Educação no campo e suas contribuições para o desenvolvimento integral

Escrito por Raimunda Alves Melo¹

Conta uma parábola que um menino chamado Severino foi comprar, na mercearia da comunidade rural em que morava, alguns biscoitos para servir aos familiares que chegaram a sua casa. Severino era uma dessas crianças que, como tantas outras, aprendeu a trabalhar muito cedo para ajudar a família e acompanhava o pai na venda de verduras e legumes na feira nos finais de semana. Ao chegar à venda, o menino perguntou ao vendedor o preço de um pacote de biscoito. O homem informou que custava dois reais e cinquenta centavos. Então, Severino comprou cinco pacotes de biscoitos, pagou com uma nota de vinte reais e ficou aguardando o troco.

Passaram-se alguns minutos, Severino interrogou o vendedor sobre o seu troco de sete reais e cinquenta centavos. Um professor, que visitava a comunidade, observava atento a desenvoltura do menino. Ficou surpreso com a sua capacidade de multiplicar cinco vezes dois e cinquenta e subtrair o produto da multiplicação dos vinte reais, encontrando o troco de sete reais e cinquenta centavos. Inferiu que Severino era um aluno bom de matemática. Ao se aproximar e conversar com ele, descobriu que Severino tinha dez anos, cursava a primeira série do Ensino Fundamental e que, por dificuldades na disciplina Matemática, tinha sido reprovado três vezes. Também ficou sabendo que Severino, devido à situação já mencionada, costumava faltar muito às aulas.

Intrigado com a situação, o professor procurou a equipe docente da escola e ficou sabendo que Severino tinha dificuldades para somar e diminuir. Ao tomarem conhecimento sobre os saberes de Severino manifestados durante a compra dos biscoitos, os professores chegaram à conclusão de que os processos educativos não estavam oportunizando o encontro da matemática de Severino com a matemática do livro didático. E, sem o encontro do saber cultural do menino com o saber da escola, Severino tinha dificuldades de avançar em seu conhecimento. Também perceberam que a escola focalizava sua prática educativa apenas no desenvolvimento das habilidades cognitivas, desconsiderando as dimensões físicas, afetivas, sociais e éticas necessárias ao desenvolvimento integral do ser humano.

Em formação, os professores – juntamente com a coordenação, gestão escolar e a técnicos da secretaria de educação – perceberam que o currículo da escola não reconhecia, não respeitava e não valorizava o conhecimento dos alunos. Também observaram que as práticas educativas não priorizavam o desenvolvimento das diferentes dimensões humanas como condição de cidadania, a exemplo do que propõem a Educação do Campo e a educação integral. Foi a partir desta situação que começaram a refletir e a reorganizar a prática educativa, assegurando o desenvolvimento de metodologias e ações que consideravam os saberes dos estudantes, o respeito à convivência social e a construção de valores pautados na valorização da diversidade e na solidariedade. Assim, o processo de ensino e aprendizagem melhorou muito e ganhou vida, os professores passaram a valorizar e a integrar o saber e a cultura da comunidade no processo didático pedagógico, concebendo a educação a partir da valorização dos saberes próprios da família e da comunidade.


“A história de Severino, implicitamente, nos conduz a perceber a necessidade e urgência de uma educação escolar que respeite, valorize e se aproprie dos saberes culturais dos alunos e da comunidade local como parte integrante do projeto pedagógico da escola, notadamente da prática educativa, da formação dos estudantes e professores. Esta proposta de educação, denominada Educação do Campo, é parte complementar de um projeto social mais amplo que objetiva também o direito à terra, à moradia, à justiça social, à saúde e à sobrevivência da população do campo.”


Em consequência dessa mudança, Severino nunca mais foi reprovado. Pelo contrário, hoje é professor e um dos educadores que buscam fazer do ato pedagógico o diferenciado momento de articular o saber da cultura dos estudantes e da comunidade com o saber da humanidade, contribuindo para melhorar a qualidade social da educação, considerando os interesses da população, com o objetivo de resgatar valores fundamentais como solidariedade, justiça, honestidade, autonomia e ampliação da cidadania.²

Iniciamos este texto apropriando-nos da parábola do menino Severino por contemplar importantes reflexões sobre a educação integral, uma proposta concebida na perspectiva do desenvolvimento integral do indivíduo, fundamentada legalmente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei n. 8.069/1990) e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei n. 9.394/1996) – ao mencionarem a importância de processos educativos que extrapolem os conteúdos tradicionalmente abordados nas escolas –, valorizando a convivência familiar e comunitária, as manifestações culturais e os movimentos sociais.

A história de Severino, implicitamente, nos conduz a perceber a necessidade e a urgência de uma educação escolar que respeite, valorize e se aproprie dos saberes culturais dos alunos e da comunidade local como parte integrante do projeto pedagógico da escola, notadamente da prática educativa, da formação dos estudantes e professores. Esta proposta de educação, denominada Educação do Campo, é parte complementar de um projeto social mais amplo que objetiva também o direito à terra, à moradia, à justiça social, à saúde e à sobrevivência da população do campo.

Partindo dessas considerações introdutórias, a intenção desse texto é analisar como a Educação do Campo pode contribuir com o desenvolvimento integral de educandos, educadores e de suas comunidades. Dessa forma, pretendemos suscitar reflexões e debates sobre a importância de oferecer aos estudantes a convivência entre os saberes escolares e a cultura do campo, suas lutas e seus direitos.

A educação tem responsabilidade essencial na preparação das novas gerações, devendo os seus atores principais (educandos, educadores, famílias) estarem atentos para observar se as práticas educativas contemplam reflexões sobre as problemáticas humanas e sociais e, ainda, a proposição de vivências reflexivas e contextualizadas que estimulem as novas gerações a pensarem em soluções para os problemas sociais que estão postos. Igualmente é necessário o desenvolvimento de processos educativos que contribuam para o desenvolvimento das diferentes dimensões da formação humana (físicas, afetivas, sociais, cognitivas e éticas) – concebendo os educandos como seres integrais.

A escola é, por referência, um dos principais espaços criados pela sociedade, experimentados de modo sistemático pelos sujeitos, e cuja prática educativa é formada por uma intencionalidade política e pedagógica. É parte de sua responsabilidade a socialização, apropriação e incorporação da herança cultural e a formação crítica para que os educandos ampliem suas capacidades de conhecer, questionar e transformar a realidade da qual fazem parte. Agindo assim, assegura que os estudantes se apropriem do saber produzido e acumulado, ao mesmo tempo que garante que eles (re)construam seus saberes, conforme mostra a figura abaixo.

Para tanto, o processo educativo exige uma profunda sintonia com a realidade dos sujeitos, concebidos como seres humanos conscientes, curiosos, reflexivos, dialógicos e transformadores do mundo.

A educação na escola do campo deve ter como foco, na perspectiva de uma formação ampla e integral, objetivos de justiça social. Respeitar, valorizar e se apropriar dos saberes culturais dos alunos e da comunidade local implica, necessariamente, em práticas educativas compromissadas com os interesses e necessidades das populações do campo.


“[…] defendemos que os educadores das escolas do campo sejam formados para atuarem em diferentes espaços educativos através de uma formação inicial específica, realizada em torno de uma proposta de desenvolvimento para o campo e de um projeto político-pedagógico peculiar para suas escolas […]”


O que propomos é que a educação dos sujeitos do campo seja realizada por meio de processos formativos que concebam a educação na condição de um direito dos trabalhadores, gestada a partir do ponto de vista dos camponeses e articulada à trajetória de luta de suas organizações. Lutamos para que esses processos sejam desenvolvidos por meio de práticas que ultrapassem o sentido de escolarização, situando e idealizando a educação escolar como parte de um projeto político e social capaz de contribuir para a emancipação do campo e de seus sujeitos.

Para tanto, defendemos que os educadores das escolas do campo sejam formados para atuarem em diferentes espaços educativos através de uma formação inicial específica, realizada em torno de uma proposta de desenvolvimento para o campo e de um projeto político-pedagógico peculiar para suas escolas, a exemplo do que propõem o Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo (Procampo) e os cursos oferecidos pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

A nossa compreensão é que a educação escolar é um direito de todos, conforme a Constituição Federal de 1988. Não apenas o acesso a ela, mas, sobretudo, a uma pedagogia crítica, vinculada a objetivos políticos de emancipação e de luta por justiça e igualdade social, que possibilite aos estudantes o direito a escolhas profissionais e pessoais. Dessa forma, a Educação do Campo pode contribuir com o desenvolvimento integral de educandos, educadores e também de suas comunidades.

Ao finalizar este texto,  reportamo-nos mais uma vez à parábola de Severino para registrar a nossa esperança de que todos os estudantes do campo (e da cidade também) tenham a mesma sorte de Severino, de encontrar educadores e gestores que se proponham, na sua prática educativa, a se manter em sintonia com a vida, com a justiça social, com a cultura e com os saberes culturais da comunidade, dispostos a trabalhar práticas educativas e a colaborar com a aprendizagem dos alunos no sentido da constante e necessária ressignificação de seus saberes, assegurando a eles uma formação integral.


1 Raimunda Alves Melo é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Professora assistente do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFPI. Integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas em Educação e Epistemologia da Prática Profissional (NIPEEPP) da UFPI.
2 Reelaborado a partir da parábola original que se encontra em: Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares: Conselho Escolar e o respeito e a valorização do saber e da cultura do estudante e da comunidade (Caderno 3). Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica, 2004. p. 49-51.
Tagscomunidade, desenvolvimento integral, educação no campo, espaços educativos, família, prática educativa

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