Educação&Participação

Interação com esse gênero literário, expressão da cultura popular nordestina.

Início

  • O que éO que é

    Atividade de leitura e escrita de cordéis.

  • PúblicoPúblico

    Adolescentes e jovens.

  • MateriaisMateriais

    Folhetos de cordel, barbante e pregadores, projetor data show, computadores com acesso a internet (um por dupla), aparelho de som, CD com música nordestina (Luiz Gonzaga ou Dominguinhos, por exemplo).

  • EspaçoEspaço

    Na sala de atividades e em espaço público ampliado.

  • DuraçãoDuração

    Dois encontros de 1h30min cada,

  • FinalidadeFinalidade

    Interagir com esse gênero literário, que vem ganhando espaço e reconhecimento no cenário nacional; valorizar essa forma de expressão da cultura popular nordestina.

  • ExpectativaExpectativa

    Identificar as características próprias do cordel e de seu uso; conhecer a sua história e a introdução de sua prática no Brasil.

Na prática

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Como desenvolver?

1º encontro: Entrando no mundo encantado dos cordéis.

Prepare a sala para receber a turma. Estenda um barbante de ponta a ponta, entre as paredes, no alto, e pendure alguns exemplares de cordéis.  Os folhetos podem ser encontrados no site da Fundação Casa de Rui Barbosa (Rio de Janeiro). Ponha a música de Luiz Gonzaga ou Dominguinhos para tocar.

Aguarde a entrada dos adolescentes e jovens e observe a reação deles: se é de surpresa, de alegria por reconhecer algo familiar, se de espanto ou estranheza. Estimule que percorram o varal, peguem os folhetos, manuseiem, leiam trechos…

Aproveite os comentários que fizerem para explorar, em seguida, na roda, o quanto conhecem dessa arte popular; pode ser que haja filhos de migrantes nordestinos no grupo, que já tenham tido contato com o cordel e até tenham algumas histórias para contar. ..

Fale então sobre o que caracteriza a literatura de cordel. O cordel é uma historia em forma de poema, apresentada em pequenos folhetos de papel jornal, com número variado de páginas, sempre múltiplas de quatro, que são pendurados em um varal de barbante (cordel), tal qual eles viram em sua chegada na sala, para serem vendidos em feiras e mercados populares do Nordeste.

Diga a eles que o cordel surgiu no Brasil na segunda metade do século XIX (1850), trazido pelos portugueses e rapidamente expandiu-se da Bahia até o Pará (mostre no mapa), acompanhando as andanças dos seus autores, os migrantes nordestinos.

Ninguém sabe ao certo a origem do cordel. Alguns estudiosos dizem que ele já existia na Idade Média e era usado pelos trovadores europeus, que eram músicos que contavam histórias rimadas, acompanhadas de seus instrumentos. Outros acham que ele apareceu na Índia, com a tradição oral de contar histórias. Portanto, o cordel é um gênero literário popular que surgiu, primeiramente, em relatos orais e, só depois de certo tempo, passou a ser impresso em folhetos.

O tema tratado nos cordéis é sempre de interesse popular e a ilustração da capa é geralmente em xilogravura, muitas vezes feita pelos próprios poetas. Mas, a xilogravura é uma característica mais recente dos cordéis. De início, os folhetos traziam na capa apenas o título, a indicação de autoria e um ou outro adorno tipográfico. Na contracapa vinha o endereço do autor, que quase sempre era também o vendedor de seus próprios folhetos. Além disso, era comum também encontrar nela propagandas comerciais e de horóscopos e almanaques.

O cordel aborda muitos temas como os amorosos, os políticos, os religiosos; fatos marcantes, como enchentes e secas; a vida de figuras nacionais ou de tipos regionais. Na maioria das vezes, os versos carregam um tom jocoso, irônico, para fazer críticas sociais ou políticas. Geralmente, os autores utilizam-se também de imagens estereotipadas de personagens.

Os cordéis ficam à venda, dispostos “a cavalo” num barbante ou amontoados em cima de um caixote. O comprador chega, folheia, forma uma roda com outros interessados em torno do vendedor, que lê a história com muita habilidade, fazendo interrupções de suspense ou de grande emoção, para dar tempo ao publico de exprimir seus sentimentos, sua curiosidade, sua indignação. Assim, ele faz seu público rir ou chorar…

Há vários tamanhos de cordéis. Quando o folheto ultrapassa 32 páginas, recebe o nome de romance e, a partir de 64 páginas, vira livro de história.

O cordel pode ser dividido em quintilha (cinco versos), sextilha (seis versos), setilha (sete versos), quadrão (oito versos) e décima ou martelo (dez versos). A sextilha é a mais conhecida. É uma estrofe ou estância de seis versos de sete sílabas, sendo o segundo, o quarto e o sexto versos, rimados.

O cordel, expressão da poesia popular, vem sendo cada dia mais reconhecido no cenário literário brasileiro, tendo sido criada a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, em 1988.  Atualmente, inclusive, podem ser encontrados na internet alguns vídeos de animação de cordéis famosos.

Convide-os a assistir a um deles. É uma animação que se baseia no cordel “O Lobisomem e o coronel”, de Antonio Kelvisson Vianna de Lima. Trata-se de uma alegoria que conta a difícil vida de um sertanejo que convive com o coronelismo. Em uma realidade em que os animais são tratados como gente e os seres humanos tratados como animais, o lobisomem, figura meio homem, meio lobo, torna-se a vingança do nordestino faminto e sem terra contra o poder do Coronel.

A direção da animação é de Elvis Kleber e Ítalo Cajueiro. O roteiro é de Ítalo Cajueiro e a produção, da Petrobrás. Assista abaixo:

Terminada a projeção, faça um bate-bola sobre as impressões que ficaram. De que trata o vídeo? Como são caracterizados os personagens? Qual o contexto de vida apresentado? Todos têm vida parecida? Com quem está o poder? O que representa o lobisomem nesse contexto? Discuta com eles questões como a seca, as condições de trabalho no campo, as diferenças sociais, as crenças populares, a religiosidade do sertanejo, o mito, o lendário e a vinculação de críticas sociais e políticas.

A seguir, apresente a eles outro cordel, agora em folheto, com versos escritos: o romance “Pavão Misterioso”. Dê algumas explicações sobre ele e o tema de que trata para aguçar-lhes a curiosidade, motivando-os para a leitura.

“Pavão Misterioso” é um clássico dos cordéis. É denominado romance, porque é mais longo e mais complexo. Há uma polêmica sobre sua autoria: se de José Camelo de Melo Rezende ou de João Melquíades Ferreira da Silva. Encontram-se folhetos ora com o registro de uma autoria, ora de outra.

O romance em versosconta uma aventura, com raízes nos contos das Mil e uma Noites. É a história de Creuza, a moça mais bonita da Grécia, cujo pai, um poderoso conde, a mantinha trancada, desde a infância, no mais alto aposento do castelo. Uma vez ao ano, a moça aparecia por uma hora na janela, para o povo, que vinha de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega a Evangelista, moço muito rico que mora na Turquia, por meio do irmão que viajava pelo mundo e tirava fotos do que achava interessante e bonito para enviar-lhe. Evangelista se apaixona perdidamente pela jovem e parte em busca dela. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso –, a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades.

Você pode acessar o cordel no site Domínio Público, para providenciar cópias para sua turma.

Com base nessa história de cordel, o compositor cearense Ednardo compôs a música “Pavão Misterioso”, em 1976 e que faz sucesso até hoje na voz de Ney Matogrosso, do próprio Ednardo e, bem mais recentemente, da cantora Fernanda Takai.

Distribua as cópias do folheto e combine com eles que cada um lerá uma ou duas estrofes, dependendo do número de adolescentes ou jovens de seu grupo. Oriente para que leiam devagar, dando expressão aos versos e estejam sempre atentos à leitura dos colegas para que a leitura flua em sequência, sem perder o sentido.

Ao final, abra uma conversa sobre o que compreenderam da história e aprofunde o debate, problematizando os aspectos mágicos da história e sua relação com a vida do nordestino que o cordel revela.

Chame a atenção para o herói da história. Ele não é da Grécia, lugar onde a condessa mora, é estrangeiro, vem de longe, da Turquia, o que lhe dá uma aura de mistério e poder. Quanto mais distante de quem lê ou ouve a história for o personagem, mais se reveste de uma natureza mítica. Evangelista é um herói abastado, herdeiro de um viúvo capitalista, poderoso, diferentemente do homem comum. Pode mandar construir um objeto alado e pagar por isso. Pode passar um bom tempo sem trabalhar.

E o pavão, o que significa? É considerado um símbolo solar, da primavera, assim como da imortalidade e da totalidade, apesar de sua imagem estar associada à vaidade. Na mitologia greco-romana é um dos animais atribuídos à deusa Hera, protetora do casamento, da vida e da mulher.  Toda essa simbologia tem tudo a ver com a forma escolhida para o objeto alado de Evangelista que vai raptar a filha do conde feroz: proteção à vida, à beleza, à mulher.

Problematize com eles a relação descrita entre o pai e a filha, o cerceamento da liberdade da mulher, a submissão e a impossibilidade de escolha que a atira na aventura do desconhecido. Proponha que comparem com a situação da mulher hoje.

Quando o assunto se esgotar, para finalizar este primeiro momento da oficina, convide-os a cantarem, juntos, a bonita música que Ednardo compôs, a partir do cordel. Distribua cópias da letra para acompanharem e projete o vídeo de Fernanda Takai, disponível aqui.

Estimule que levem os cordéis pendurados para casa e pesquisem mais sobre o assunto, com
familiares, vizinhos e na internet (vide Fontes de Referência).

2º encontro: Agora, todos somos cordelistas.

Comece o encontro, perguntando se alguém consultou alguns dos sites indicados ou conversou com alguma pessoa com vivência de escutar ou escrever cordéis. Se sim, peça que conte o que mais descobriu, para o grupo.

E se?

Se ninguém da turma apresentar depoimentos, leia para eles algumas estrofes de um cordel com seis versos para aquecimento da escrita.

A seguir, proponha que se tornem cordelistas por uma hora. Organize os grupos e oriente para que escolham um tema (lembre-os de que os temas tratados no cordel são bastante variados) e produzam uma pequena história em versos, com três ou quatro estrofes de seis versos, a mais usada. Distribua folhas de papel jornal cortado no tamanho dos folhetos (para os versos) e lápis preto ou nanquim (para desenharem a primeira página, no estilo de uma xilogravura).  Depois de aproximadamente 60 minutos, abra a roda para cada grupo ler o seu cordel.  Montem um varal e deixem expostos os folhetos, por aproximadamente uma semana, para quem quiser levar para casa a fim de ler para seus familiares e vizinhos.

Hora de avaliar

Após a atividade, é hora de avaliar. Proponha que, em duplas, conversem sobre as impressões e aprendizagens do processo e as expressem por meio de uma estrofe de seis versos. O que aprenderam? Que sensações sentiram? O que o cordel despertou neles?

Para ampliar

O que mais pode ser feito?

Em parceria com o professor de Arte, os jovens poderão aprender a fazer xilogravuras para ilustrar os cordéis produzidos. Após a revisão dos textos, poderá ser organizada uma exposição na instituição, como nas feiras nordestinas, em que além dos cordéis expostos e disponibilizados nos varais, há quem cante os seus versos. As famílias poderão também oferecer umas comidinhas típicas.

A partir desse evento, poderá ser oferecida uma oficina realizada pelos próprios jovens, com a ajuda dos professores de Língua Portuguesa e de Arte para outras turmas da instituição ou para familiares e moradores da comunidade.

 

Para saber mais.

A história da literatura de cordel começa com o romanceiro da Renascença, quando se iniciou a publicação impressa de relatos tradicionalmente orais feitos pelos trovadores medievais.

A literatura de cordel chegou à Península Ibérica (Portugal e Espanha) por volta do século XVI, mas já existia desde o período greco-romano. Na Península, a literatura de cordel recebeu os nomes de “pliegos sueltos” (Espanha) e “folhas soltas” ou “volantes” (Portugal).

Foi introduzida no Brasil pelos colonizadores portugueses, na Bahia, então capital do país, e estendeu-se daí para todo o nordeste. Mas, é só na segunda metade do século XIX que começaram as impressões de folhetos brasileiros, com suas características próprias.

Os temas dos cordéis eram bem variados, como ainda o são hoje. Versejava-se sobre aventuras de cavalaria, narrativas de amor e sofrimento, histórias de animais, peripécias e diabruras de heróis, contos maravilhosos e uma infinidade de outros que a memória popular encarregou-se de preservar e transmitir.

O nome cordel tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas ou barbantes, em Portugal. Esse nome se manteve no Brasil, embora o folheto brasileiro pode ou não estar exposto em barbantes. De modo geral, os poemas são ilustrados com xilogravuras nas capas.

As estrofes podem ter número variado de versos, mas as mais utilizadas pelos cordelistas são as sextilhas ou estrofes de seis versos, com sete sílabas cada um (o segundo, o quarto e o sexto verso são rimados), estilo muito usado nas cantorias, usando o ritmo de baião.

Os autores declamam seus versos de forma melodiosa e cadenciada, às vezes acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

Leandro Gomes de Barros, nascido em Pombal, na Paraíba, a 19 de novembro de 1865, é considerado o pai da literatura de cordel no país. Embora tenha vivido apenas 55 anos, Leandro Gomes de Barros tem uma obra vasta, na qual se encontram poemas heroicos, novelescos e satíricos, que abordam temas sobre o cangaço, a seca, o sofrimento, a mulher, os mundos mágicos do dragão, da lua, das fadas.

Segundo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, fundada em 1988, Silvino Piruá de Lima de Patos, Pernambuco, foi, junto com Leandro Gomes de Barros, criador da literatura de folhetos que se conhece hoje e que é vendida principalmente em feiras.

O cordel é valorizado como expressão poética de alta significação por escritores do porte de Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, motivando (e continua a motivar) estudos e pesquisas nas áreas de Antropologia, Folclore, Linguística, Literatura, História, entre outras.

Fontes de Referência:

 Literatura de Cordel e Escola – Salto para o Futuro.

– Casa de Rui Barbosa.

– Associação Brasileira de Cordel.

– Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

– Site Educar para Crescer.

Gostou?

Então veja a oficina “Hoje tem poesia? Tem, sim senhor!”

 

Obs: Os links informados na oficina foram visitados em 20 de julho de 2015, às 16h50min.

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Total de 4 comentário(s)

  •    Francisco Albertino Gomes  em 
  •    Francisco Albertino Gomes  em 
  •    ESMERALDINA MOREIRA DOS REIS [ALMLEJA***20151]  em 
         Educação&Participação respondeu em 
  •    Estéfani Landin  em 
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