Entrevistas - João Marinho - Educação&Participação

“Sou um entusiasta da educação integral: o jovem precisa conhecer mais que Matemática e Física”

Alan Cunha, da Coordenação de Políticas para Juventude de São Paulo (SP), fala sobre o Dia Internacional da Juventude, a vulnerabilidade de jovens negros e a educação integral

A educação integral, para Alan da Conceição Cunha, coordenador-adjunto da Coordenação de Políticas para Juventude do município de São Paulo, é de suma importância para a formação do jovem, na medida em que propõe a ampliação de repertórios e a apropriação do espaço (ou território) onde esse jovem vive e circula, em uma perspectiva de cidadania: “Com a educação integral, é possível, por exemplo, aproveitar o contraturno para atividades extracurriculares que agregam muito valor à formação”.

Na véspera do Dia Internacional da Juventude, cujo tema neste ano é “A estrada para 2030: erradicar a pobreza e alcançar a produção e o consumo sustentáveis”, Cunha tece para a plataforma Educação&Participação comentários sobre os desafios para o jovem da periferia – em especial o negro – e como essa contribuição da educação integral pode ser estratégica para superar vulnerabilidades em uma cidade como São Paulo.

O que é o Dia Internacional da Juventude

O Dia Internacional da Juventude foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1999, atendendo à recomendação da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, reunida em Lisboa, Portugal, de 8 a 12 de agosto de 1998. O primeiro Dia Internacional foi celebrado em 12 de agosto de 2000 e, desde então, tem sido utilizado para chamar a atenção a uma série de temas culturais, legais e sociais envolvendo as juventudes. Saiba mais.


“A ideia da educação integral não pode se limitar a ‘tirar crianças, jovens e adolescentes da rua’”


Educação&Participação: Que ações estão previstas para ocorrer em São Paulo em comemoração ao Dia Internacional da Juventude?

Alan Cunha: Os atores da sociedade civil estão se organizando para, no mês de agosto, desenvolver atividades relacionadas ao Dia Internacional, e com a Coordenação de Políticas para Juventude não é diferente.

Já realizamos uma caravana do Juventude Viva – um plano nacional de enfrentamento do extermínio da juventude negra – no distrito do Grajaú, onde oferecemos uma série de serviços para a juventude local em parceria com o Balcão de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos. Já temos outra programada para a região de Sapopemba.

Vamos ter ainda sessões especiais do programa Cine Direitos Humanos, em parceria com a Coordenação de Educação em Direitos Humanos, com a temática de juventude. Elas serão exibidas no Espaço Itaú de Cinema do Shopping Frei Caneca e no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes.

Estamos em vias de finalizar também uma proposta para o mês, que prevê workshops e apresentações de DJs em diferentes territórios da cidade, além de lançar editais para o atendimento psicossocial de jovens e mulheres vítimas de violência e para as Casas da Juventude, um equipamento-referência para a juventude nos territórios.


“É preciso agregar questões como o direito à cidade, questões étnico-raciais e culturas populares à formação do jovem”


E&P: Considerando o tema do Dia Internacional neste ano, que fala de pobreza e de produção e consumos sustentáveis, quais são os maiores desafios enfrentados pelo jovem em uma cidade como São Paulo?

A.C.: Nós acreditamos em uma cidade que ofereça mais oportunidades para todas e todos, mas partimos da premissa de que jovens negros e negras da periferia sofrem com os mais diversos tipos de violências nas bordas da cidade e estão na base da pirâmide da sociedade. Inclusive, a partir desse diagnóstico, a Coordenação aderiu ao Juventude Viva em outubro de 2013. 

E&P: Essa adesão resultou em algumas ações…

A.C.: Com certeza. Foram contratados articuladores e articuladoras e bolsistas por meio do programa Bolsa Trabalho nos territórios atendidos pelo plano e editais contemplados por convênios com organizações – e lançamos o Portal da Juventude, Mapa da Juventude e um guia de políticas públicas para a juventude.

Na área da educação, a Coordenação participou da formulação das diretrizes municipais do programa Projovem Urbano, criado em âmbito nacional, que tem o objetivo de elevar a escolaridade de jovens entre 18 e 29 anos, visando à conclusão do Ensino Fundamental, qualificação profissional inicial e participação cidadã.


“Acreditamos em uma cidade que ofereça mais oportunidades para todas e todos, mas partimos da premissa de que jovens negros e negras da periferia sofrem com os mais diversos tipos de violências”


E&P: É correto considerar que a educação integral contribui para a superação desses desafios enfrentados pelo jovem pobre – e negro?

A.C.: Eu, pessoalmente, sou um entusiasta da proposta da educação integral. Os jovens precisam concluir a formação básica conhecendo muito mais que Matemática e Física: é preciso agregar aí questões como o direito à cidade, questões étnico-raciais, culturas populares e tantas outras, até porque, se não for bem estruturada, a ideia da educação integral pode acabar se limitando a “tirar crianças, jovens e adolescentes da rua”, e não é o que se espera.

E&P: E há alguma proposta com enfoque na educação integral?

A.C.: Fui educador na zona sul nas 7ª, 8ª e 9ª edições do Programa Jovens Urbanos em São Paulo. A dinâmica proposta pelo Programa, de explorações pela cidade, experimentações e planejamento e execução de Projetos Jovens é um diferencial que muda trajetórias de vidas dos jovens que por ela passam. Tenho até hoje contato com alguns que descobriram suas profissões no Jovens Urbanos… Nós temos mantido relação com o Programa e acompanhado as ações na Cidade Tiradentes, inclusive com boas referências vindas de lá.

Além disso, temos parcerias com organizações que trabalham a temática da juventude, tendo contemplado no edital executado em 2015 uma proposta de educação integral em uma escola estadual na zona sul.

 

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Tagseducação integral, jovens, juventude, políticas públicas

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