Entrevistas - Thais Iervolino - Educação&Participação

José de Azevedo: a educação integral deve estar atrelada ao projeto político democrático

Em entrevista à plataforma Educação&Participação, o ex-secretário de Educação do Rio Grande do Sul e um dos responsáveis por implementar a política de educação integral no Estado, José Clóvis de Azevedo, fala sobre a importância da educação integral, como ela deve integrar uma proposta política democrática e quais os caminhos (e riscos) desse conceito na atualidade.

“A educação não se resolve de forma isolada. Ela é uma questão política e o contexto atual nos desafia a retomar o debate sobre a volta de uma educação democrática, que parte do princípio de que a educação integral deve estar ligada à formação do cidadão, ao domínio das tecnologias e à educação corporal”. É o que defende o especialista em Educação José Clóvis de Azevedo*.

Azevedo foi um dos responsáveis por implementar a política de educação integral em Porto Alegre (RS) de 1997 a 2000, quando foi secretário municipal de Educação da capital gaúcha. Também levou a educação integral para o governo do Estado do Rio Grande do Sul, onde atuou como secretário de Educação de 2011 a 2014.

Durante entrevista exclusiva para a plataforma Educação&Participação, o ex-secretário contou a trajetória de implementação de educação integral em Porto Alegre, quando – no fim dos anos 1990 – trouxe a democracia como conceito base para construir a educação na cidade, com a participação da população.

Além disso, refletiu sobre o conceito de educação integral que ele defende, a que “parte do trabalho como princípio educativo, que articula a questão do conhecimento com a formação da cidadania e do mundo do trabalho” e alertou para os riscos da falta de democracia que a educação integral pode tomar com base no contexto social e político que vivemos.

Assista à entrevista, dividida em três blocos:

Por que implementar a educação integral em Porto Alegre?

Neste Bloco, Azevedo conta o início da política de educação quando era secretário de Educação da capital gaúcha. Segundo ele, em contraponto ao avanço de política neoliberal que estava ocorrendo no exterior, havia na cidade um projeto de democratização, na qual a população fazia parte da construção das políticas públicas.

Dessa forma, a educação não estava de fora: foi instituída a eleição de diretores e o orçamento participativo das escolas, para que o planejamento dos recursos da Educação fosse feito juntamente com a comunidade.


Qual o conceito de educação integral que você defende?

Nesta parte da entrevista, Azevedo analisa questões conceituais da educação integral e fala sobre como ela deve estar inserida no currículo escolar.

“Antes de pensar na qualificação para o trabalho, antes de pensar em empregabilidade, é preciso ter uma educação que possibilite a compreensão sobre o que é o mundo do trabalho. (…) O trabalho é que constrói o ser humano e compreender isso, o trabalho como um valor que é inerente ao ser humano, é fundamental para compreender como o resultado do trabalho é apropriado ou não e como ele é expropriado de quem trabalha”, diz.


Quais são os caminhos da educação integral?

Ao fim da entrevista, Azevedo alerta para os caminhos que, segundo ele, distanciam cada vez mais a educação integral da democracia, conceito que pautou as políticas educacionais desde o fim dos anos 1990.

Ele também faz uma crítica à educação integral para o Ensino Médio, proposta pelo governo atual. Segundo o ex-secretário, tanto a reforma do ensino médio, como a trabalhista e a proposta de reforma previdenciária fazem parte de um projeto de Estado voltado às demandas do mercado, que precariza o trabalho.

“Esse contexto nos desafia a retomar o debate sobre a construção de um projeto político nacional democrático para reverter o momento negativo que vivemos hoje”, afirma.

*Mais sobre Jozé Clóvis de Azevedo – De 2011 a 2014, foi secretário de Estado de Educação do Rio Grande do Sul, membro do Conselho dos Secretários Estaduais de Educação (Consed) e do Fórum Nacional de Educação, vinculados ao Ministério da Educação (2011-2014). Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP, 2004), é licenciado em História, bacharel em História Econômica do Brasil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Docente no Programa de Pós-Graduação, Mestrado Profissional em Reabilitação e Inclusão e no Curso de Pedagogia do Centro Universitário Metodista – IPA, José Clóvis Azevedo tem experiência na área de Educação, com ênfase em filosofia da educação e políticas educacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino Médio, educação profissional e gestão. Pesquisa às políticas educacionais, com ênfase no Ensino Médio, na educação profissional e nos processos de democratização da escola e dos sistemas educacionais, considerando acesso, gestão e aprendizagem e a relação entre processos participativos, inclusão e conhecimento.

Debate Virtual – Em novembro do ano passado, Jozé Clóvis de Azevedo participou do Debate Virtual promovido pela plataforma Educação&Participação. Intitulado “Práticas Educativas na Educação Integral: Novos Conteúdos e Novas Abordagens”, o debate buscou evidenciar as possibilidades que a educação integral traz em relação à inovação nas práticas educativas, considerando a ampliação dos tempos e o acesso a novos conhecimentos. Saiba mais aqui. 

 

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