Somente com Educação Integral é possível garantir o direito da criança e do adolescente

“Garantir o direito da criança e do adolescente no Brasil não é possível sem Educação Integral. É preciso integrar escola, família, comunidade, saberes e questionamentos, não esquecer nunca que as crianças e os adolescentes são seres humanos integrais. Nesse sentido, a educação integral proporciona vivências que possam crescer com as crianças, para que elas saibam ler e transformar o mundo”.

Essa foi a fala de Maria de Salete Silva, coordenadora do programa de educação do Unicef no Brasil, durante a abertura do Seminário Nacional Educação Integral: Experiências que Transformam.

O seminário, realizado pelo Prêmio Itaú-Unicef no dia 3 de agosto, reuniu em Sâo Paulo aproximadamente 500 pessoas, entre educadores e representantes de organizações da sociedade civil de todo o país, para debater o conceito de Educação Integral, assim como o papel e as experiências das ONGs no desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens.

Para isso, além da palestra de abertura do evento, Transformação em Processo, feita pelo professor e pesquisador da USP Celso Favaretto, três salas temáticas trouxeram o debate de temas relacionados ao conceito: Educação e Proteção Social, Novos Saberes e Juventude. Na ocasião, representantes de organizações também contaram como desenvolvem ações de Educação Integral em seus projetos.

De acordo com Maria Alice Setúbal, presidente do Conselho de Administração do Cenpec, que também esteve na abertura do seminário, o maior desafio não é definir o conceito de Educação Integral, que ainda está em construção, mas sim criar um currículo. “Hoje vivemos em um mundo de aplicação de novas tecnologias, blogs, mídias sociais. É preciso levá-las para dentro das organizações e escolas”, diz ela.

Transformação em processo

Ao abordar o tema de abertura, Favaretto citou dois conceitos que são fundamentais para se entender as transformações modernas: o deslocamento de fronteiras conceituais e históricas e o caráter da experiência contemporânea.

“A incidência dessas transformações no saber, especialmente as provocadas pela tecnociência e pelas redes de comunicação, corresponde ao desgaste das delimitações tradicionais de áreas de conhecimento e da cultura e à perda da unidade da experiência. De fato, nota-se que na situação pós-moderna, o saber deixa de ser magnetizado por uma ideia; desenvolve-se por uma dinâmica interna assimilando o acaso e, através de novas mediações, transforma-se muitas vezes em instrumento de circulação mercantil e poder”, afirmou.

Celso Favaretto, durante sua fala no seminário
Celso Favaretto, durante sua fala no seminário

De acordo com o pesquisador, as implicações de tudo isso são grandes e afetam o mundo do trabalho, o saber, a cultura, as práticas e a sensibilidade contemporânea, dadas as transformações que atingem a individualidade, a família, o ordenamento jurídico do Estado, a lógica cultural e as ilusões de livre escolha e de livre afirmação dos interesses do capitalismo.

“A globalização, a aliança entre o capital e a tecnociência, a importância cada vez maior da informação; a convivência de três espaços, o geográfico, o socioambiental e o virtual; o biopoder como administração dos indivíduos e das massas, gestão dos corpos e das populações; configuram um grande dispositivo de dominação. É preciso, é imperioso, assim, tentar compreender estas transformações, sem dramas, mas sem negligenciá-las”, diz.

O pesquisador explicou ainda que é necessário entender o conhecimento não como sendo um conteúdo homogêneo, totalizador, mas sim como processo cujas regras e categorias não nos são dadas a priori, mas se conhecem na produção das relações.  “É uma tensão de forças múltiplas e heterogêneas num campo de ações também múltiplas. O essencial é a escolha, a gradação e a seleção das forças em jogo”, diz.

Em sua fala, Favaretto também questionou: “Por que a educação resiste a tomar as pretensões que criticam a formação totalizadora? Por que se insiste na homogeneidade na educação, diante da efemeridade dos acontecimentos?”. Segundo ele, “aprender é sempre considerar um objeto como se ele sempre emitisse signos a serem interpretados”.

Veja a galeria de fotos do evento:

SeminarioNacionalEducacaoIntegral
Seminario Nacional Educacao Integral

 

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