Notícias - Vanessa Nicolav e João Marinho - Educação&Participação

Seminário em Campinas: gestores, técnicos e educadores manifestam preocupação com financiamento e cumprimento do PNE

A comparação entre as propostas do Programa Novo Mais Educação e seu antecessor, Custo Aluno-Qualidade (CAQ), e a necessidade de resistir politicamente aos desafios impostos à educação em razão da redução de verbas estiveram na pauta do II Seminário de Educação Integral: Concepções e Práticas no Brasil

“Nesta época difícil em que estamos, todos temos que estar juntos para fazer com que políticas públicas realmente se efetivem no exercício do direito que nossos alunos têm, que é uma educação de qualidade.” A mensagem de união, resistência sociopolítica e defesa do direito à educação é de Elaine Cristina Ferraz, presidente do Comitê Metropolitano de Educação Integral da Região Metropolitana de Campinas (RMC), em São Paulo. Essa iniciativa, organizada com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), resultou no II Seminário de Educação Integral: Concepções e Práticas no Brasil, que ocorreu em 6 de julho, no Centro de Convenções da Unicamp.

Sua fala foi realizada durante o seminário e enfatizou as preocupações dos cerca de 450 participantes do evento. Na ocasião, que envolveu gestores de mais de 20 municípios, professores, supervisores, diretores e a própria Unicamp, também foi destacado o trabalho que vem sendo articulado desde 2009 em defesa da educação integral. Confira nossa cobertura em vídeo.

 

Desafios da educação integral

Jaqueline Moll discursa no II Seminário de Educação Integral, em Campinas (SP). Clique para ampliar. Foto: Vanessa Nicolav.

Realizado no dia 6 de julho, num período que marca dois momentos significativos: os 10 anos da portaria interministerial que instituiu o Mais Educação, em 2007, e os 45 anos de fundação da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, o seminário teve como principais assuntos: intencionalidade pedagógica; desafios de instituir políticas de educação integral nos municípios; a necessidade de integração entre gestores e profissionais de diferentes municípios; críticas às mudanças trazidas pelo Programa Novo Mais Educaçãometas em atraso no Plano Nacional de Educação (PNE) devido ao congelamento de gastos; financiamento da educação; e o Custo Aluno-Qualidade (CAQ) – um mecanismo que traduz em valores o quanto o Brasil precisa investir por aluno ao ano para garantir um padrão mínimo de qualidade do ensino.

“Temos que nos reinventar todos os dias, com as crianças, os munícipes e a comunidade em Santa Bárbara d’Oeste (SP) visando ao desenvolvimento das potencialidades das crianças […], mas não tem sido fácil”, comentou secretária de Educação do município, Tânia Mara da Silva, na mesa redonda inicial, que contou com abertura de Dirce Djanira Pacheco e Zan, diretora da FE da Unicamp; e do reitor da universidade, Marcelo Knobel. “Na educação integral […], a escola não pode fazer mais do mesmo, […] mas é preciso dizer que é necessário instituir o Custo Aluno-Qualidade, com custeio federal. Não se pode apenas depender do município, como hoje”, completou Claudecir Brazilino Picolo, secretária de Educação de Nova Odessa (SP) .

Outra participante da mesa, Heloísa Andreia de Matos Lins, representante do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Unicamp, destacou as dificuldades de materialização do PNE nas salas de aula, especialmente no que diz respeito à inclusão de alunos surdos (meta 4). A meta 6, sobre educação integral, também foi abordada: “Ainda não há consenso sobre o que é educação integral”. Outros participantes da mesa inicial foram: Elaine Cristina Ferraz; Diego Gurvich, diretor de Planejamento Educativo da província de Santa Fé (Argentina), que posteriormente apresentou o funcionamento da política educativa da província, em especial o programa Escola Aberta; Sueli Polidoro, da Comissão Permanente de Formação de Professores (CPFP) da Unicamp; e os secretários de Educação: Anderson Wilker Sanfins (Itatiba-SP), também representante da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime); Vera Lucia Borelli (Cosmópolis-SP); Amarildo Boer (Holambra-SP); Fernando Gomes de Moraes (Hortolândia-SP); José Fernando Serra (Santo Antônio de Posse-SP); e Gilberto Lorenzon (Vinhedo-SP).


Educação integral não é modalidade, é característica estrutural do sistema. E não há educação integral fora dos marcos da democracia” (Jaqueline Moll)


Participantes do seminário posam ao lado de Diego Gurvich, Glauce Gouveia, Valdson Santana, Claudia Santos e Jaqueline Moll. Clique para ampliar. Foto: Vanessa Nicolav.

Já na segunda mesa da manhã, Jaqueline Moll, professora da FE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-diretora de Currículos e Educação Integral do Ministério da Educação (MEC), destacou o conceito de educação integral além da simples ampliação da jornada, cujo objetivo é o pleno desenvolvimento dos educandos. Ela também falou sobre a importância da gestão democrática para a educação integral e externou críticas ao Programa Novo Mais Educação, bem como a preocupação com o momento político atual: “Educação integral não é modalidade, é característica estrutural do sistema. E não há educação integral fora dos marcos da democracia”.

Ainda participaram da segunda mesa: Claudia Cristina Pinto Santos, professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e membro do Comitê Baiano de Educação Integral; Glauce Keli Oliveira da Cruz Gouveia, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Comitê Territorial de Educação Integral de Pernambuco; Valdson José de Santana, do Comitê Territorial Sergipano de Educação Integral, que apresentou a experiência aplicada nas escolas municipais de Riachão do Dantas (SE); e Debora Mazza, professora da Unicamp, que ampliou a discussão sobre o conceito de educação integral e a necessidade de gestão democrática e investimento.


Se estamos ouvindo o aluno, é preciso ouvi-lo sem julgá-lo, sem fazer um diagnóstico comportamental” (Julio Neres)


 

Mapa da Região Metropolitana de Campinas. Clique para ampliar. Fonte: IBGE. Arte: João Marinho. Consulte também os indicadores da RMC.

Finalmente, na parte da tarde, houve mostra de pôsteres e relatos de reflexões e de experiências, concluídas ou em andamento, relacionadas à educação integral em diferentes cidades do Brasil, apresentados em três diferentes auditórios. Julio Neres, do Núcleo de Educação Integral do Cenpec e um dos representantes do programa Políticas de Educação Integral, iniciativa da Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), apresentou a experiência dos grupos de escuta com adolescentes em Itabira (MG): “Se estamos ouvindo o aluno, é preciso ouvi-lo sem julgá-lo, sem fazer um diagnóstico comportamental”. Outras atrações do seminário incluíram um grupo de batuque com alunos, a Fanfarra Metropolitana e barracas da Rede de Economia Solidária. As experiências de educação integral foram todas reunidas em um e-book especialmente preparado para o seminário, que poderá ser baixado em breve.

 

O seminário em imagens

Confira as fotos dos momentos mais marcantes do II Seminário de Educação Integral: Concepções e Práticas no Brasil, do Comitê Metropolitano de Educação Integral da RMC. Clique nas imagens para ampliá-las.

Parceria em expansão

Da esquerda para a direita: Tânia Mara da Silva, Claudecir Picolo, Vera Lucia Borelli, Amarildo Boer, Anderson Wilker Sanfins, Fernando Gomes de Moraes, José Fernando Serra, Heloísa Lins, Gilberto Lorenzon, Sueli Polidoro, Diego Gurvich e Elaine Ferraz na mesa inicial do II Seminário de Educação Integral, em Campinas (SP). Clique para ampliar. Foto: Vanessa Nicolav.

Em 2009, Luiz Carlos Cappellano – então coordenador do Programa Mais Educação em Campinas (SP) – organizou com Solange Pelicer, secretária de Educação, o comitê municipal envolvendo escolas da cidade que haviam aderido ao programa.

O comitê foi instaurado por meio de uma lei e Cappellano foi eleito para duas gestões seguidas, passando a dar apoio aos municípios vizinhos a implantar o Mais Educação, a fazer prestação de contas etc. Em 2011, alguns municípios pleitearam a participação no comitê, que se estendeu, no ano seguinte, a toda a RMC. “Agora, temos continuado este trabalho e ampliamos a orientação. Nossos encontros são mensais e abertos: a toda cidade que quiser mandar representante, o convite é feito. Os representantes dos municípios vêm, tiram dúvidas, participam, trocam experiências e nós orientamos. Atualmente, além dos 20 municípios da RMC, recebemos visitas de representantes de cidades mais distantes, como Capivari, Santos, Diadema e Presidente Prudente”, conta Elaine Ferraz.


Começamos a sonhar juntos e a iniciar uma articulação com a FE da Unicamp: trazer o que há na escola para dentro da faculdade e oferecer o que a faculdade tem para quem está fora dela (Elaine Ferraz)


Elaine também esclarece como a Unicamp entrou na parceria, um dos diferenciais da articulação: “Sou professora há 31 anos e atualmente atuo na Secretaria de Educação de Vinhedo (SP), onde sou responsável pelas áreas de educação integral e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Por conta desse meu envolvimento com a EJA, conheci a professora Nima Spigolon nas reuniões do Gepeja, que é o grupo de estudos e pesquisas da Unicamp especializado em Educação de Jovens e Adultos. Depois disso, recebemos a visita da professora Debora Mazza, que é diretora na Faculdade de Educação da Unicamp e responsável por estudos em educação integral. A partir daí, começamos a sonhar juntos e a iniciar uma articulação com a FE da Unicamp: trazer o que há na escola para dentro da faculdade e oferecer o que a faculdade tem para quem está fora dela. Essa parceria se fortaleceu com a realização deste II Seminário aqui, na própria Unicamp”.

> Saiba mais sobre o histórico do Comitê Metropolitano de Campinas
e sua relação com o Programa Mais Educação.


Fotos: Vanessa Nicolav.
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