Notícias - João Marinho e Vanessa Nicolav - Políticas de Educação Integral

Polos regionais contribuem para disseminar a educação integral

Articulações entre municípios de uma mesma região por meio da gestão pública têm se mostrado estratégicas para a educação integral em diferentes estados.  

Reunião de técnicos e secretários em Itabira (MG). Ações de articulação e formação em educação integral ocorreram ao longo de 2016. Foto: Reprodução.
Reunião de técnicos e secretários em Itabira (MG). Ações de articulação e formação em educação integral ocorreram ao longo de 2016. Foto: Reprodução.

“O papel da escola não deve ser o de apenas ensinar a ler, escrever e fazer contas. É preciso ter uma visão mais ampla da educação e aí entra a questão da educação integral, no sentido de ver o aluno como uma pessoa inserida em todo um contexto social, com muitos lugares e oportunidades para aprender”. A afirmação de Elaine dos Santos Pereira, coordenadora pedagógica da Emeief Santa Anastácia, de Abaetetuba (PA), na temática Educação integral: um conceito em busca de novos sentidos, reafirma dois princípios básicos dessa abordagem: o território e as parcerias.

Para a educação integral, o território é entendido de acordo com a definição proposta pelo geógrafo Milton Santos na obra Território, territórios: “o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida”. Nesse sentido, é preciso levar em consideração não apenas o espaço onde crianças, adolescentes e jovens vivem e circulam em termos puramente físicos, mas também as relações pessoais, o senso de pertencimento e identidade e a realidade socioeconômica e cultural.

De fato, também é importante incentivar a apropriação por parte dos alunos, o que pode ocorrer por meio de estratégias como a circulação pelo território e a ampliação dos espaços educativos com a realização de parcerias que promovam “a articulação da escola com os diferentes espaços educativos, culturais e esportivos, e equipamentos públicos como centros comunitários, bibliotecas, praças, parques, museus, teatros, cinemas e planetários”, como propõe a estratégia 6.4 do Plano Nacional de Educação (PNE). Dessa forma, concretiza-se o que a socióloga Helena Singer define como território educativo, que se configura quando há “o reconhecimento e o exercício do potencial educador de seus diversos agentes, ampliando e diversificando as oportunidades educativas para todos”.

 

Educação integral: territórios e parcerias amplas

Danielle Barbosa mobilizou-se para a formação de um polo de educação integral no litoral cearense.
Danielle Barbosa mobilizou-se para a formação de um polo de educação integral no litoral cearense. Foto: Reprodução.

Os conceitos de território e parceria, portanto, são amplos e não necessariamente devem permanecer restritos ao espaço geográfico imediato de crianças, adolescentes e jovens – e aí se inserem questões levantadas por grupos de municípios que têm se mobilizado, em conjunto, em favor da educação integral: e se pensarmos que um território educativo pode ser ampliado e articulado por mais de um município com características comuns? E se as parcerias pudessem ser estabelecidas entre as gestões e secretarias desses mesmos municípios?

“Os municípios podem se articular mobilizados por diferentes interesses. No Rio de Janeiro, por exemplo, há a Comissão Intermunicipal de Resende, Itatiaia, Quatis e Porto Real, que tem um foco econômico e industrial. Na educação integral, uma das possibilidades tem sido os Comitês Territoriais instituídos pelo Programa Mais Educação, atual Novo Mais Educação, que são uma espécie de comitê gestor do programa formado por mais de um município com coordenação e estrutura próprias. Há, por exemplo, o Comitê Territorial de Educação Integral de Pernambuco, o do Rio Grande do Norte e o de São Paulo, que é composto por comitês regionais, como o da Região Metropolitana de Campinas (RMC)”, explica Julio Neres, do Núcleo de Educação Integral do Cenpec.

Existem, no entanto, outras possibilidades. Uma delas é a articulação por meio de polos regionais. Minas Gerais, por exemplo, com a Secretaria de Educação, tem instituído polos de educação integral no estado, constituídos por parcerias entre as escolas públicas e outros equipamentos com potenciais educativos que começaram a ser estabelecidas em 2015. Atualmente, há oito polos em funcionamento; sete estão em fase de implantação.

Embora inicialmente pensado em termos de parcerias entre as escolas e os equipamentos do entorno visando considerar os espaços de cada cidade como potenciais espaços educativos, o modelo mineiro também propicia a circulação para além das divisas entre os municípios.

Em Ibirité, por exemplo, os alunos saem não apenas para explorar os diferentes espaços de sua própria cidade, mas também os de municípios vizinhos. “Eles têm uma cartografia com locais que podem visitar e aprender. Além disso, promovemos, constantemente, passeios a Inhotim, parques de Belo Horizonte, o Circuito Cultural Praça da Liberdade, entre outros. Prezamos pela característica educativa das cidades”, comentou Wanderson Cleres, diretor de Educação Básica da Fundação Helena Antipoff, em reportagem veiculada no site da Secretaria de Educação, em maio de 2017.

 

Formação e disseminação em polos regionais

Visualização do primeiro módulo do curso de formação presencial e à distância para o polo de Aracati (CE). Imagem: Reprodução.
Visualização do primeiro módulo do curso de formação presencial e a distância para o polo de Aracati (CE). Clique para ampliar. Imagem: Reprodução.

No âmbito das Políticas de Educação Integral, iniciativa da Fundação Itaú Social com coordenação técnica do Cenpec, a proposta de polos regionais intermunicipais para disseminar a educação integral foi testada, em 2016, em Itabira (MG) e Aracati (CE).

Em Itabira, secretários e técnicos de educação de 11 municípios do Território de Cooperação Educacional do Médio Piracicaba (TCEMP) participaram de encontros de formação para aprofundar a concepção de educação integral e pensar em ações para cada município, no âmbito das práticas de prospecção do Guia Políticas de Educação Integral.

O TCEMP havia iniciado as atividades em dezembro de 2013, trabalhando de forma articulada com o governo de Minas Gerais e a União para trocar experiências e solucionar dificuldades na área da educação em municípios que são geograficamente próximos e compartilham características sociais e econômicas.

Atualmente, está ativo o polo de Aracati, no Ceará, que tem o diferencial ter sido formado por iniciativa pessoal de Danielle Barbosa, ex-coordenadora do Programa Mais Educação no município e atualmente no setor de Programas e Projetos, com apoio da Secretaria de Educação do estado.

Interessada no tema da educação integral, Danielle, em 2015, procurou instituições e conseguiu, com a Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Crede 10), criar um polo regional com outros municípios do litoral leste cearense, que passou a contar com a assessoria do programa Políticas de Educação Integral.

Acesso à ferramenta Nosso Plano, do Guia Políticas de Educação Integral. Imagem: Reprodução.
Acesso à ferramenta Nosso Plano, do Guia Políticas de Educação Integral. Clique para ampliar. Imagem: Reprodução.

Em 2017, 35 pessoas do polo estão inscritas no curso Educação Integral: qual é o nosso plano?, promovido pela plataforma Educação&Participação com mediação do educador Thales Santos Alves, também membro do Núcleo de Educação Integral do Cenpec. O primeiro módulo foi iniciado em maio e o próximo começará semana que vem, no dia 2 de junho.  “São quatro módulos presenciais e quatro módulos no modelo de EaD (educação a distância), alternados, dos quais estão participando técnicos, secretários e professores. Temos incentivado a fortalecer essa junção em polos, que é um modelo mais aberto de articulação entre diferentes municípios visando promover e disseminar a educação integral”, explica Julio Neres.

O curso tem se dedicado a explorar a ferramenta Nosso Plano, do Guia Políticas de Educação Integral, que pode ser utilizada por quaisquer estados ou municípios para gerar automaticamente um Plano de Educação Integral. A ferramenta pode ser acessada pela home do Guia, clicando botão “Acessar Nosso Plano”, no canto superior direito da página.

 

Mais informações

  • Veja como Danielle Barbosa se mobilizou e ajudou a criar o polo regional de educação integral no litoral leste do Ceará.
  • Como desenvolver a educação integral levando em conta as especificidades do território? Leia nesta reportagem.
  • Confira outros cursos da plataforma Educação&Participação. As inscrições para a 2ª edição 2017 do curso gratuito Educação e Participação em rede estão abertas até 29 de maio.
  • O Comitê Metropolitano de Educação Integral da Região Metropolitana de Campinas realizará, em julho, seu II Seminário de Educação Integral. O prazo para inscrições termina em 30 de maio;
  • Educação Integral: parcerias em construção é o mote da 12ª edição do Prêmio Itaú-Unicef. O prazo para inscrições foi prorrogado para 2 de junho. Saiba mais.

 

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