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Temáticas da educação integral

Itabira: território, poesias e brincadeiras da educação integral

“No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.” Assim inicia o poema que apresentou Carlos Drummond de Andrade ao público – e que é certamente uma de suas obras mais conhecidas. O que muitos ainda não sabem é que o início desse caminho se deu em Itabira (MG), sua cidade natal. 114 anos após o nascimento de Drummond, o município continua a ser cenário de inspiração. Lá, educadores também traçam seus caminhos na busca de uma educação integral para crianças e adolescentes do Ensino Fundamental do município. Nessa reportagem especial, vamos mostrar como a educação integral em Itabira perpassa por diversos elementos que vão além da poesia drummondiana, trabalhando também com questões ambientais e de ludicidade, corpo e movimento. Seta para baixo

Atrás do grupo-escolar ficam as jabuticabeiras.
Estudar, a gente estuda. Mas depois,
ei pessoal: furtar jabuticaba.
Jabuticaba chupa-se no pé.

O furto exaure-se no ato de furtar.
Consciência mais leve do que asa
ao descer,
volto de mãos vazias para casa.

(Fruta-Furto, Carlos Drummond de Andrade)

O grupo-escolar citado pelo poeta é a Escola Municipal Coronel José Batista, situada em frente à Praça do Centenário, em Itabira. Foi lá que Drummond cursou as séries iniciais. Hoje, assim como a escola, os pés de jabuticabeiras ainda resistem ao tempo e às crianças que volta e meia colhem seus frutos.

Em frente ao seu portão, consta uma placa de ferro com o poema referente à escola. A placa é uma das 44 distribuídas em diferentes pontos da cidade, identificando os locais citados nos poemas. Todas elas fazem parte do Museu de Território Caminhos Drummondianos, uma espécie de museu a céu aberto inaugurado em 1997.

O ponto poético em frente à escola foi um dos dez escolhidos por um grupo de professoras que percorreu o centro de Itabira para declamar as poesias de Drummond e refletir sobre sua obra e a relação que ela tem com a cidade.

“Drummond é Itabira, Drummond é um pouco da gente, nós somos um pouco de Drummond. Desde criança eu sinto um orgulho de falar que eu sou de Itabira e que Drummond é de Itabira. É como se fôssemos parentes.”
(Luana Alves Ferreira, professora do município de Itabira)

Veja a entrevista completa:

https://www.youtube.com/watch?v=BmVKLzPvUCE

Caminhando pelas poesias de Drummond

A atividade, chamada de Trilha Poética e que fez parte da formação de educação integral, no eixo de Arte e Cultura, desenvolvida pela Assessoria às Políticas de Educação Integral, foi realizada na quinta-feira do dia 6 de outubro e começou pela Casa do Braz, passando pelo Largo Batistinha, Casa dos Camilos, Beco do Calvário, Casa do Mestre Emílio, Hotel de Itabira, Beco do Caixão, Coronel José Batista, Museu de Ferro e, finalmente, na Casa de Drummond.

Veja o caminho traçado pelas professoras no mapa abaixo:

Durante a caminhada, as professoras puderam declamar as poesias e trocar as histórias que os versos trazem. Uma delas está no poema “O Coqueiro do Batistinha”. José Batista da Costa Filho, o Batistinha, era um comerciante culto e espirituoso e herdou do pai, o Coronel José Baptista Martins da Costa, um casarão onde moravam e onde funcionava sua “Loja das Palmeiras”.

O casarão foi destruído por um incêndio, no ano de 1996. No terreno onde é hoje o Largo do Batistinha, localizava-se o coqueiro relatado no poema.

 

E agora José? e os causos de Itabira

E agora José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora? 

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

(José, Carlos Drummond de Andrade)


Depois do poema “No meio do caminho”, talvez “José” seja o mais conhecido de Drummond. Contudo, o que muita gente não sabe é o que está por trás desse poema.

De acordo com as educadoras de Itabira, José era o irmão de Drummond e seu relacionamento com Lili, uma jovem oriunda de uma das famílias mais importantes da cidade, inspirou o poeta a escrever tal poema. Conheça uma das versões da história:

Paredão: o que divide Itabira?

Uma cidade toda paredão
Paredão em volta das casas.
Em volta, paredão, das almas.
O paredão dos precipícios.
O paredão familiar.

Ruas feitas de paredão.
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão.

Paredão de umidade e sombra,
sem uma fresta para a vida.
A canivete perfurá-lo,
a unha, a dente, a bofetão?

Se do outro lado existe apenas
outro, mais outro, paredão?

(O paredão, Carlos Drummond de Andrade)

Além dos causos cotidianos de Itabira, a questão social e política também fez parte das reflexões. O paredão que divide pobres dos ricos, negros de brancos, ainda existe em Itabira.

“Falar de Drummond é muito fácil porque além de ele ser meu conterrâneo, ele conseguiu descrever o cenário de Itabira. Não só o cenário poético, mas as sombras que Itabira traz, os paredões que Itabira traz.”
(Marinete Nunes, professora do município de Itabira)

Assista à entrevista completa:

Poesia cantada

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.

Eu não vi o mar. Eu vi a lagoa…

(Lagoa, Carlos Drummond de Andrade)

A música também fez parte da Trilha Poética. Ao final da caminhada, o grupo citou algumas das poesias que foram musicalizadas. Uma delas, “A Lagoa”, foi transformada em canção por um morador de Itabira e ganhou uma versão cantada por uma das professoras. Assista:

 

Os versos e a educação integral

Com base na poesia, as professoras exploraram novos olhares, novas linguagens e elementos. Tanto uma análise sobre as transformações do território como a contação de histórias e a música estiveram presentes durante a Trilha Poética.

“Hoje nós fizemos uma Trilha Poética. À medida que a gente caminhava, a gente compartilhava saberes: os saberes de Drummond, por meio de suas poesias, e os ‘causos’ que não estão escritos, a memória de um povo que foi compartilhada”, afirma Luana.

A atividade fez parte do quarto encontro de formação sobre Arte e Cultura com os educadores de Itabira. De acordo com Camila Arelaro Caetano, educadora do Cenpec e responsável por essa formação, “o grande objetivo dessa formação é fazer uma conexão entre o território, a cultura e arte e o patrimônio da cidade, mostrar como tudo isso pode compor a nova prática dessas educadoras na implementação da educação integral no município”.


“Eu sou uma apaixonada pela educação integral. Só a educação integral é capaz de transformar a sociedade. O aluno não para de aprender quando acaba a aula.

A educação integral contempla o ser humano em sua totalidade. Venho trazendo por meio da arte meios de provocar os professores mais resistentes a transformar a sua prática em uma prática interdisciplinar na qual a escola é um centro de troca de conhecimento, integrado com a comunidade e que dialoga fundamentalmente com os pais.”

(Camila Arelaro Caetano, educadora do Cenpec e responsável pela formação em Arte e Cultura)


Assista à entrevista completa:

Imagens da Trilha Poética

Meio ambiente e as transformações do território de Itabira

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(Confidência do Itabirano, Carlos Drummond de Andrade)

Itabira, como descreve Drummond nesse poema, é também – como muitas outras cidades de Minas Gerais – um território da mineração. A “pedra de ferro, futuro aço do Brasil” começou a ser explorada no século XVIII e a atividade permanece até hoje.

Pensar em Itabira, para além da poesia, é refletir sobre seu território. Território este que vem sofrendo profundas transformações ambientais, oriundas, principalmente, do intenso processo de atividades extrativas minerais. O horizonte já não é o mesmo.

A imagem mostra o horizonte de Itabira e, em primeiro plano, uma foto antiga com o mesmo horizonte. A diferença entre o agora e o passado é que o morro presente na foto antiga já não existe mais por causa da exploração de minério no local.
A imagem mostra o horizonte de Itabira e, em primeiro plano, uma foto antiga com o mesmo horizonte. A diferença entre o passado e o presente é que o morro da foto antiga já não existe mais por causa da exploração de minério no local.
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"Os impactos ambientais em nosso território são visíveis, a nossa cidade é uma cidade mineradora, toda a economia e grande parte dos empregos giram em torno dessa atividade, que é altamente poluidora e que traz grandes impactos. As pessoas têm que saber da importância dessa atividade, mas que nem por isso deve-se degradar e retirar os recursos de que precisamos para sobreviver."
(Juliana Madureira da Silva, professora do município de Itabira)

Diante dessas mudanças, refletir sobre o território, o meio ambiente e a sua relação com a educação integral foi o objetivo do segundo tema de formação da Assessoria às Políticas de Educação Integral, cujo 4º encontro também aconteceu nos dias 6 e 7 de outubro em Itabira.

Para Edward Julio Zvingila, formador do eixo meio ambiente e sustentabilidade, muito mais do que pontuar o que deve ser feito em prol do meio ambiente, o intuito foi mostrar que o compromisso com a sustentabilidade e o meio ambiente é um compromisso ético.


“Não é dizer ao aluno que ele precisa apagar a luz para economizar energia, mas sim analisar o motivo pelo qual é preciso economizar e mostrar os impactos ao meio ambiente, à população e ao nosso presente e futuro que a escolha de não economizar energia traz, por exemplo”, explica Edward Julio Zvingila.


“A partir dessa formação, percebo que é preciso pensar não apenas no meio ambiente como se fosse um tema isolado, mas também ver que isso tem a ver com a minha vida, meu lugar, eu mesma. Temos que ajudar as crianças a refletir sobre o que elas estão fazendo, no meio que elas estão, na própria vida delas. Na minha época o pensamento era ‘destruir para construir’. Agora temos que pensar em como diminuir [os impactos]”, diz Maria Geralda da Cunha, professora e uma das participantes da formação.

De acordo com a professora Juliana Madureira da Silva, outra participante da formação, “O curso é excelente, tem quebrado alguns mitos sobre a questão ambiental e deixa claro que a questão ambiental e da sustentabilidade é muito mais do que uma questão de cuidado, de marketing, ela é uma questão ética, de sobrevivência. Aprendi nessa formação que não posso mudar todas as pessoas, que o meu trabalho não vai mudar todo o planeta, mas ele vai fazer a diferença. Na sala de aula, quando eu mostro aos meus alunos a questão do respeito com o próximo e com o meio, eles têm uma resposta positiva”, diz.

Para ela, falar de meio ambiente é falar de educação integral. “Essa questão ambiental tem tudo a ver com a educação integral porque a educação integral não se baseia apenas em aumentar as aulas de estudo, mas contribui para o amplo desenvolvimento da pessoa. Ela não visa à formação conteudista do aluno, mas desenvolver a criança para que ela […] contribua para um mundo melhor.”

Assista ao vídeo com a entrevista completa:

 

Imagens da formação Meio Ambiente e Sustentabilidade

A cidade, o lúdico, o corpo e o movimento


Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.”
(Carlos Drummond de Andrade)


A arte expressada pela poesia e o território em constante transformação são dois elementos que podem inspirar a prática do educador: como instigar seus alunos, contribuir para a sua aprendizagem para além das fileiras das salas de aula, como cita Drummond?

Buscando promover novas estratégias de aprendizagem e mostrar que na brincadeira também se aprende, educadores sociais e professores do Ensino Fundamental de Itabira participaram do 4º encontro de formação Ludicidade, Corpo e Movimento.

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Participantes brincam de pega-pega durante formação

“Essa formação é muito importante. Às vezes o menino não consegue aprender com a técnica da dança de rua e então eu acabo usando a ludicidade, as brincadeiras que são passadas na formação, colocando-as no meu planejamento para trabalhar nas minhas oficinas”, diz Wallyson Túlio Rodrigues, educador social do município de Itabira.

Assista à entrevista completa:

 

Durante a formação, os participantes não só ampliaram o seu repertório como também puderam experimentar diversas brincadeiras e, assim, aprender com elas.

“Nessa formação, estamos nos aperfeiçoando em busca do brincar. O brincar faz parte da educação, tanto do adulto como da criança. Tem-se o lema ‘brincar para aprender, para aprender brincando’. Isso significa que brincando a gente aprende mais”, explica.

A brincadeira e o desenvolvimento

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"A brincadeira entra no contexto de formação como uma das produções infantis, como algo que as crianças têm competência para produzir. Nesse sentido, o educador deve não só observar, mas também favorecer e orientar a brincadeira. A criança é criança porque ela brinca e isso faz parte de seu desenvolvimento. Então a escola precisa organizar seu tempo e espaço de forma que essa experiência infantil esteja presente no cotidiano."
(Ana Maria Leite, educadora responsável pela formação Ludicidade, Corpo e Movimento)

A educação integral e a brincadeira

Para Ana Maria Leite, a criança traz consigo e demonstra em suas brincadeiras toda sua bagagem cultural, que tem a ver com o meio em que ela vive, a família à qual pertence, e situações, inclusive de letramento, que vivenciam. 


“Quando o educador se presta a olhar essa bagagem e a considerar essa bagagem quando prepara o modo como essas crianças vão aprender, a tendência é que esse processo educativo flua melhor. É como se o educador não fizesse para as crianças, mas sim junto a elas.”
(Ana Maria Leite)


Para ela, a educação integral nos convida a olhar para as relações, já que a criança que está em uma escola em tempo integral está vivendo coletivamente praticamente o dia todo.

“Se favorecer uma educação integral é mais do que ampliar uma jornada, humanizar as relações, a relação professor-aluno, criança-criança, é a premissa. Queremos uma criança cidadã e para isso ela tem que se relacionar. Aprender a se relacionar é se relacionar. E é na brincadeira que a criança tem muito a experimentar essas relações”, conta.

Assista à entrevista completa:

 

Brincar e se relacionar

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"É importante trabalhar as relações não apenas em um sentido comportamental, mas no sentido de as crianças representarem um papel de atuação dentro da brincadeira. Se ele é um pegador, qual o papel do pegador? Qual a meta do pegador? Como ele deve pegar? Empurrando ou encostando na pessoa? A brincadeira é um lugar protegido para as crianças fazerem suas brincadeiras construindo as suas relações."
(Ana Maria Leite)

Imagens da formação Ludicidade, Corpo e Movimento

Créditos

Texto, fotos e vídeos Thais Iervolino
Edição de vídeo e imagem de capa Thiago Luis de Jesus e Suélio Silva

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Total de 3 comentário(s)

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