Tempo Integral nas escolas: concepções e usos no Brasil

De acordo com artigo de Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde, ex-secretária de Educação Básica do MEC, enquanto a formação do aluno não for a principal discussão do projeto de escola, qualquer proposta de extensão do tempo não alcançará resultados satisfatórios.

 Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde é  doutora em Educação pela PUC-SP e foi  secretária de Educação Básica do  Ministério da Educação
Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde é
doutora em Educação pela PUC-SP e foi
secretária de Educação Básica do
Ministério da Educação

 

Divulgado nesta semana pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Censo Escolar mostrou que 3,1 milhões de estudantes do Ensino Fundamental se matricularam em escolas de tempo integral, o que representa um aumento de 139% no número de matrículas em relação a 2010. Além disso, somente entre os anos de 2012 e 2013, houve um crescimento de 45,2%.

Para aprofundar a análise sobre a ampliação da jornada escolar, existente nas escolas públicas de Educação Integral, o Site Educação & Participação publica, na íntegra, o artigo “Tempo escolar e organização do trabalho pedagógico”, de Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde, doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e secretária de Educação Básica do Ministério da Educação.

O artigo pretende esclarecer a relação do tempo escolar e os seus usos. Se por um lado, a discussão sobre o tempo pode ficar restrita a certos conceitos modernos, que o utilizam como meio de aprisionamento da sociedade, por outro lado, existem mudanças em andamento que pretendem promover outras significações à questão do tempo.

Com seu eixo central baseado na utilização do tempo durante o ambiente escolar, o artigo mostra que, desde a infância, o homem está atrelado aos tempos sociais, sendo uma parte dele vinculado à escola; desse modo a sociedade promove uma organização artificial dos tempos, tornando-os fixos e rígidos.

No texto, Yvelise ressalta que a maioria dos educadores visualizam o tempo como um dado preexistente, sem possiblidades de interferência; porém a autora afirma que esse tempo é humano, ou seja, ele é único, individual e possui características próprias a cada pessoa. Nesse sentido, há uma lacuna entre o tempo dado pela escola e o tempo necessário do estudante, pois a compreensão sobre essa questão ainda não está totalmente esclarecida.

Segundo Yvelise, a tese mais difundida sobre a definição do tempo escolar se refere à distribuição e à organização da jornada de trabalho; essas características  são impostas por decisões governamentais e de acordo com os preceitos vigentes de ensino e aprendizagem, o que dificultam o trabalho pedagógico de ampla maioria das escolas.

Em relação aos estudos acadêmicos voltados ao tema, verifica-se, segundo a autora, que o maior ou menor tempo oferecido à escola não resulta em processos de aprendizagem por meio de livros ou por meio das experiências dos professores, mas sim de acordo com as “regras do jogo dominante”, nas quais não permitem a possibilidade de reflexão sobre o uso do tempo; por outro lado, essa concepção depende da localidade em que as políticas educacionais são inseridas, pois em determinados territórios há uma série de fatores que interferem nas ações da escola, como a comunidade, as famílias e, sobretudo, como as escolas encaram a questão temporal.

 Ampliação da jornada escolar

 

As propostas de ampliação da jornada escolar no Brasil permanecem e saem do sistema, ou seja, dependem da conjuntura política que o país vive (eleições, interesses, entre outras questões). Essas ações acabam por enfraquecer, segundo a autora, o profissional da educação e, principalmente, causam rupturas nos processos educacionais que já estavam em andamento, que pretendiam, num primeiro momento, formar crianças e adolescentes em escolas de tempo integral. Mesmo diante desse quadro, a autora afirma que algumas experiências persistiram, ocorrendo readaptações às novas demandas públicas de educação em tempo integral.

Para a autora, enquanto a formação do aluno não for a principal discussão do projeto de escola, qualquer proposta de extensão do tempo não alcançará resultados satisfatórios.

Ao concluir o artigo, a autora afirma que “as formas criadas para a educação ainda estão distantes da possibilidade de constituição histórica do ser humano, de sua formação intelectual, de sua liberdade individual e coletiva, de sua autonomia e sua emancipação”.

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