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Debate sobre manifestações racistas de torcedores em jogos de futebol.

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  • O que éO que é

    Debate sobre manifestações racistas de torcedores em jogos de futebol.

  • PúblicoPúblico

    Crianças, adolescentes e jovens.

  • MateriaisMateriais

    computador com acesso à internet, data show, mapa-múndi, giz colorido, folhas de papel pardo coladas formando um painel, folha para cartaz, filipetas de cartolina, pincéis atômicos, caixa de papelão sem fundo (TV).

  • EspaçoEspaço

    Na sala de atividades.

  • DuraçãoDuração

    Um encontro de 1h30.

  • FinalidadeFinalidade

    Tornar-se um ser humano melhor, consciente e solidário.

  • ExpectativaExpectativa

    Compreender que o preconceito contra o negro, como qualquer outro preconceito, tem razões históricas e está impregnado nas atitudes cotidianas dos brasileiros; empreender esforços para transformar essa situação.

Na prática

Prepare uma exposição de fotos de jogos de futebol, envolvendo os mais variados times nacionais e locais, em uma parede lateral da sala de atividades. Na outra parede, cole folhas de papel pardo para os estudantes comporem um painel, ao final da oficina.

Convide-os a formar uma roda e comece a atividade fazendo um levantamento dos clubes para os quais torcem e dos jogadores que admiram.

Pergunte se já foram assistir a algum jogo em estádio e, em caso afirmativo, peça para contarem ao grupo como foi a experiência: se gostaram, o que mais chamou a sua atenção, como as pessoas se distribuíam pelo espaço para assistir ao jogo, qual era a atitude das torcidas. É diferente assistir a um jogo no estádio e assistir a um jogo pela televisão? Por quê?

Coloque uma caixa com filipetas de cartolina em branco, no meio da roda. Peça para cada um retirar duas filipetas da caixa e escrever, em uma delas, o que mais os agrada quando assistem a um jogo de futebol; na outra filipeta, devem escrever o que mais os desagrada. Participe você também, escrevendo em uma filipeta um fato que lhe agrada e, na outra, um fato que lhe desagrada, neste caso, manifestações racistas.

Quando todos tiverem escrito suas filipetas, peça para que, um a um, leiam o que escreveram nas duas filipetas, começando pelo que gostam e, depois, pelo que não gostam.

Ao ler as filipetas, eles deverão separar as que registram o que mais gostam, pondo-as de um lado, no interior da roda. No outro lado, eles porão as filipetas que registram o que menos gostam. Leia as suas filipetas por último.

E se?

Se aparecer na roda, em alguma filipeta, o desagrado com comportamentos inadequados da torcida, pergunte se já presenciaram, em algum jogo, ao vivo ou televisionado, alguma manifestação de racismo contra jogadores negros. Peça para contarem como foi. Se não apresentarem essa questão, fale você sobre o assunto, ao ler as suas filipetas, referindo-se aos casos muito frequentes que vêm ocorrendo nos estádios de futebol.

Deixe que falem livremente sobre o assunto. Se fizerem referências a fatos concretos, relacione os casos em um cartaz.

Recolha as filipetas e em seguida projete para eles dois pequenos vídeos que abordam um caso de manifestação de racismo contra o brasileiro Everton Luiz, jogador do Partizan de Belgrado (capital da Sérvia), contra o Rad Beograd, na Sérvia, em fevereiro de 2017.

1º vídeo:  Jogador brasileiro é vítima de racismo na Sérvia e partida vira briga generalizada. 20/2/2017.

2º vídeo: Vítima de racismo na Sérvia, brasileiro critica rivais: “Não pediram para parar” 20/2/2017.

O primeiro vídeo, do noticiário brasileiro da TV Globonews, veicula a notícia do acontecimento, quando Everton Luiz teve de lidar, durante a partida, com gritos da torcida imitando macacos, além de faixas com cunho racista. O segundo vídeo é do programa esportivo Sportv e apresenta uma entrevista com o jogador sobre o acontecido.

Após a projeção dos dois vídeos, abra para comentários: como veem a atitude dos jogadores adversários? E do juiz? Dos torcedores? Do jogador ofendido? Que sentimentos a situação despertou no jogador, segundo o depoimento que deu para a imprensa? Houve algum encaminhamento por parte das autoridades? Que medidas acham que deveriam ser tomadas, nesses casos?

E se?

Se alguém sugerir uma punição fora da lei, para os agressores, intervenha. A indignação que as manifestações de racismo provocam em nós deve gerar justiça e não violência. Existem leis no futebol e na sociedade que devem ser seguidas para punir os agressores. Pela Constituição Brasileira, a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei (artigo 5º).

Esclareça que o caso em questão é um dos inúmeros acontecimentos de discriminação e humilhação que jogadores negros vêm sofrendo no mundo inteiro e que tal atitude reflete forte preconceito por parte da sociedade em geral. Na verdade, essas atitudes preconceituosas circulam por todas as relações sociais do dia a dia com os cidadãos negros, refletindo-se, portanto, também no futebol. Elas só são “invisíveis” para quem não quer ver.

Para que conheçam outros casos do que tem se tornado comum nos campos de futebol do mundo inteiro, apresente pelo menos 10 situações vividas por jogadores de vários locais do mundo que sofreram manifestações racistas no futebol na última década (2010). Essas situações estão entre aquelas que foram bastante noticiadas na mídia, porém muitas outras semelhantes a elas não o foram.

Apresente o site de esporte abaixo, do jornal O Globo, com a reportagem “Dez casos de racismo que envergonham o futebol”, que veicula esses casos de forma clara e sintética.

Oriente a formação de duplas que deverão ler os dez casos, anotando os seguintes dados em relação a cada um:

  • o lugar onde aconteceu;
  • a nacionalidade do jogador.

Para facilitar o preenchimento, você pode distribuir a tabela anexa para os integrantes da oficina. Dê aproximadamente 20 minutos para a leitura.

Em seguida, peça a alguns voluntários para, com sua ajuda, particularmente as crianças, localizarem no mapa-múndi exposto na sala os países onde os fatos aconteceram, cobrindo-os com giz de cor, para terem um panorama georreferenciado dos 10 fatos mencionados.

E se?

Se na roda inicial fizeram referência a outros casos que você relacionou no cartaz, acrescente a localização no mapa.

Agora, oriente que se organizem em cinco grupos e discutam, a seguir, as questões abaixo:

– o que veem de comum nos dez casos apresentados?

– os lugares onde aconteceram são próximos?

– há registro de algum caso no Brasil? Onde?

– podemos dizer que no Brasil não há racismo?

Os grupos deverão escolher um ou mais relatores para a socialização com o coletivo.

A socialização será feita simulando um programa de TV, que será como quiserem:

  • uma entrevista, com entrevistador e entrevistado(s);
  • uma mesa-redonda de especialistas e/ou torcedores;
  • apenas um comentarista ou dois comentaristas apresentando as ideias que foram veiculadas no grupo;
  • outras situações.

Terminado o tempo combinado, coloque a caixa de papelão (TV) sobre uma mesa e convide os relatores a exporem os posicionamentos dos grupos.

Finalizando, apresente a eles o que pensa sobre a questão do jogador Tinga, que já sofreu discriminação em campo. Seu bonito depoimento é veiculado no site YouTube e nele o jogador diz que trocaria de bom grado os títulos que já ganhou por um título só: Fim do preconceito e igualdade para todos, em todos os lugares, em todas as áreas, em todas as classes sociais.

 


Agora é com você: o que mudaria no desenvolvimento da atividade?

Envie o seu relato nos comentários desta oficina

 



Hora de avaliar

Para avaliar a oficina, convide-os a registrarem as aprendizagens que realizaram com as atividades do dia, escrevendo ou desenhando no painel exposto na parede.

Fontes de Referência:

Livro:

 RODRIGUES FILHO, Mario, “O Negro no Futebol Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora Mauad, 2015.

Sites:

– Observatório Racial do Futebol: Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2015:

http://observatorioracialfutebol.com.br/Relatorios/2015/RELATORIO_DISCRIMINCACAO_RACIAL_2015.pdf

– Observatório Racial do Futebol: Entrevista com Salvador Moya:

http://observatorioracialfutebol.com.br/entrevistas/salvador-moya/

– Scielo em perspectiva: Preconceito como manutenção das desigualdades: estudos de raça/etnia no Brasil:

http://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/03/19/preconceito-como-manutencao-das-desigualdades-estudos-de-racaetnia-no-brasil/


Agora é com você:
Mande suas sugestões para avaliar, nos comentários desta oficina


 

Para ampliar

O que mais pode ser feito?

Uma exposição de fotos na instituição, montada por eles, a partir da oficina, com projeção de vídeos e aberta à comunidade.

A organização de uma caminhada pela paz no futebol e contra o preconceito, nas proximidades da instituição.

 


Agora é com você: o que mais faria?
Publique suas sugestões nos comentários desta oficina


Fontes de Referência:

Livro:

 RODRIGUES FILHO, Mario, “O Negro no Futebol Brasileiro”, Rio de Janeiro, Editora Mauad, 2015.

Sites:

Observatório Racial do Futebol: Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2015

Observatório Racial do Futebol: Entrevista com Salvador Moya

Scielo em perspectiva: Preconceito como manutenção das desigualdades: estudos de raça/etnia no Brasil


Para saber mais

Xingamentos e gestos ofensivos a jogadores negros, em partidas de futebol, são manifestações racistas que se tornam cada vez mais frequentes pelo mundo.

Revelam a absurda ideia de superioridade de uns seres humanos sobre outros, pensamento autoritário, próprio de quem tem o poder, domina, coloniza. No Brasil, essa herança do europeu branco, autoritário e escravagista, está presente em todas as relações sociais e, portanto, também nas partidas de futebol.

Sem dúvida, não somos tão diferentes dos europeus nesses assuntos. Especialmente no Brasil e na América Latina, futebol e racismo possuem uma longa e intrincada história, fruto da internacionalização e popularização do esporte, ao longo do século XX.

O futebol no Brasil foi introduzido por Charles Miller, filho de um escocês que veio ao Brasil para trabalhar na São Paulo Railway Company (Companhia Ferroviária de São Paulo).

Nessa época, havia um grande impulso à construção de ferrovias no país, em função da necessidade de transportar o café, principal produção da lavoura cafeeira, do interior para o litoral, a fim exportá-lo para outros países. E os ingleses tinham muito conhecimento dessa engenharia.

Charles Miller fez seus estudos na Inglaterra e na década de 1890 retornou ao Brasil, para também trabalhar na São Paulo Railway, tornando-se também correspondente da Coroa Britânica e vice-cônsul inglês, em 1904. No período em que viveu na Inglaterra, apaixonou-se pelo futebol, esporte em voga no país, divulgando-o no Brasil, após seu retorno.
O futebol passou, então, a ser praticado em nosso país, mas apenas por pessoas da elite, em clubes de elite, como seu criador, e por engenheiros e técnicos ingleses que cuidavam das obras das ferrovias no Brasil.

Entretanto, os demais cidadãos, pobres e negros, não eram aceitos nos grandes clubes. Segundo citação do sociólogo Mauricio Murad, no 2º Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol Brasileiro – Ano 2015, do Observatório Racial no Futebol:

“Uma longa e profunda herança colonialista e escravista pesava ainda nas nossas estruturas sociais, nas nossas instituições, e o futebol absorveu, diretamente e indiretamente, essas influências. Por isso foi, durante os primeiros tempos, elitista, racista e excludente, reproduzindo constantes estruturais de nossa formação, como a concentração e a exclusão. O racismo foi um dos traços mais pregnantes das conjunturas iniciais do futebol brasileiro. Um racismo acoplado a um elitismo social e cultural flagrantes na concentração de rendas, de poder e de oportunidades”.

A Associação Atlética Ponte Preta foi o primeiro clube a ter cidadãos negros em seus quadros, desde a fundação do time, em 1900, como Benedito Aranha, por exemplo, que fez parte da primeira diretoria alvinegra. O Vasco da Gama foi outro clube que em 1904 elegeu um presidente mulato, Cândido José de Araújo.

Mas, foi o Bangu Atlético Clube, então chamado “The Bangu Athletic Club”, o primeiro a escalar um jogador negro, Francisco Carregal, para jogar, em 1905.

Como reação a essa iniciativa do clube, a Liga Metropolitana de Futebol proibiu o registro de “pessoas de cor” como atletas amadores de futebol. O Bangu, então, optou por abandonar a Liga e não disputar o campeonato carioca.
Outra inovação do Bangu foi misturar os torcedores nos jogos, uma vez que até então os pobres assistiam às partidas em locais separados dos demais. Desta forma, os torcedores passaram a acompanhar, juntos, uma partida, sem distinção de classe ou cor de pele.

Nova ofensiva ocorreu em 1917, quando o Diário Oficial do Rio de Janeiro divulgou a Lei do Amadorismo, que dizia:
“Não poderão ser registrados os que tirem os meios de subsistência de profissão braçal […] Aqueles que exerçam profissão humilhante que lhes permitam recebimento de gorjetas, os analfabetos e os que embora tendo profissão estejam, a juízo do Conselho Superior, abaixo do nível moral exigido”.

Nesse processo, entremeado de avanços e retrocessos, surgiu o primeiro grande ídolo brasileiro no futebol: Arthur Friedenreich, um mulato, filho de um alemão e uma brasileira negra. Foi o maior jogador brasileiro, na época do futebol amador, tendo sido seu o gol que daria o primeiro título à Seleção Brasileira, o sul-americano de 1919.

Mesmo assim, em 1921, o então Presidente da República, Epitácio Pessoa, reuniu-se com diretores da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para pedir que apenas jogadores de pele mais clara e cabelos lisos fossem convocados.
Para fazer frente às constantes discriminações aos negros, foram organizadas as Ligas Negras: a Liga Suburbana de Futebol, (Rio de Janeiro); a Liga Nacional de FootBall Porto Alegrense (pejorativamente conhecida como Liga da Canela Preta – Rio Grande do Sul) e a Liga Brasileira de Desportos Terrestres (pejorativamente chamada de Liga dos Pretinhos – Bahia). Essas ligas se tornaram espaços de resistência e luta no enfrentamento à discriminação racial.
O Vasco da Gama entrou para a história ao adotar uma atitude que contribuiu decisivamente para a inclusão, no futebol, de atletas negros, mulatos e demais brasileiros que não pertenciam à elite. Jogou no campeonato carioca de 1923, ano de estreia na primeira divisão, com um time formado quase que inteiramente por jogadores negros, sofrendo vários revezes, em consequência.

A história do racismo no futebol brasileiro é reflexo do racismo existente na sociedade e tem a mesma raiz – os 400 anos de escravidão que marcaram a exploração e marginalização dos negros e que se arrastam até os dias de hoje, apesar da aguerrida luta do movimento negro contra a discriminação.

Cabe ressaltar que além da discriminação aos jogadores negros, não se vislumbram técnicos, dirigentes, conselheiros e diretores negros nos clubes brasileiros, assim como jornalistas nos veículos de comunicação de esporte, o que também sucede em outras áreas. Por quê?

No cenário internacional também se observam atos de racismo nos campos, particularmente no leste europeu, na Rússia e na Ucrânia, onde é mais forte.

Para o estudioso do racismo no futebol há 12 anos, Salvador Rodrigues Moya, jornalista espanhol e doutor em Humanidades pela Universidade de Almeria, há uma diferença entre o futebol europeu e o futebol sul-americano. Segundo ele:“Na Espanha existem sistemas de monitoramento para cuidar dos casos de racismo, xenofobia e violência; a TV ajuda a detectar os infratores. Já na América Latina há menos punições, a polícia é menos forte e, em muitos casos, tem medo dos “barras bravas” (torcidas organizadas). Algumas ações dos “barras bravas”, na América do Sul, intimidam até mesmo a polícia, o judiciário e as federações”.

Gostou?

Veja também as oficinas deste banco: “Qual boneca você prefere?” e “Cor e Preconceito no Brasil”.

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