da escolha em relação à transmissão de conteúdos escolares.

Para se aprofundar na discussão sobre currículo e educação integral, acesse a nossa temática e assista ao Debate Virtual Currículo e Educação Integral transmitido no último dia 11 de agosto pela plataforma Educação&Participação:

 

Emei Carlos Gomes: uma experiência de educação integral

Erica Seabra apresenta a experiência da Emei Carlos Gomes no Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora, em São Paulo (SP). Clique para ampliar.

Com 176 alunos em tempo integral, a Emei Carlos Gomes trouxe sua experiência de educação para a mesa logo após a apresentação de Cláudia Galian – experiência esta que vem ocorrendo desde 2010, sob direção de Erica Seabra.

Atualmente, a escola conta com 12 ambientes pedagógicos pelos quais as crianças se revezam em uma jornada de 8 horas: brinquedoteca, sala multimídia, sala de jogos e matemática, sala de leitura, sala de linguagem verbal, sala de artes, espaço surpresa, parque, quadra, varanda do parque, varanda do tigrão e refeitório. “A questão de se trabalhar o ambiente pedagógico é otimizar o recurso: em vez de haver vários objetos espalhados pela escola, eles permanecem naquele ambiente”, diz Erica Seabra.

A diretora contou que, na escola, são trabalhadas questões de gênero, profissões e temas atuais de interesse dos alunos e com participação das famílias: “Na brinquedoteca, trabalhamos com questão de gênero, por exemplo […]. Meninos e meninas brincam com todos os brinquedos. Também trabalhamos profissões que as crianças trazem; […] e, atualmente, com mobilidade urbana”.

A escola possui horários para higiene, lanche, almoço com autosserviço e descanso – e um dos destaques é a participação das famílias, alunos e comunidade escolar: “Além de fazermos as plenárias com as famílias, fazemos também com as crianças […]. E nós temos o fórum de discussão”.

A Emei Carlos Gomes contou com o apoio da comunidade, parceria com Centros de Educação Infantil (CEIs) e com a criatividade de seus integrantes para desenvolver os ambientes pedagógicos e possibilitar uma experiência de educação integral que pode trazer ideias interessantes para outras escolas e professores.

Ouça o depoimento que Erica Seabra deu à plataforma Educação&Participação no áudio abaixo:

Sobre o Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora

O Fórum de Educação Integral para uma Cidade Educadora foi criado em dezembro de 2016 por representantes da rede municipal de ensino de São Paulo, organizações da sociedade civil (OSCs) e professores e estudantes de pós-graduação da USP, com a proposta de fortalecer práticas e políticas de educação integral no município e se firmar como um percurso formativo.

Os próximos encontros estão agendados para os dias 26/10, a princípio no Museu da Imigração, na parte da tarde; e 7/12, pela manhã, em local a definir.

A aproximação com os museus, inclusive, tem sido uma característica do Fórum, uma vez que instituições localizadas na cidade de São Paulo têm estabelecido parcerias com escolas do entorno, como são os casos do Museu de Arte Sacra e do próprio Museu da Imigração, que, por sua vez, vem trabalhando no conceito de território educativo. “A Cidade Educadora, fazemos juntos”, afirma Agda Sardenberg, membro do Fórum.

Contato: forumdeeducacaointegralsp@gmail.com

Para saber mais sobre o conceito de cidade educadora, clique aqui.

O encontro em imagens

Veja as imagens do evento. Clique para ampliar.


Fotos: João Marinho
Tagsarticulação, cultura, educação integral, escola pública, mobilização social, participação, políticas públicas

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