Notícias - Priscila Pacheco - Jovens Urbanos

Jovens Urbanos em São Paulo encerra ano com Feira de Projetos

Chovia na tarde do dia 8 de dezembro, data escolhida para a Feira de Projetos da 12ª edição do Programa Jovens Urbanos, uma iniciativa da Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), que acontece em Cidade Tiradentes e São Miguel Paulista, extremo leste da capital paulista. Todavia, a “chuvarada” não desanimou em nada os jovens que estavam apreensivos para apresentar ao público o que haviam produzido no terceiro e último módulo do percurso formativo do programa. “Estou ansiosa. Toda vez fico ansiosa”, compartilhou Geovana Mariano, integrante do projeto Gilete na Alma: Relatos Depressivos, que fala sobre depressão.

Jovens participantes da Feira de Projetos.

O evento aconteceu na Biblioteca Espaço Alana, localizada no distrito de Jardim Helena, também no extremo leste da capital, e foi um momento para que os jovens apresentassem o que realizaram em seus projetos após as bancas de avaliação ocorridas em outubro deste ano. Os 12 projetos, produzidos por jovens de 15 a 20 anos de idade, usaram dança, arte circense, música, teatro, poesia e gastronomia para abordar temas como abuso sexual, racismo, genocídio negro, violência contra a mulher, manipulação da mídia, xenofobia, abuso sexual, machismo, perda da infância e depressão.

Karina Dalolio Nadaletto, gestora local do programa no Instituto Pombas Urbanas, responsável pela cogestão da ação em Cidade Tiradentes, comentou que ver as apresentações finais despertou um sentimento de orgulho e alegria. “Eles acreditaram na própria potência e trouxeram temas importantes para cada grupo”, disse. Karina acredita que a escolha dos temas e o modo de expressá-los tem relação com o processo de refletirem sobre as próprias vivências, ato que ocorreu ao longo do ano.

Já Eder Giuseppe, educador em Cidade Tiradentes, comentou que a proposta para cada jovem refletir sobre a própria identidade foi muito rica e que o convívio permitiu que eles [os educadores] também se “autorreconhecessem em muitos momentos”. Por fim, Marcos Gomes, artista educador que deu assessoria de teatro para a turma do projeto Encontros na Margem Literária, comentou que foi gratificante ver os jovens decidirem fazer apresentações em praças periféricas de São Miguel em vez de permanecerem nas mais “centrais” do distrito, casos da Praça do Forró e Morumbizinho. Malcom X e Craveiro do Campo foram as praças escolhidas.


O que disseram os jovens participantes do Jovens Urbanos

Jovem faz apresentação em evento

Geovana Mariano, 16, não quer o fim do Gilete na Alma: Relatos Depressivos, projeto que usou a fotografia e o teatro como bases para discutir a depressão. “Queremos nos inscrever em editais”, disse. A turma do Encontros na Margem Literária enfrentou dificuldades, mas conseguiu liberação da Prefeitura Regional de São Miguel Paulista para fazer as peças de teatro e os debates em praças públicas. “A gente viu que é uma coisa que dá certo. É um incentivo para a cultura, para observar a praça, a cidade”, comentou Jonatas de Andrade, 15.

Dancetude, que criou uma coreografia e esquetes teatrais para falar sobre genocídio negro, nem havia realizado as apresentações propostas no projeto escrito e já estava recebendo convites para dançar em eventos. “Foi cansativo. Teve muito ensaio, mas trabalhamos juntos. Foi coletivo”, compartilhou Gabriel da Silva, 16. Quem se arriscou na área gastronômica também conheceu um mundo novo. O grupo do qual Lara Piologo, 16, faz parte, o Um Prato de Cultura com uma Pitada de Respeito, colocou em pauta a imigração, o refúgio e a xenofobia usando a culinária. A turma cozinhou pratos típicos da Síria, República Democrática do Congo, Haiti e Angola. “Achei uma experiência boa para conhecer novas culturas”, disse Lara.

“O teatro faz parte da minha vida”, revelou Willian Roney Silva, 15, integrante do Expressões Periféricas, que realizou atividades a respeito do preconceito. O rapaz também disse que a participação no terceiro módulo do Jovens Urbanos foi importante para aprender a trabalhar em grupo. “Aprendemos a ser um coletivo. A gente sentou e conversou sobre nossas brigas e agora estamos lidando como um coletivo”. Matheus Paulino, 19, que entrou no teatro para perder a timidez, também falou que aprender a trabalhar em grupo foi um legado. O rapaz integrou o Sarau Diversiarte, que tem forte expressão na poesia para tratar de racismo, machismo e sexualidade. “Acho que estou me sentindo menos tímido”, finalizou Matheus.

Michelli Ferreira, 19, participante do projeto Feminivida: juntxs contra a violência doméstica, ressaltou os desafios de realizar um trabalho em conjunto com personalidades e ideias distintas. “Mas ensaiamos muito e estamos confiantes. Preparamos uma apresentação com música e poesias autorais e de outros escritores”, comentou antes de se apresentar na Feira de Projetos.

Para Carlos Henrique dos Santos, 17, o aprendizado de construir o Recordando a Quebrada: Resgatando Brincadeiras e Jogos Populares contribuiu para o amadurecimento dele. “Eu nunca me comprometi tanto. Isso é muito importante para a minha vida adulta, para quando eu trabalhar”, completou. Já a colega Ana Cláudia Pereira, 17, estava radiante com o resultado do projeto. “O mais importante deu certo. Muitas crianças participaram das brincadeiras e elas super adoraram a dança da cadeira e o videogame.” O objetivo do grupo de Carlos e Ana era mostrar às crianças brincadeiras que estão ficando esquecidas. Eles foram a escolas públicas fazer o convite e receberam cerca de 80 crianças para brincar.

“É muito triste saber que acontecem coisas como essas [o abuso sexual]. A gente precisa correr atrás, porque a mulher não é pior do que o homem”, comentou Camila Ágatha Toledo ao descrever o projeto Isso Fica entre Nós: Em Cena contra o Abuso Sexual. O projeto de esquetes teatrais que nasceu em Cidade Tiradentes, extremo leste, marcou presença até na região de Parelheiros, extremo sul de São Paulo.

A galera do projeto Cabaret: Arte contra o Preconceito – Amar não é Errado! sentiu-se desafiada em discutir sobre heteronormatividade usando a arte circense. “Tínhamos a preocupação de falar sobre a heteronormatividade sem parecer piada para não ofender ninguém”, disse Henrique Augusto Nascimento, 17. Henrique ainda revelou que algo muito importante foi a desconstrução de preconceitos. “O maior aprendizado veio a partir de uma cena em que eu, heterossexual, beijei um menino. Foi uma desconstrução. O maior aprendizado foi o respeito, se colocar no lugar do outro.”

Na produção do projeto Devaneios dos Balões sobre a perda da infância, teve jovem ansioso para apresentar que confirmou uma “paixão” pelo teatro. “Vi que nasci para fazer teatro e descobri isso nas atividades do Jovens Urbanos. Agora tenho senso crítico, aprendi a sentir meu corpo, minha respiração, a ver o mundo”, compartilhou Guilherme Ribeiro, 16. E na turma do Sorria, Você está Sendo Manipulado!, houve quem ficou mais atento às ações da mídia. “Não dava muita atenção para esse negócio de a televisão manipular. Agora estou com um olhar mais crítico”, confidenciou Karenn Cristiny Acaiaba.

A Feira de Projeto marca o encerramento da 12ª edição do Programa Jovens Urbanos, a partir do trabalho desenvolvido por uma ampla rede de parceiros locais. Em São Miguel Paulista, contou  com a parceria institucional da Fundação Tide Setubal, da Aldeia Satélite, da Associação Jovens do Brasil e do Projeto Cultural Educacional Novo Pantanal (Procedu). Em Cidade Tiradentes, as ações foram realizadas com a cogestão do Instituto Pombas Urbanas e em parceria com o CEU Inácio Monteiro e o Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes.

Galeria de imagens

Feira de Projetos

TagsCidade Tiradentes, feira de projeto, jovens, Jovens Urbanos, juventudes

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