Reportagens - Thais Iervolino - Jovens Urbanos

Programa inicia sua 10ª edição em São Paulo com inovações

Com plano participativo e estrutura inédita em módulos independentes, o Jovens Urbanos chega pela primeira vez ao distrito de Cidade Tiradentes (SP)

Escrito por João Marinho

Era fim dos anos 1970 quando o poder público começou se interessar por uma gleba de terra no extremo leste de São Paulo, constituída pela Fazenda Santa Etelvina. O local, dominado por eucaliptos e trechos de Mata Atlântica, parecia adequado para a instalação de um “bairro dormitório”, onde viveriam pessoas de outras regiões da cidade. Foi assim que nasceu, a 35 km do marco zero, o distrito de Cidade Tiradentes, em uma área de 15 km2 que faz divisa com os distritos de Iguatemi, José Bonifácio, Guaianases, em São Paulo, e com o município de Ferraz de Vasconcelos.

Hoje, a Cidade Tiradentes possui o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. São cerca de 40 mil unidades, a maioria construída ao longo dos anos 1980 pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e por grandes empreiteiras. O crescimento da região resultou em uma urbanização não planejada, cujos impactos são refletidos nos indicadores sociais: o distrito está no grupo 5 de vulnerabilidade social [veja box]

“O Jovens Urbanos tem entre seus compromissos políticos o enfrentamento das desigualdades, priorizando o desenvolvimento de sua intervenção em territórios vulneráveis. Em São Paulo, há muitas regiões com esse perfil e já desenvolvemos ações em dez delas – Brasilândia, Campo Limpo, Capão Redondo, Cidade Ademar, Grajaú, Guaianases, Heliópolis, Jardim Ângela, Jardim Helena, São Miguel Paulista. A escolha pela Cidade Tiradentes se dá pelos seus indicadores sociais e número de população jovem – 23.200 entre 15 e 19 anos, segundo o Censo 2010 –, mas também pelo interesse em retomar a atuação na zona leste da cidade”, explica Fernanda Andrade, do Jovens Urbanos, a respeito da escolha de Cidade Tiradentes que, em 2015, recebe a 10ª edição do Programa na capital paulista.

Grupos vulneráveis

Avalizado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) foi criado para analisar a questão da desigualdade dentro dos municípios e a situação das áreas de concentração de pobreza. Por meio de sete grupos, o índice resume, segundo a Seade, “as situações de maior ou menor vulnerabilidade às quais a população se encontra exposta, a partir de um gradiente das condições socioeconômicas e do perfil demográfico”. São eles: 1) baixíssima vulnerabilidade; 2) vulnerabilidade muito baixa; 3) vulnerabilidade baixa; 4) vulnerabilidade média – setores urbanos; 5) vulnerabilidade alta – setores urbanos; 6) vulnerabilidade muito alta – aglomerados subnormais; e 7) vulnerabilidade alta – setores rurais. Mais sobre isso aqui.

 

Inovações e destaques

Além da localidade – é a primeira vez que Cidade Tiradentes recebe o Programa Jovens Urbanos – e da concentração das ações em um só distrito, a 10ª edição em São Paulo conta ainda com outras inovações e destaques, como a parceria com o Horas da Vida, ressaltando uma preocupação com a saúde dos jovens. “O projeto […] contribuirá para que possamos nos aproximar mais da discussão de saúde para a juventude, que até essa edição ficava mais restrita à questão dos direitos sexuais e reprodutivos. Além de promover encontros de formação sobre saúde voltados para os educadores e os jovens participantes do programa na Cidade Tiradentes, o Horas da Vida também realizará uma ação de articulação com a rede privada de saúde de distritos vizinhos, com o objetivo de garantir o atendimento gratuito dos jovens em algumas especialidades médicas”, esclarece Fernanda.

Saiba mais sobre o Horas da Vida

Outra inovação que merece destaque é a oferta do percurso formativo dos jovens em cinco módulos independentes, cada um deles com objetivos específicos e um produto final.

Embora haja a ideia de estimular a realização de todos os módulos, a flexibilização abre a possibilidade para que mais jovens tenham contato com o Programa Jovens Urbanos, segundo uma disponibilidade de tempo mais restrita e seu interesse.

Os módulos são:

  • Portfólio Jovem: permanente e itinerante, tem como objetivo e produto final constituir um portfólio individual para os jovens dentro da tríade conceitual que marca o Jovens Urbanos: a participação na vida pública, a ampliação do repertório e a inserção produtiva;
  • Juventude: propõe a reflexão sobre a cultura juvenil, direitos da juventude e participação no mundo público. O produto final é o Plano Jovem;
  • Cidade: propõe uma reflexão sobre a comunidade e a cidade, tendo como produto final a Cartografia Local;
  • Experimentações: com as Produções Jovens como produto final, a ideia deste módulo é colocar o jovem em contato com diferentes linguagens e tecnologias;
  • Projeto: resultará nos Projetos Jovens, estimulando o desenvolvimento das habilidades de elaboração, escrita, apresentação e implementação de projetos, além de uma intervenção na própria comunidade.

“Desde a 6ª edição em São Paulo, em 2011, identificamos uma mudança na relação dos jovens com o programa: jovens que percorriam apenas um período do programa; jovens que só podiam estar presentes em um dia da semana; jovens que saíam do programa para ingressar em trabalhos temporários e depois voltavam, entre outros. Identificamos que esse movimento dialogava fortemente com as mudanças do contexto socioeconômico do país nos últimos anos, como a ampliação do mercado de trabalho, de programas sociais para juventude e, além disso, realidade e literatura sobre juventude apontam para mudanças nas dinâmicas juvenis, na sua relação com escola, emprego e família, exigindo também que propostas para esse público sejam mais flexíveis”, comenta Fernanda, destacando que ela será incorporada a todas as propostas técnicas de intervenções futuras do Jovens Urbanos.

Nesta edição, o Jovens Urbanos conta com a parceria institucional do Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes, que receberá todas as ações de formação com educadores e gestores, as experimentações e bancas de projetos, as reuniões do Plano Participativo, os Encontros Públicos e a Feira de Projetos. Além do Centro, o Programa conta com a parceria do Canal Futura, Centro Paula Souza, Plataforma dos Centros Urbanos, do Projeto Horas da Vida e da organização Pombas Urbanas.

 

Plano participativo

A edição em Cidade Tiradentes tem ainda outra característica que merece destaque. Na perspectiva da educação integral, que já é própria do Jovens Urbanos, um diálogo com preceitos do Plano Nacional de Educação (PNE), incluindo aí a intersetorialidade, governança compartilhada e modelos de avaliação participativos.

Sobre isso, comenta Fernanda Andrade: “Os princípios de intersetorialidade e governança compartilhada integram o desenho do Programa desde sua concepção, partindo do reconhecimento de que é importante promover modelos de gestão transparente dos processos, escutar os diferentes atores envolvidos na realização da ação e fortalecê-los por meio do compartilhamento da participação e deliberação coletiva das decisões”.

“Em Cidade Tiradentes”, continua ela, “o plano participativo é umas das instâncias de participação do Programa, que tem como objetivos articular os diversos atores do território, de modo a refletirem sobre suas contribuições para o desenvolvimento e a sustentabilidade das ações da juventude, especialmente aquelas realizadas pelo Programa. Pelos contatos estabelecidos até o momento com organizações sociais, gestores e técnicos de equipamentos públicos e membros da sociedade civil, foi possível identificar a potência da rede da Cidade Tiradentes e sua preocupação em fortalecer um trabalho intersetorial e interdisciplinar com a juventude, criando condições positivas para o desenvolvimento do programa no distrito”.

A perspectiva é que o Plano Participativo seja iniciado no fim de abril. Seu objetivo é reunir e articular os diversos atores sociais, convidando-os a pensar um diálogo possível com as ações propostas pelo Programa, como a promoção de trocas e sinergias com outras ações com juventude no território.

Para isso, uma rede de organizações foi convidada a conhecer o Jovens Urbanos. “Nesta edição, optamos por realizar uma apresentação pública do Programa no próprio território, permitindo que diversos representantes da sociedade civil e do poder público pudessem ter um primeiro contato com a proposta do Jovens Urbanos […]. Acreditamos que o novo procedimento permite que as candidatas estejam mais apropriadas da metodologia do Programa e como ele pode se desenvolver incorporando também as expertises que a organização já possui”, conta Fernanda.

Após essa primeira etapa de apresentação pública, o Jovens Urbanos está recebendo os planos de trabalho das organizações locais interessadas em participar da edição e que serão responsáveis pela execução das ações com os jovens. A lista de organizações selecionadas para participar desta edição e o início das inscrições serão divulgados aqui no Educação&Participação.

 

Cidade Tiradentes em números 

População estimada (Censo 2010): 501 mil

População jovem: 200 mil

40 mil unidades habitacionais construídas

77º lugar no Índice Paulista de Vulnerabilidade Social

Público-alvo do Jovens Urbanos: até 400 jovens

29 representantes de 16 organizações compareceram à apresentação do Jovens Urbanos em 11 de fevereiro.

 

 

TagsCidade Tiradentes, Jovens Urbanos

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Total de 1 comentário(s)

  •    CACILDA COSTHA PARANHOS  em 
         Educação&Participação respondeu em