Prêmio Itaú-Unicef: videoconferência aborda as oportunidades e desafios nas parcerias entre ONGs e escolas

No dia 15 de outubro, o Prêmio Itaú-Unicef promoveu a videoconferência Parcerias: oportunidades e desafios para debater sobre a importância das organizações civis em projetos de educação integral, bem como as dificuldades e os desafios de estabelecer parcerias com as escolas.

Voltado para os representantes de 32 organizações e escolas públicas cuja parceria resultou nos projetos vencedores regionais da 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, o evento foi uma das atividades da “Assessoria às ONGs premiadas e escolas parceiras”, ação do Prêmio que busca promover essa parceria já existente, de modo que fortaleça as ações ofertadas às crianças e adolescentes com foco na educação integral.
Com mediação do sociólogo, jornalista e educador Fernando Rossetti, o evento contou com a participação de Isa Guará, pedagoga e doutora em Serviço Social; e de Salete Valesan Camba, psicopedagoga, mestre em Educação, diretora e coordenadora da área de Participação, Sociedade Civil e Processos de Mobilização da Flacso Brasil.
Ao longo do encontro, discutiu-se a importância das organizações civis em projetos de educação integral, bem como as dificuldades e os desafios em estabelecer parcerias com as escolas.

Rompendo barreiras

Destacando o papel das ONGs dentro de um objetivo de educar integralmente crianças e adolescentes, Isa Guará iniciou sua participação ressaltando que o primeiro passo para estabelecer parcerias é reconhecer a copresença das ONGs e escolas, que se encontram localizadas em um mesmo território.

Para a pedagoga, a escola tem centralidade no processo e é a responsável pela transmissão do conhecimento universal, enriquecido, por sua vez, pelo trabalho desenvolvido pelas ONGs, mais ligadas aos valores da comunidade onde se encontram.

Salete Camba, por sua vez, apontou que a escola precisa, em primeiro lugar, “romper seus muros”, a fim de possibilitar a efetivação dessas parcerias e contribuir para a redução de vulnerabilidades sociais.

 

Maestro e orquestra

Outro ponto do debate foi abordado por Fernando Rossetti, que utilizou uma orquestra como figura de linguagem para ilustrar o contexto de um projeto de educação integral com diferentes atores. “Quem é o maestro?”, provocou o sociólogo.
Isa Guará pontuou que é necessário haver liderança e gestão para levar a cabo os projetos de educação integral, ainda que ocorram dentro de uma rede. A pedagoga sugere a formação de um grupo executivo permanente no território, que poderia exercer esse papel e propiciar a proximidade entre os atores mediante encontros regulares, com intencionalidade.

Salete Camba recorreu à experiência de Nova Iguaçu e seu programa de bairro-escola, e citou a própria Secretaria de Educação como “maestro” que pode romper as barreiras na rede, mas fez um contraponto: “Em alguns momentos, a ONG precisa ser maestro”. Segundo a psicopedagoga, as organizações ainda precisam comprovar sua legitimidade perante a comunidade, de maneira que, em alguns contextos, precisam assumir o papel de liderar a proposta de educação integral em um território.

 

Dicas e principais desafios

O último tema do encontro tratou de questionar o que dificulta a integração da escola com outros espaços, como os providos pelas organizações civis.

Para Isa Guará, os principais obstáculos às parcerias são:

Uma cultura que, apesar dos discursos oficiais, ainda não valoriza suficientemente a educação;

  A falta de abertura ao trabalho conjunto – muitas vezes, os atores envolvem-se apenas em suas próprias rotinas e desafios particulares;

 A falta de divulgação de iniciativas, mesmo de pequeno porte, bem-sucedidas. Para Isa Guará, visibilizar os avanços é parte importante para arregimentar apoio e promover a educação integral.

Salete Camba pontuou que a formação dos professores de educação básica e fundamental é ainda um entrave: a despeito da discussão atual sobre o conceito de educação integral e de iniciativas modernas de formação, envolvendo inclusive conceitos como os de educomunicação e comunicação compartilhada, ainda há insuficiência. A psicopedagoga reforçou que também é necessário que as ações sejam legitimadas pela comunidade, o que nem sempre é levado em conta quando os projetos são pensados.

No término do debate, as dificuldades de financiamento por parte das ONGs e a necessidade de que as organizações se qualifiquem, da área política à área administrativa, foram levantadas. Recorrer à Assistência Social e procurar soluções diante da realidade de um financiamento público caracterizado pela municipalização foram apresentados como possíveis caminhos.

Fernando Rossetti mencionou a recente aprovação do Marco Regulatório, que estabelece regras mais claras para o financiamento público dirigido a ONGs – e a necessidade que estas têm de estudá-lo e trabalhar com suas propostas.

Entre as dicas levantadas para superar as dificuldades que eventualmente surgirão na parceria ONG-escola, foram destacadas as seguintes:

 Deixar claras e registradas as expectativas dos atores envolvidos;

 Perguntar aos sujeitos das ações – as crianças e os adolescentes – quais são suas necessidades e objetivos, abrindo um canal de comunicação e empoderamento para os estudantes;

 Manter a “chama acesa” e seguir estimulando o interesse e comprometimento com a educação integral;

 Romper o egocentrismo, compreender o papel de cada ator e respeitar a diversidade humana que constrói seus próprios papéis.

Assista à videoconferência

Participantes

Fernando Rossetti – formado em Ciências Sociais pela Unicamp e especialista em Direitos Humanos pela Columbia University, em Nova York, publicou com o Unicef o livro Mídia e escola: perspectivas para políticas públicas e foi diretor-executivo do Greenpeace Brasil, secretário-geral do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), repórter de educação na Folha de S. Paulo e colunista e consultor do Canal Futura. Com o jornalista Gilberto Dimenstein, Rossetti fundou a ONG Cidade Escola Aprendiz e a Rede CEP – Experiências em Comunicação, Educação e Participação.

Isa Guará – graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São José dos Campos da Univap (SP), Isa Guará é pós-graduada em Psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae e mestre e doutora em Serviço Social pela PUC-SP. Atualmente, é professora da Universidade Anhanguera de São Paulo (Unian), assessora da Associação de Pesquisadores dos Núcleos de Estudos e Pesquisas da Criança e do Adolescente (Neca) e participa do conselho editorial da Revista Brasileira Adolescência e Conflitualidade e do conselho consultivo do Cenpec.

Salete Valesan Camba – pedagoga e psicopedagoga, Salete Camba é mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade São Paulo (FE-USP), doutoranda pelo Programa de Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH-UERJ), diretora da Flacso Brasil e coordenadora da área de Participação, Sociedade Civil e Processos de Mobilização. Participa da militância de movimentos sociais e populares, incluindo as organizações do Fórum Social Mundial e do Fórum Mundial de Educação. Já fez parte da direção do Instituto Paulo Freire, atuou como professora e coordenadora pedagógica em redes públicas e privadas de ensino e foi chefe de gabinete e secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

 

Prêmio Itaú-Unicef

Atualmente em sua 10ª edição, o Prêmio Itaú-Unicef identifica, reconhece e estimula o trabalho de organizações não governamentais (ONGs) que, em articulação com as políticas públicas de educação e de assistência social e em parceria com a escola pública, contribuem para a educação integral de crianças, adolescentes e jovens. Procura, assim, colaborar na mudança do cenário da educação brasileira, visando à maior qualidade e equidade das oportunidades educativas com foco na educação integral. O Prêmio é uma iniciativa da Fundação Itaú Social e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).


Escrito por: João Marinho

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