Entrevistas - João Marinho - Prêmio Itaú-Unicef

Maria José Reginato: “A educação integral é uma condição importante para a sociedade ser mais igualitária, mais solidária e mais justa”

Com uma longa trajetória na rede pública de ensino de São Paulo, atuando como professora e coordenadora pedagógica, Maria José Reginato está no Cenpec desde sua fundação, em vários projetos, incluindo o Banco de Oficinas da plataforma Educação&Participação. Recentemente foi mediadora do debate virtual Relação ONG-escola: formando e fortalecendo educadores, realizado no último dia 27 de agosto, como parte da assessoria às organizações finalistas e escolas parceiras da 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef e nos concedeu a entrevista abaixo, em que fala de parceria e diálogo entre organizações da sociedade civil (OSCs) e escolas públicas, ganhos institucionais e avanços na garantia dos direitos de crianças, adolescentes e jovens e na formação de educadores a partir desse trabalho conjunto. Confira.

Educação&Participação: Durante o debate, falou-se tanto do momento em que a escola reconhece a seriedade do trabalho das OSCs e se abre para recebê-las como de experiências em que a gestão pública agiu para articular escolas e organizações no território, como em São Bernardo do Campo (SP). No entanto, é sabido que isso não acontece em todos os contextos. Nesse caso, como a OSC pode tomar a iniciativa de propor uma parceria? 

Maria José Reginato: Muitas vezes, a escola não está aberta e, às vezes, não enxerga que ali, ao seu lado, tem um parceiro com quem ela pode contar para desenvolver um trabalho mais abrangente, oferecendo outras oportunidades de aprendizagens para as crianças. Penso que tanto cabe à escola quanto à OSC a iniciativa de buscar essa parceria no território, independentemente de haver um chamado do poder público para tal.

A organização, portanto, também tem o poder da iniciativa, de procurar a gestão da escola e discutir um pouco em que medida poderia colaborar de uma forma integrada com o trabalho escolar, uma vez que ambas são sediadas no mesmo território e, muito provavelmente, atendem as mesmas crianças e os mesmos adolescentes.

A OSC pode propor à escola um contato para acompanhar o desenvolvimento dessas crianças e, gradativamente, algumas ações que possam ser desenvolvidas sem que a escola se sinta ameaçada.

A confiança mútua é construída: não é dada a priori. Então, o fato de sentar junto, de fazer uma proposta, de conhecer o trabalho que ali é desenvolvido para ver em que medida a OSC pode afinar determinadas ações com um propósito educativo pode levar a escola a abrir os seus olhos, a abrir os ouvidos e começar a pensar em algumas ações que gradativamente vão se consolidando no sentido de construírem juntas uma proposta em que as duas possam colaborar e se integrar com intencionalidades educativas comuns. Claro que é um processo que não é fácil e leva um determinado tempo.

E&P: Em tese, o projeto político-pedagógico (PPP) precisa ser discutido com a comunidade de alunos, de pais e do território em que se situa a escola. Participar dessa discussão pode ser interessante para a organização se apropriar do que a escola está fazendo, nesse momento de construção da parceria?

Maria José: Sem dúvida. Temos vários exemplos de avanço na integração escola-OSC quando a OSC é chamada a participar em momentos decisivos de elaboração do PPP da escola. É um momento importante de aproximação, de conhecimento mútuo, porque a escola expõe a sua intencionalidade pedagógica e a organização pode se reconhecer como protagonista, colaborando com as ações que ela já vem desenvolvendo e integrando, assim, as propostas de ações que a escola venha a oferecer. A OSC participar desse momento do PPP também é fundamental para que ela conheça a dinâmica existente na escola e defina os caminhos mais adequados para estabelecer essa parceria.

E&P: Que ganhos institucionais as OSCs e as escolas têm com a parceria? O fato de que hoje a educação integral está sendo mais discutida, até por força do Plano Nacional de Educação (PNE), facilita o estabelecimento de parcerias na medida em que se amplia o conhecimento sobre experiências bem-sucedidas?

Maria José: Todos têm a ganhar, principalmente as crianças e adolescentes. Cada uma delas, escola e OSC, tem uma função social específica: a da escola é trabalhar com o conhecimento sistematizado; a da OSC é trabalhar com as diferentes linguagens que foram construídas pela humanidade. Nesse caso, a oferta de conhecimentos e linguagens de naturezas diferentes vai se compor, para auxiliarem um desenvolvimento mais harmônico, mais integrado, das crianças e dos adolescentes.

Institucionalmente, a escola se oxigena com a problemática que as OSCs trazem para ela, e isso possibilita olhar mais para o protagonismo das crianças, dos adolescentes e jovens, que é uma prática comum nas organizações.


“É importante que as OSCs participem desse momento de acompanhamento dos Planos de Educação, porque todos eles, a partir do PNE, enfatizam a importância da educação integral. A importância da OSC seria de indicar que escola de tempo integral não é a mesma coisa que uma escola que trabalha educação integral”


As OSCs, por sua vez, também podem se beneficiar, na medida em que, conhecendo a dinâmica e a cultura interna da escola, podem ajudar as crianças e os adolescentes que ela atende a vivenciarem e aproveitarem melhor a aprendizagem que é desenvolvida no contexto escolar.

E&P: Essa exposição da criança, do adolescente e do jovem a outras linguagens tem a ver com o contexto atual em que vivemos, com a produção de diferentes conhecimentos por diferentes atores? 

Maria José: Correto. Nós temos visto um avanço, apesar das dificuldades e dos conflitos. A criança, tendo acesso a essas diferentes linguagens, poderá ser um cidadão melhor.

É importante pensar a educação integral não apenas como acesso a diferentes oportunidades para o desenvolvimento do sujeito individual, isolado, mas também pensar essa criança e esse adolescente num contexto de relações, no desenvolvimento de uma sociedade democrática.

A educação integral vem no bojo da educação e da proteção. OSC e Escola se casam muito bem, porque, no caso da educação integral, cuidam tanto do que prevê a legislação de Educação como a de Assistência Social para trabalhar o cidadão: um cidadão que tem o direito de ter seu desenvolvimento integral assegurado, que é promover todas as suas potencialidades como ser humano.

E&P: Como escola e OSC podem integrar o currículo?

Maria José: É possível a partir da integração entre os diferentes saberes e propostas que têm a OSC e a escola – e ambas podem, com base em seus conhecimentos, gerar um novo currículo para essas crianças e esses adolescentes, no sentido de trabalhar juntos determinados propósitos e ações. Já falamos aqui que existem alguns momentos para isso, como a elaboração do PPP – mas também o trabalho por projetos, que vinculam esses diferentes saberes em uma determinada perspectiva.


“É a prática que vai levar à construção da parceria. Sentar junto para planejar ações a curto, médio e longo prazo é fundamental. Então é a prática e a reflexão sobre essa prática que vai levar à consolidação da parceria e a uma ação pedagógica mais consistente e mais eficaz”


E&P: O debate tratou de formação. Como os educadores podem buscar formação para se apropriarem do conceito de educação integral e contribuírem para a parceria?

Maria José: Penso que existem alguns caminhos. Um deles é a própria legislação. É importante que todos os educadores tenham como conteúdo de formação o que hoje os Planos dizem a respeito de educação integral.

Acho importante conhecer também as propostas que as secretarias de Educação têm para as cidades, para as escolas, o que elas pensam que é educação e onde pretendem chegar. É importante conhecer as propostas existentes com base na legislação e nos governos das esferas municipal, estadual e federal, por meio de suas diretrizes.

Outro ponto é conhecer as experiências já existentes: aprendemos muito indo atrás, presencialmente, por meios virtuais ou pela leitura de publicações, de experiências que já foram realizadas, para podermos antecipar um pouco e pensar em propostas que já fizeram um determinado caminho e já trouxeram tanto benefícios como novos desafios para a educação integral.

Finalmente, existe uma literatura a respeito, acadêmica, para aprimorar o conceito de educação integral: temos de procurar também os textos teóricos.

Aqui mesmo, no Cenpec, temos uma vasta produção de publicações, tanto impressas como virtuais. Na plataforma Educação&Participação, temos, no contexto do próprio Prêmio Itaú-Unicef, as várias contribuições das OSCs que formam essa rede. Há também o Guia Políticas de Educação Integral, que traz diferentes práticas que municípios fizeram para implementar, em vários modelos, a educação integral, uma vez que não existe uma só forma de fazer.

Tagsorganização, OSC, parceria

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