Petrópolis debate fundamentos da educação integral

Conceitos como participação social, autonomia, circulação no território e cidade educadora foram abordados no II Congresso de Educação Integral do município

 

Realizado de 15 a 18 de setembro, o II Congresso de Educação Integral de Petrópolis (RJ) buscou oferecer aos participantes uma experiência alinhada a alguns dos principais conceitos da educação integral, como participação social, cidade educadora, circulação no território, cultura, discussão de propostas curriculares, autonomia pedagógica e protagonismo juvenil.

Os eventos, palestras, mesas-redondas e atividades culturais foram realizados em diferentes espaços no território compreendido pelo centro histórico do município, alguns deles no mesmo horário.

Com isso, os participantes puderam escolher as atividades que gostariam de acompanhar e circular no espaço, apropriando-se do rico conteúdo oferecido pela cidade. “Nós resolvemos, nesse congresso, aproveitar o potencial da nossa cidade no que tange ao seu capital cultural e histórico […]. Foi um momento de divulgar esses espaços e promover a apropriação deles”, explica a subsecretária de Educação, Rosilene Ribeiro.

> Confira aqui a entrevista completa com Rosilene Ribeiro.

Ao longo dos quatro dias, o Educação&Participação esteve presente em quatro palestras, uma mesa-redonda, duas atividades culturais e dois encontros do Fórum Juvenil, que realizou atividades concomitantes ao congresso. A seguir, o leitor poderá verificar os principais debates conceituais sobre educação integral que aconteceram no evento.

Protagonismo juvenil

Implantado em 2014, durante o I Congresso de Educação Integral de Petrópolis, o Fórum Juvenil tem o objetivo de propiciar um espaço para os jovens discutirem desafios e propostas para melhoria da escola e políticas de educação. No II Congresso, os encontros incluíram uma roda de conversa sobre participação social [veja abaixo], palestras sobre propostas de Ensino Médio Integrado e atividades culturais e lúdicas, como um game que ocorreu na tarde do dia 16. A assessoria do Núcleo de Educação Integral do Cenpec em Petrópolis vem estimulando a participação e o protagonismo juvenil por meio da realização de grupos de escuta, que também ocorrem com outros segmentos. Em Itabira (MG), outro município assessorado pelo Núcleo, a estratégia também foi adotada.

 

Educação integral versus educação em tempo integral

As diferenças entre esses dois conceitos foi um dos pontos abordados ao longo das palestras e mesas acompanhadas pela plataforma Educação&Participação.

Em Petrópolis, existe um consenso, entre os participantes com quem conversamos, de que a jornada precisa ser ampliada. “[É preciso] melhorar realmente a qualidade e o tempo de aprendizagem oferecido à criança brasileira […]. Nossa carga horária é das menores da América Latina. Como é possível fazer uma educação de qualidade quando há municípios com quatro turnos em um único dia?”, diz o técnico educacional David Arcenio.

No entanto, nem todos tinham claro que a educação integral não significa apenas o aumento da jornada, mas também a ampliação dos espaços e oportunidades de aprendizagem, com a contribuição de diferentes atores.

Duas palestras realizadas no dia 17 foram esclarecedoras: a de Alexandre Isaac e Letícia Araújo, do Núcleo de Educação Integral do Cenpec, no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), sobre a construção do Plano de Educação Integral; e a de Jaqueline Moll, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-diretora de Currículos e Educação Integral da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), no Theatro Dom Pedro.


“O debate da educação integral é o debate do compromisso que nós temos com a educação das próximas gerações” (Jaqueline Moll)


“O desenvolvimento humano é possibilitado por diferentes dimensões”, disse Jaqueline Moll. Em sua palestra, a especialista tratou dos principais temas da educação integral e sua relação com o conceito de cidade educadora.

Moll abordou a necessidade de ofertar uma escola igual para todos, buscando uma formação para a cidadania e a democracia e promovendo a autonomia de crianças, adolescentes e jovens; a intersetorialidade como condição para a gestão pública visando à criação de políticas de educação integral; e a importância da ampliação da cognição e da aprendizagem possibilitada pela introdução de novas linguagens – xadrez, teatro, música etc. – e pela apropriação dos diferentes espaços na cidade por crianças, adolescentes e jovens: “O espaço apenas se torna território se eu me aproprio dele”.

Alexandre Isaac, por sua vez, fez uma abordagem histórica da evolução do conceito de educação integral proposto pela Fundação Itaú Social e pelo Cenpec desde as primeiras edições do Prêmio Itaú-Unicef, quando as ações socioeducativas eram ainda consideradas “ações complementares à escola”. Hoje, além da ampliação de tempo, espaços, experiências e aprendizagens com foco na educação integral, deve-se também rediscutir o currículo: “É preciso discutir que currículo se oferece, que currículo sedutor: não se fala em educação integral para ficar sete, oito horas dentro do mesmo espaço”.

A preocupação com o currículo também se fez presente para Jaqueline Moll, na perspectiva de ampliação dos espaços: “É preciso evitar a hiperescolarização e aproximar o currículo da realidade das crianças”.

> Com o tema “Educação integral: aprendizagem que transforma”, o Prêmio Itaú-Unicef se encontra na 11ª edição e completa 20 anos em 2015, reconhecendo projetos socioeducativos que, articulados com escolas públicas, organizações da sociedade civil (OSCs) e outros atores no território, são voltados ao desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens. Leia mais sobre educação integral.

 

Propostas curriculares

Em Petrópolis, a temática do currículo foi abordada também na palestra do especialista José Pacheco, realizada na abertura do dia 15, e nas do Fórum Juvenil que apresentaram o conteúdo programático do Colégio D. Pedro II, de Ensino Médio, da rede estadual.

Na palestra “Autonomia pedagógica”, o professor José Pacheco abordou a experiência de dois projetos: a reconhecida Escola da Ponte, em Portugal, da qual é criador; e o Projeto Âncora, de Cotia (SP), do qual é consultor.

A palestra, que contou com perguntas feitas pelo público, orientou-se no sentido da importância de promover uma educação integral que estimule a autonomia de crianças, adolescentes e jovens e, ao mesmo tempo, leve em conta as especificidades e habilidades de cada um, permitindo seu amplo desenvolvimento.


“Educação integral é a que contempla a multidisciplinaridade do ser humano” (José Pacheco)


Nesse sentido, as experiências da metodologia de trabalho em projeto nos dois casos foram apresentadas observando os bons resultados para aprendizagem, senso de autonomia e democracia e para a transmissão de conteúdos curriculares.

A metodologia de trabalho em projeto parte do pressuposto da criança, do adolescente e do jovem como sujeitos e, na abordagem defendida por Pacheco, estrutura-se em um tripé que envolve: o projeto-vida, que eles definem realizar enquanto sujeitos; o projeto-comunidade, que é a introdução de um projeto e de seus resultados na comunidade, a fim de que esta se beneficie dele; e o portfólio, constituído pela criança, pelo adolescente e pelo jovem a partir de suas realizações.

> Trabalho em projeto e portfólio, aliados a autonomia, protagonismo e plano participativo, ecoam práticas e metodologia do Programa Jovens Urbanos. Saiba mais.

Enquanto desenvolvem um projeto em particular – por exemplo, a construção de um viveiro de pássaros, a programação de um game no computador, a construção de carrinhos-robô –, eles têm acesso aos conteúdos curriculares necessários para sua realização: Matemática para as medidas do viveiro, para a lógica da programação e das ações do robô; Biologia para o cuidado das plantas e dos animais, para o comportamento dos personagens animados dos games e para a utilização de compostos sustentáveis no robô; Física para a construção de estruturas e estudo dos movimentos… E assim por diante.

Essa é a perspectiva adotada pelo Colégio Estadual D. Pedro II, conforme a palestra “Conhecendo as propostas do Ensino Médio Integrado”, realizada com coordenação dos professores Rodrigo José Gomes Boa Ventura da Silva, Márcia Bandeira e Thiago Dias como parte das atividades do Fórum Juvenil. O colégio oferece a modalidade de Ensino Médio Integrado, com formação técnica em Audiovisual e Química.

Ensino Médio Integrado e educação integral

O Ensino Médio Integrado é uma modalidade instituída em todo o Brasil a partir de 2004 e que tem como objetivo a formação do jovem sob o princípio da integração entre ensino e trabalho, em vez da divisão tradicional entre disciplinas obrigatórias e disciplinas técnicas em turnos distintos. A adoção da metodologia do trabalho em projeto e dos fundamentos do conceito de educação integral não necessariamente participam da modalidade, mas abre-se uma importante via de diálogo para a educação integral voltada à juventude.

> Leia o artigo de Marise Ramos sobre concepção de Ensino Médio Integrado;
> Leia o artigo de Dante Henrique Moura sobre Ensino Médio Integrado e formação integral;
> Leia nosso especial sobre os desafios da educação integral para o Ensino Médio.

O conteúdo curricular, que inclui jornadas ampliadas, é trabalhado por meio de um projeto escolhido pelos estudantes. Na modalidade Audiovisual, os alunos vivenciam uma produção audiovisual, que pode ser ficcional ou um documentário, entre outras opções. Os conteúdos curriculares são, então, abordados de forma vinculada às habilidades necessárias para a produção do vídeo, incluindo os de Língua Portuguesa – na escrita da proposta e do roteiro do projeto, por exemplo –, sob a perspectiva de autonomia do jovem.

 

Participação social e gestão democrática

A participação social e a gestão democrática foram outros conceitos-chave abordados no congresso. As discussões se fizeram presentes na palestra de David Arcenio, em atividades do Fórum Juvenil e na palestra realizada por Alexandre Isaac e Letícia Araújo.


“Educação integral é um pleonasmo, porque toda educação tem que ser integral. No momento em que não é integral, não é educação” (David Arcenio)


Na palestra formativa “Conselhos escolares”, Arcenio destacou a importância dos conselhos escolares e comunitários para a educação integral como instâncias que permitem a participação da sociedade civil na estruturação de políticas de educação e por meio das quais os cidadãos podem gerir democraticamente, em conjunto com o poder público, os diferentes aspectos da educação no município.

Conselhos comunitários do Mais Educação

Petrópolis se destaca por uma iniciativa pioneira: a criação de conselhos comunitários para avaliação e gestão democrática do Programa Mais Educação. A cidade foi dividida em oito regiões, que são representadas nos conselhos, que, por sua vez, têm representantes divididos entre membros da sociedade civil (diretores de escola, orientadores pedagógicos, coordenadores do Mais Educação, pais de alunos, professores, alunos e instituições religiosas) e do governo. “Os conselhos foram criados para que uníssemos as diferentes secretarias na ideia de uma cidade educadora, a fim de que todos possam trazer suas contribuições para dentro da escola, e de que a escola também abra seus horizontes”, diz Denise Schmidt do Amaral, membro da Equipe de Gestão de Educação Integral da Secretaria de Educação do município.

Para Arcenio, “o diálogo sobre educação precisa ser ampliado para sociedade” e a gestão democrática se realiza a partir da participação social tomada como presença, expressão verbal, instância de decisão e engajamento de cidadãos e das famílias, no que se ressalta o papel do conselheiro como agente da sociedade: “Quando o conselho comunitário está engajado, ele orienta as famílias”. O especialista considera que família e escola formam uma equipe: possuem ações específicas, mas têm objetivos comuns e devem traçar metas simultâneas.

A assessoria do Cenpec em Petrópolis estimula a participação social dos diferentes atores que compõem a rede municipal de ensino, da sociedade civil e também dos jovens [veja boxe “Protagonismo juvenil”]. Durante o congresso, os jovens também puderam se fazer ouvir em uma roda de conversa iniciada por Tais Bernardino Pereira, coordenadora de Políticas Especiais para Juventude no município, como parte das atividades do Fórum Juvenil.

 

Juventude e educação integral

Durante esse evento, os jovens conversaram sobre formação e capacitação de professores, passando por merenda e problemas de estrutura física de algumas escolas até relacionamento entre professores, diretores e inspetores com os alunos.


“A falta de interação que a direção tem com os alunos é muito grande. Isso que estamos fazendo aqui, a diretoria podia fazer com os alunos, dentro da escola” (Wecsisley, 20 anos)


Combate ao preconceito sobre identidade de gênero e orientação sexual, necessidade de trabalhar a falta de confiança nos alunos do período noturno e a falta de interação com a direção da escola, necessidade de espaços para a prática de atividades físicas e culturais, problemas de infraestrutura e repasse de verbas foram os principais temas discutidos e demandados pelos jovens.

A atividade terminou com as propostas de realização de uma peça de teatro retratando os desafios enfrentados pela juventude nas escolas de Petrópolis e de formação de uma caravana para visitar diferentes espaços e comunidades do município, visando estimular a participação social dos jovens, em especial nos Conselhos Municipais, e a abertura de gestores, diretores e educadores ao diálogo com a juventude.

Saiba mais
> Confira a programação do II Congresso de Educação Integral de Petrópolis;
> Conheça os palestrantes do evento;
> Acesse a página do congresso no Facebook;
> O Educação&Participação realizou uma cobertura dia a dia de eventos que originaram esta reportagem. Confira aqui.

 

O congresso em imagens

Clique na foto para acessar a galeria do Flickr.

Abertura do congresso no Theatro D. Pedro, Centro histórico de Petrópolis (RJ), que recebeu um público de cerca de 400 pessoas. Fotos: Pedro Abreu e João Marinho.
Abertura do congresso no Theatro D. Pedro, centro histórico de Petrópolis (RJ), que recebeu um público de cerca de 400 pessoas. Fotos: Pedro Abreu e João Marinho.
Tagscidade educadora, circulação no território, currículo, educação integral, gestão democrática, juventude, mais educação, participação social, políticas de educação integral

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