Entrevistas - João Marinho - Educação&Participação

“Nosso lema é inclusão e transformação social”

Quer promover a cidadania e a educação integral, não sabe como começar? Quer se inspirar em uma boa história de inclusão de famílias nas ações socioeducativas? Conheça a experiência do Lar Escola Jêsue Frantz nesta entrevista exclusiva com Ilda Dias e Aparecida Baptista

 

Fundado em 1982 no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo (SP), por Reginaldo Antônio Dias, administrador, e Ilda Batista Dias, psicóloga pós-graduada em saúde mental e com especialização em ludicidade e psicomotricidade, o Lar Escola Jêsue Frantz começou seus trabalhos com uma creche que, em 1988, atendia 40 crianças – e já se preocupava com a redução de vulnerabilidades sociais, o engajamento da família e com uma formação integral.

Hoje, essa organização da sociedade civil (OSC) tem nove unidades distribuídas em Diadema (SP) e São Bernardo do Campo, município que faz parte das assessorias de Políticas de Educação Integral, iniciativa da Fundação Itaú Social sob coordenação técnica do Cenpec.

O Lar Escola é parceiro do Tempo de Escola, programa implantado em 2010 pela Prefeitura e pela Secretaria de Educação de São Bernardo que, ao todo, atende hoje mais de 10 mil alunos. Fazendo parcerias com o poder público nos dois municípios, a organização atua em conjunto com escolas públicas e ajuda a promover a educação integral e a cidadania. “A questão do Lar Escola é um propósito de vida. Ele surgiu quando eu, ainda menina, questionava a desigualdade social: a injustiça social sempre me incomodou. Eu tinha como meta, ao estar formada, trabalhar e auxiliar a sociedade a fazer a inclusão: nosso lema é ‘inclusão e transformação social’. Surge daí a questão não do assistencialismo, mas de como podemos trabalhar a cidadania: a inclusão da pessoa que vive em situação de miséria, em situação de pobreza, excluída socialmente; como nós podemos incluir, qual é o meio de incluir? Pensamos em começar pela criança, pois acredito que a criança é a base da sociedade, ela é o presente e o futuro. Começamos com a creche e, com ela, trabalhamos também a família”, conta a diretora-geral Ilda Dias (foto em destaque).

Nesta entrevista ao Educação&Participação, Ilda e a supervisora cultural do Lar Escola, Aparecida Baptista, contam um pouco dessa rica história e de como as parcerias com as escolas e o poder público ajudaram a realizar o sonho de incluir pessoas e reduzir vulnerabilidades – e assim compartilham experiências que podem ser úteis para outras organizações que promovem ações socioeducativas na perspectiva da educação integral.

 

Trabalhando com a família

“A forma como essa família está estruturada vai fazer parte do seu crescimento e da sua identidade no futuro”, diz Ilda, ao explicar uma das preocupações mais prementes do Lar Escola Jêsue Frantz: envolver a família na formação da criança.

Educação&Participação: Como a família tomava parte no atendimento que o Lar Escola dava às crianças na creche?
Ilda Batista Dias: Nós trabalhávamos a criança na questão da ludicidade e da educação, mas também fazíamos reuniões familiares e ouvíamos as famílias sobre seu histórico de vida. Percebemos que a desestruturação familiar ocasiona questões sociais que precisam ser atendidas pelo poder público – e, por sinal, acreditamos que é preciso avançar o olhar nessa questão. Trabalhamos, então, com a família: não apenas com as relações familiares, mas também estimulando a profissionalização de seus membros.

E&P: Como era esse trabalho ligado à profissionalização?
I.B.D.: No contato com as famílias, nós sabíamos que havia as que trabalhavam o dia todo, e a criança ficava sozinha em casa, bastante vulnerável. Estimulamos, então, muitas famílias a voltar a estudar, promovendo a inclusão dessa família para auxiliar a criança. Muitos pais, por exemplo, não sabiam ler, escrever… Não tinham formação para que pudessem ajudar na lição de casa que as crianças levavam.

E&P: E por que a preocupação de envolver a família de maneira tão próxima?
I.B.D.: A criança tem que estar no contexto familiar, porque a família é a base dessa criança. Ela pode ficar conosco por 8, 12 horas por dia, mas retorna para a família – e a forma como essa família está estruturada vai fazer parte do seu crescimento e da sua identidade no futuro.

 

Reduzindo vulnerabilidades

Segundo a supervisora cultural Aparecida Baptista, o bairro da Pauliceia, onde foi fundado o Lar Escola, desenvolveu-se em torno da indústria automobilística, em especial as fábricas da Ford e da Mercedes-Benz, estendendo-se ao longo das margens fluviais que dividem os municípios de São Bernardo do Campo e Diadema, por sua vez ocupadas por uma população em situação de pobreza.

Hoje, o bairro é considerado de classe média, mas possui o que Ilda Dias chama de “vulnerabilidade velada”: cercada de núcleos habitacionais, a Pauliceia tem também cortiços e uma forte presença do tráfico de entorpecentes, o que torna vulneráveis crianças e adolescentes. Isso justificou a primeira ampliação no atendimento da OSC, que inicialmente era para crianças de até 6 anos e, no ano 2000, passou para até 14 anos de idade. Ouça o áudio de Ilda a respeito.

 

Parcerias: promovendo a educação integral

Fazer parcerias. Essa foi a maneira que o Lar Escola encontrou para ampliar ainda mais suas atividades depois do início do trabalho com a creche – e a primeira alternativa foi buscar o poder público. Quem conta como isso aconteceu é a diretora Ilda Dias. Confira no áudio como as parcerias impactaram de forma positiva as ações socioeducativas.

 

Aparecida Baptista
Aparecida Baptista

E&P: Dá para dizer que o Lar Escola, lá no começo, já oferecia educação integral?
Aparecida Baptista: Em 1988, quando começou o atendimento da creche, a criança ficava conosco das 7h às 17h: tomava café da manhã, almoçava, jantava e tomava banho – e, sim, já ofertávamos atividades educativas para as crianças. Elas recebiam toda a estrutura: era um todo.

E&P: Que vantagens as parcerias trouxeram?
A.B.: Em 2006, com as primeiras parcerias, houve maior crescimento nas atividades: creche, contraturno, serviço de fortalecimento de vínculos – e os profissionais, que no início eram voluntários, puderam ser remunerados.

E&P: E como, hoje, o Lar Escola contribui para a educação integral?
A.B.: Existe uma diferença entre você dizer “educação integral” e “educação em tempo integral”. A ideia do Lar Escola não é só fazer uma educação em tempo integral, mas uma educação integral: o tempo bem aproveitado, a criança recebendo formação integral, recebendo uma proposta diversificada. Na escola, a criança tem a grade regular e, quando a ela se soma aquilo que a criança vai aprender fora, aí se dá a educação integral – não só com oficinas, mas com uma formação pela cidadania.

 

Educação integral e profissionalização

O serviço de fortalecimento de vínculos do Lar Escola Jêsue Frantz tem uma proposta de educação integral, com a oferta de oficinas para as crianças e adolescentes. Esse trabalho cresceu com as parcerias, que, de quebra, ainda permitiram a profissionalização dos educadores. Ouça o que Aparecida Baptista conta a respeito.

 

E&P: As organizações da sociedade civil são importantes para as políticas de educação integral?
A.B.: Sim! É a organização que está na comunidade, é ela que conhece a comunidade. A prefeitura, a secretaria ou a escola até possuem um perfil, mas é a OSC – a sociedade civil organizada – que está ali, que adentra as comunidades, adentra as casas e, de repente, realiza coisas que as escolas não conseguem fazer. Por isso, a colaboração da sociedade civil tem muita força.

E&P: Em São Bernardo, o Programa Tempo de Escola promove a circulação das crianças pela cidade – e o Lar Escola realiza oficinas nesses espaços. Por que isso é importante?
A.B.: Quando chegamos para fazer uma atividade em uma praça, por exemplo, inibimos o uso daquele espaço pelo tráfico, inibimos a ociosidade. Isso é fato: aconteceu em São Bernardo do Campo. Acontece, então, uma ocupação do espaço e do território – e todo o território está educando e sendo educado: as crianças saem daquele espaço tradicional de educação para serem educadas no território.

 

Ampliando repertórios

Música, capoeira, circo, taekwondo, balé, grafite. As oficinas disponibilizadas pelo Lar Escola ampliam o repertório de crianças e adolescentes – mas como acontece o atendimento às famílias interessadas? Aparecida Baptista explica no áudio abaixo.

 

Lar Escola em imagens

Veja fotos de oficinas realizadas pela organização.

 

Saiba mais

O Lar Escola Jêsue Frantz, que já participou de edições do Prêmio Itaú-Unicef, está engajado na implantação do Núcleo de Ações Socioculturais Educativas (Nasce-IBD), que tem por objetivo ampliar o atendimento para mais de 1,2 mil crianças, adolescentes, jovens, familiares e comunidade. A OSC tem página aqui, na plataforma Educação&Participação, e, em seu site, é possível conhecer os trabalhos realizados pelas nove unidades.

> Escute o áudio de Aparecida Baptista sobre quem é atendido hoje pela organização;
> Saiba mais sobre o Programa Tempo de Escola, de São Bernardo do Campo, assistindo ao vídeo abaixo.

 Fotos: imagens cedidas por Lar Escola Jêsue Frantz.
Tagseducação integral, escola, família, ONG, OSC, parceria, políticas de educação integral, políticas públicas, Prêmio Itaú-Unicef, tempo de escola, território

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  •    Elizabeth Corrêa Lemos  em