A educação integral e a canção brasileira

Por Paulo Padilha

A canção é uma forma de expressão que une música e poesia e está visceralmente entranhada na alma do povo brasileiro. Ela cria em torno de si um território cultural comum, que une gerações, cria vínculos, “quebra o gelo” e abre portas e janelas.

Por todas essas particularidades, ela pode ser um excelente instrumento de apoio nos processos de ensino e aprendizagem de diferentes conteúdos, sensibilizando e mobilizando a garotada em torno de um tema, aquecendo uma discussão que será desenvolvida posteriormente, ou mesmo sendo retomada ao final da atividade em um momento de descontração e espontaneidade.

 

Apreciação, intencionalidade e fruição

É fundamental considerarmos que a boa fruição de uma obra musical já é, em si mesma, uma atividade educativa importantíssima e completa que mobiliza aspectos cognitivos, sensíveis, reflexivos e sociais. A escuta qualitativa de uma obra, que denominamos apreciação musical, com focos específicos  por exemplo, na melodia, no ritmo, nos instrumentos, na relação entre música e letra, no contexto sociocultural  é um dos principais objetos de estudo da pedagogia musical.

Esse tipo de abordagem é bastante conveniente para educadores que sejam músicos ou que tenham mais intimidade com a linguagem musical ou poética. Dessa forma, a utilização de uma canção em sala pode ser tanto um fim em si como uma estratégia mobilizadora.

Seja como atividade principal, seja como apoio, o importante da escolha de uma canção é a intencionalidade educativa. Em outras palavras, qual a intenção pedagógica do educador com aquela escolha? Realizar uma boa apreciação musical da obra ou trabalhar outro tema utilizando a canção como sensibilização para uma reflexão posterior?

Após definir as aprendizagens que se pretende trabalhar com a canção,  o segundo passo é usá-la. Nesse ponto, o educador muitas vezes deixa de aproveitar tudo o que ela pode oferecer quando tem pressa em chegar ao assunto que considera o eixo da atividade e se esquece de deixar que os alunos “curtam”, “sintam” e “escutem”, ou seja, que realizem o que chamamos em arte de fruição da obra.

Portanto, ao usar uma canção em aula, mesmo que ela seja um instrumento de apoio para alcançar um objetivo pedagógico extramusical, leve em consideração a fruição da obra, ou seja, deixe que os alunos a ouçam mais de uma vez. Crie um contexto. Cante e toque com eles se possível. Conte uma história sobre ela e faça com que ela seja enriquecida de sentidos, criando uma relação afetiva entre a obra e a turma. Só então avance para outras etapas da atividade. Não tenha pressa. Afinal, como foi dito anteriormente, uma boa escuta já é, por si só, uma atividade educativa fundamental.

 

Temas transversais

Selecionamos abaixo seis temas transversais e sugestões de canções brasileiras que podem ser usadas em diversas faixas etárias, tanto como motivadoras de reflexão sobre temas, como por seu valor poético-musical e de seu contexto sociocultural.

Nessas atividades é importante contemplar o repertório musical da turma e solicitar contribuições para a indicação de outras canções relativas ao tema abordado. Ao final de cada ação, avaliem se as estratégias de aprender sobre diferentes temas e por meio da música foi uma experiência significativa para cada um e o que poderia ser fortalecido nas próximas escolhas.

 

Metalinguagem: Samba de uma nota só

O “Samba de uma nota só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, é um excelente exemplo de metalinguagem com diferentes níveis de compreensão que pode ser usado com alunos de diferentes faixas etárias, dependendo da intencionalidade do professor. Além disso, é possível tocar a primeira e a última partes apenas com duas notas. A obra é um clássico da bossa-nova, movimento musical surgido a partir de 1958 com o lançamento do LP Chega de saudade, de João Gilberto.

Vejamos como a letra descreve com precisão o que acontece com a melodia:

Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só.
[Até aqui, de fato, apenas uma nota é tocada]
Esta outra é consequência do que acabo de dizer,
Como eu sou a consequência inevitável de você.
[Ao falar “esta outra”, uma nova nota entra na melodia]
Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada,
Ou quase nada.
Já me utilizei de toda a escala, e, no final, não sobrou nada,
Não deu em nada.
[Nesta parte, a melodia é realizada sobre uma escala]
E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com a minha nota como eu gosto de você,
E quem quer todas as notas – ré, mi, fá, sol, lá, si, dó –
Fica sempre sem nenhuma.
Fique numa nota só.
[Aqui, voltamos à primeira nota]

Sugestões de encaminhamento:

  • Após uma escuta com ênfase na relação entre letra e melodia, introduzir o conceito de metalinguagem ou usar a canção como exemplo se o conceito já foi trabalhado anteriormente.
  • Tocar a primeira e a última partes, que têm apenas duas notas, com instrumentos, como garrafas afinadas, ou usando apenas dois dedos no piano, teclado, xilofone ou metalofone.
  • Contextualizar a obra historicamente. Falar da bossa-nova ou mesmo de Tom Jobim, um dos principais personagens da nossa canção popular.

 

Multiletramento: Pulsar

“O pulsar” era inicialmente uma poesia concreta de Augusto de Campos e Júlio Plaza, incluída na obra Caixa preta, de 1975. O texto foi posteriormente musicado por Caetano Veloso e lançado no álbum Velô, em 1984.

As letras transformadas em símbolos sobre o fundo preto nos remetem à ideia de uma mensagem cifrada lançada na imensidão do universo.

pulsar

Caetano aproveitou-se dos símbolos usados em substituição das vogais e transformou o texto em uma partitura com apenas três notas. Dessa forma, temos a seguinte correspondência entre símbolos, letras, notas e timbres (sons de instrumentos). E, assim como a canção anterior, podemos trabalhá-la em vários níveis de compreensão:

Símbolo Letra Nota Timbre
bola O Dó (grave) Bumbo + Baixo
estrela E Ré (aguda) Sininho

A ou U

(estilizados)

A ou U Sol (média) Flauta

Sugestões de encaminhamento:

  • Primeiro, apresente apenas o texto para que a charada seja decifrada sem a audição.
  • Mostre a música, de modo que os alunos percebam a correspondência entre sons, símbolos e vogais.
  • Introduza o conceito de grave, médio e agudo.
  • Use três sons – um bem agudo (um triângulo ou sininho, por exemplo), um médio e um grave (um surdo, por exemplo) – e transforme a própria letra numa partitura de símbolos, a fim de que os alunos possam executá-la.
  • Para os alunos com mais idade, discuta o sentido metafísico do texto e sua relação com a apresentação, que nos remete ao cosmos.
  • Contextualize histórica e conceitualmente a poesia concreta.

A atividade se relaciona ao conceito de multiletramento, na medida em que é uma obra híbrida, que articula simultaneamente símbolos, sons, letras e palavras e abre um leque de possibilidades infinitas de interpretações lúdicas, poéticas, metafísicas, filosóficas e sensoriais. Use a imaginação e divirta-se.

 

Puberdade: O xote das meninas

Versão de Luiz Gonzaga:

Versão de Marisa Monte:

O tema da puberdade é tratado com leveza, humor e lirismo neste clássico da canção brasileira, “O xote das meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Os autores se utilizam da comparação entre um fenômeno da natureza e acontecimentos da vida humana, um recurso usado com maestria em poesia e canção nordestinas. Quando o mandacaru, cacto típico do Nordeste, “fulora”, ou seja, dá “fulô” no tempo de seca, é sinal de que a chuva vai chegar. Da mesma forma, quando a menina enjoa da boneca, é sinal de que está chegando à puberdade.

Sugestões de encaminhamento:

  • Ouça a música várias vezes com a turma. Converse sobre os sentidos que os alunos constroem e sobre a relação com as mudanças físicas na adolescência.
  • Converse sobre as diferentes percepções dos ciclos da vida e da natureza. Dialogue com os alunos com base nas características do grupo.
  • Se achar pertinente, compare a gravação original de Luiz Gonzaga com a de Marisa Monte.
  • Proponha uma atividade de canto coletivo, já que se trata de uma canção bastante conhecida.
  • Faça uma atividade de dança em pares se achar pertinente.
  • Fale sobre Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião.

  

Futebol: três sugestões

Música e futebol sempre rendem boas parcerias. Sugiro três canções de universos bastante diferentes, tanto musicais como culturais, que, a pretexto de falar de esporte, podem ampliar o universo de referência da garotada.

1. “Um a zero”, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, é um chorinho carioca com uma melodia incrível. Composto em 1919, para comemorar uma vitória do Brasil sobre o Uruguai na histórica decisão do Campeonato Sul-Americano, foi letrado recentemente por Nelson Angelo, gravado pelo grupo carioca Arranco de Varsóvia, e virou tema do programa Bate-Bola, da ESPN.

 

2. “Um a um”, de Edgar Ferreira, foi sucesso na voz de Jackson do Pandeiro, um dos ícones da música nordestina nos anos 1950. A mãe de Jackson cantava cocos de embolada nas feiras da Paraíba, o que conferiu a Jackson, além de outras habilidades, um especial trato no ritmo das palavras e a alcunha de Rei do Ritmo.

3. Para completar, ampliar o leque e trazer para a contemporaneidade, uma ótima pedida é a canção pop rock “É uma partida de futebol”, do grupo mineiro Skank, que ainda tem um ótimo videoclipe.

Sugestões de encaminhamento: 

  • Audição de “Um a zero”, com acompanhamento do texto da canção, que conta um pouco da história do futebol.
  • Contextualização da canção, falando de Pixinguinha, do chorinho e da vitória do Brasil sobre o Uruguai em 1919.
  • Audição de “Um a um”, com acompanhamento do texto.
  • Exercício de canto com o refrão: “Este jogo não pode ser um a um, se meu time perder tem zum-zum-zum”.
  • Situar a turma em relação ao nosso Rei do Ritmo, Jackson do Pandeiro.
  • Apresentar o videoclipe de “É uma partida de futebol”.
  • Situar a turma em relação ao grupo mineiro Skank.

Dessa forma, teremos três estados brasileiros representados: com Pixinguinha (Rio de Janeiro), Jackson do Pandeiro (Paraíba) e Skank (Minas Gerais). Que tal emendar um papo sobre o Campeonato Brasileiro, seus principais clubes, sua organização etc.?

 

Direitos da Mulher: Si Mi Ré Lá

A canção “Si Mi Ré Lá”, de Paulo Padilha, é uma embolada que trata da questão feminina. Foi composta num período em que o compositor trabalhava com ritmos como o maracatu, em um projeto que reunia várias jovens batuqueiras de Carapicuíba (SP).

A energia das jovens batuqueiras, somada às histórias contadas por elas sobre seu cotidiano e as situações de assédio vividas nos trens lotados, inspiraram o compositor a criar a canção e fazer um videoclipe com toda a comunidade.

De forma bem-humorada, mas crítica, com as meninas e mulheres da comunidade como protagonistas, o grupo faz um retrato da condição feminina da periferia.

Sugestões de encaminhamento:

  • Ouvir a canção sem a letra.
  • Depois ouvir a canção com acompanhamento da letra.
  • Tocar as notas si, mi, ré e lá ao piano e chamar a atenção para o fato de que elas são, ao mesmo tempo, as notas da melodia do refrão, além de um trocadilho que significa “se você encostar em mim”.
  • Assistir ao videoclipe, enfatizando a participação da comunidade e das diversas faixas etárias.
  • Analisar o conteúdo da letra e sua relação com as pequenas violências vividas pela mulher em seu dia a dia.

 

Identidade: Eu 

Na canção “Eu”, de Paulo Tatit, lançada pela Palavra Cantada no CD Canções curiosas, o personagem pergunta a seus pais sobre suas origens. Mergulhamos, então, numa história lírica, brejeira e bem-humorada que envolve avós e bisavós e fala um pouco do Brasil, de suas misturas étnicas, de seus lugares, costumes e um pouco de cada um de nós.

É possível, por meio da canção, nos reconhecermos ou provocarmos discussões que envolvem aspectos da história, geografia e de questões mais pessoais ou sociológicas ligadas à identidade. O videoclipe é  simpático e mais adequado ao Ensino Fundamental I.

 

> Leia também o artigo A música, a educação, os festivais e o banco de trás da Variant bege, do mesmo autor.

 

Fotos ilustrativas: Reprodução/Projeto Batucadeiros e Prêmio Itaú-Unicef.
Tagscanto, educação integral, intencionalidade educativa, intencionalidade pedagógica, música, música popular

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  • Boa tarde
    Não sei há possibilidade de postar músicas mais próximas a Educação Infantil. Gostei do repertório apresentado, porém fica distante de Educação Infantil.
    Grata 

  • Bela materia, fala e trabalhar música em sala de aula, ajuda a desenvover ainda mais a aprendizagem.