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Temáticas da educação integral

Juventude, expressão e participação

Ao apresentar novas concepções culturais, sociais e políticas, a juventude faz uma provocação à sociedade quanto aos desafios do presente diante dos caminhos para o futuro – e propõe diferentes formas de ver, entender e se relacionar com a vida. Por meio de estudos, análises de especialistas e, principalmente, da voz do jovem, esta Temática busca apresentar questões da juventude e refletir sobre a importância da participação dos jovens na construção da educação e do mundo. Seta para baixo

O que os jovens querem aprender?

Na educação, um dos maiores desafios da atualidade é saber como adaptar as práticas pedagógicas a essas novas expressões, identidades e ritmos da cultura jovem. Para que uma educação mais participativa e integral possa ser construída, é fundamental não só adequar conteúdos, mas também envolver os próprios sujeitos na construção dos saberes, considerando os que eles já trazem consigo.

Na busca por respostas, a plataforma Educação&Participação ouviu alguns jovens para saber quais suas percepções sobre sua educação e como alcançar propostas que estimulem de maneira mais plena, interessante e participativa a nossa nova geração.

Jovens, juventudes

A juventude, para a maioria das pessoas, é sinônimo de transição. Época de experimentações e definições sobre a própria pessoa, seus interesses, projetos e relações com o mundo ao redor. Momento de transformação pessoal com perspectivas de mudanças sociais para o futuro.

Mas, afinal, há algo específico que determine a experiência da juventude? Existe de fato um limite entre o momento em que ela se inicia e termina? O que é exatamente juventude? 

La juventud en Iberoamérica: tendencias y urgencia. Acesse aqui o documento.
La juventud en Iberoamérica: tendencias y urgencias. Acesse aqui o documento.

A definição de uma faixa etária da juventude é controversa. Segundo o Estatuto da Juventude do Brasil, é jovem no país todo cidadão com idade entre 15 e 29 anos. Já a Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que juventude é a fase entre 15 e 24 anos.

A própria ONU, no relatório La juventud en Iberoamérica: tendencias y urgencias, publicado em 2004, afirma que é impossível haver uma definição concreta e estável sobre o significado da juventude.

“Cada época e sociedade impõem a essa etapa da vida fronteiras culturais e sociais que definem determinadas tarefas e limitações a esse grupo da população”, diz o documento.

“Ainda que não haja apenas uma juventude, mas várias, a ideia da juventude relaciona-se às transformações, ela representa o futuro em uma perspectiva de formação de valores e atitudes das novas gerações”

(SPOSITO; CARRANO, 2003, p. 17)

O jovem e seu tempo

Esse novo que chega compete, inevitavelmente, com o presente, com as gerações passadas.

Como descreve o sociólogo Pierre Bourdieu (1978), “aquilo que para uma geração 1 foi uma conquista de toda uma vida é dado imediatamente à geração 2. […] a velhice também é um declínio social, uma perda de poder social. Os velhos são contra tudo aquilo que muda, tudo aquilo que move etc. justamente porque eles deixaram o futuro para trás, enquanto jovens se definem como tendo futuro, como definindo o futuro”.

Assim, fica mais fácil entender certas expressões ditas por aqueles que já não são jovens, como “na minha época era diferente”, “o jovem já não é o mesmo” etc. Há uma disputa de poder social: nada é o mesmo porque os adultos já não são mais jovens, já não representam o futuro nem uma esperança de mudança e mostram-se ameaçados pelo novo.

 


Marcos conceituais e metodológicos - Jovens Urbanos
Marcos conceituais e metodológicos – Jovens Urbanos

Programa Jovens Urbanos, na publicação Marcos conceituais e metodológicos, parte de teorias que concebem a juventude em sua pluralidade, logo utilizam a expressão “juventudes”. “Diante dessa multiplicidade de significados, interpretações e debates que moldam o conceito juventude, é cada vez mais comum encontrarmos a reivindicação do uso do termo juventudes, que anuncia a necessidade de construir definições que reflitam a variedade de maneiras de viver e perceber a condição juvenil, incorporem a diversidade da realidade dos jovens e se formem a partir da sobreposição das dimensões individuais, sociais, culturais, políticas, econômicas”, descreve o documento.


 

Jovem: consumidor ou cidadão?

É justamente pela imagem do novo, do futuro dada pela juventude, que o cenário da sociedade brasileira hoje é composto, principalmente, de jovens.

Como analisa  Maria Rita Kehl em seu texto intitulado “Adultescência” (1998), ao contrário dos anos 1930, quando Nelson Rodrigues em uma crônica descreveu que “os moços não tinham função, nem destino. A época não suportava a mocidade”, no Brasil de hoje somos todos jovens: pessoas de 40 anos, a partir dos anos 1990, têm a aparência e a vitalidade que tinham pessoas de 25 três gerações atrás.

A grande questão da supervalorização da juventude é que, muito mais do que um sinal de que realmente os jovens vêm ganhando espaços e direitos em nossa sociedade, a escolha pela juventude é fruto do consumo. “Ser jovem virou slogan, virou clichê publicitário, virou imperativo categórico – condição para se pertencer a uma certa elite atualizada e vitoriosa. Ao mesmo tempo, a ‘juventude’ se revelava um poderosíssimo exército de consumidores, livres dos freios morais e religiosos que regulavam a relação do corpo com os prazeres”, escreve Kehl.

Dessa forma, segundo a autora, quanto mais tempo uma pessoa for considerada jovem, melhor. Melhor para a indústria, para a publicidade. Ser jovem na contemporaneidade é ser consumidor e não um cidadão, um sujeito de direitos.

 

Jovens têm sido moldados por adultos de forma que se tornem receptores passivos do mercado, dos programas sociais e das políticas públicas voltadas a eles, uma vez que representam mais claramente, como analisado por Bourdieu (1978), uma disputa de poder social entre o passado e o futuro.

Adam Fletcher, educador americano e fundador do Projeto Freechild, uma das principais organizações voltadas para práticas de engajamento e participação juvenil, defende a ideia de que é preciso parar de entender os jovens como incapazes de realizar suas próprias escolhas e de praticar o que ele chama de “adultismo”, que é tratar o jovem pela visão do adulto.

Para quebrar o paradigma de colocar o jovem como alvo de políticas públicas pensadas por adultos, com o objetivo de serem apenas consumidores de produtos ou de ações feitas por políticas públicas ou por organizações sociais, Adam Fletcher alerta para uma mudança do modo como a sociedade atua:

“A sociedade precisa parar de fazer as coisas para os jovens e fazê-las com os jovens”

Resultado do trabalho de participação com jovens, Adam Fletcher e o Projeto Freechild organizaram diversas atividades de grupo na publicação Participação juvenil: guia de oficinas.

Guia de Participação Juvenil - Adam Fletcher
Participação juvenil: guia de oficinas – Adam Fletcher

O guia apresenta 24 oficinas que buscam ajudar grupos de aprendizagem a explorar diferentes aspectos do engajamento da juventude. Todos os exercícios são interativos e focados em aplicações práticas. As atividades são projetadas para alunos de todas as idades, incluindo grupos exclusivos de jovens e exclusivos de adultos. Há também uma grande introdução sobre como facilitar oficinas de engajamento dos jovens, bem como instruções detalhadas para realizar cada oficina.

Juventudes, seus direitos e conquistas

As diferentes visões sobre a juventude e seu papel na sociedade são resultado não apenas dos conflitos geracionais presentes na sociedade a cada época, mas também reflexo das construções simbólicas que as políticas institucionais criaram em torno desse grupo ao longo do tempo.

As políticas públicas, nesse sentido, ao mesmo tempo que revelam percepções sobre os jovens na sociedade, também conformam e moldam novas representações da juventude, de acordo com as especificidades de cada contexto. Segundo Marília Pontes Sposito e Paulo César Rodrigues Carrano no artigo “Juventude e políticas públicas no Brasil“, “as políticas públicas de juventude não seriam apenas o retrato passivo de formas dominantes de conceber a condição juvenil, mas poderiam agir, ativamente, na produção de novas representações”.

Entender o processo de representação da juventude ao longo de nossa história recente torna-se fundamental para compreender a conformação de novas políticas que colocam o jovem como sujeito capaz de refletir e agir sobre a própria história.

Entenda os progressos e desafios dos direitos da juventude na linha do tempo a seguir.

Linha do tempo – trajetória das políticas públicas para os jovens

Jovem como protagonista de sua história

Desde 1985, quando a ONU estabelece o Ano Internacional da Juventude, um outro olhar para os jovens começa a ser construído no mundo: a juventude passa a ser reconhecida como um grupo de características e necessidades específicas.

Esse movimento de reconhecimento de direitos é resultado de crescentes mobilizações de organizações da sociedade civil pela ampliação de direitos sociais específicos da juventude, corresponde a um desejo global por concepções que entendam o jovem como partícipe da vida pública e aponta para necessidade de mudança na relação do Estado e da sociedade com a juventude.

No Brasil, a construção de políticas públicas de juventude também faz parte do histórico de lutas e movimentos organizados da sociedade civil, que, mesmo que ainda bastante recente, tem pautado as necessidades de representação legais e cidadãs da juventude. Em seu estudo sobre políticas públicas para juventude no Brasil, Sposito e Carrano apontam que, antes de serem incorporados pela esfera governamental, programas e eventuais políticas destinados aos jovens já vinham sendo experimentados pela sociedade civil por meio de organizações não governamentais e de fundações empresariais, recobertos de extrema diversidade quanto às orientações.

Esses programas e ações apontavam para uma concepção da juventude não mais com base na ideologia do menor em situação irregular, mas na doutrina cidadã de proteção integral aos adolescentes em conflito com a lei.

O conjunto de mobilizações e pressões sociais articuladas em torno desses princípios teve início em 2004, com a criação do Plano Nacional de Juventude, passando pela criação da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) e do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), e culminou na realização das Conferências de Juventude que vêm ocorrendo desde 2008, na aprovação da PEC da Juventude em 2010 e, finalmente, na criação o Estatuto da Juventude em 2013.

Como resultado de todas as pressões e mobilizações sociais, foi desenhado o Estatuto da Juventude, documento que sintetiza os avanços dessas lutas por reconhecimento e direitos plenos da juventude. É fundamental, assim, não apenas reconhecer a importância de tais conquistas, mas também assimilar na prática os princípios defendidos nesse documento.

 

Expressões urbanas
A 10ª edição do Programa Jovens Urbanos em São Paulo (SP) é um dos exemplos de espaços em que as expressões juvenis ganham visibilidade, como ocorreu no Encontro Público realizado no distrito de Cidade Tiradentes em 2015­.

Oficina – Estatuto da Juventude: conhecer é preciso!
Atividade propõe aproximação dos adolescentes e jovens com o Estatuto da Juventude. Acesse aqui.

O Estatuto da Juventude e as políticas públicas de juventude são regidos pelos princípios:

  • Promoção da autonomia e emancipação dos jovens;
  • Valorização e promoção da participação social e política, de forma direta e por meio de suas representações;
  • Promoção da criatividade e da participação no desenvolvimento do país;
  • Reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares;
  • Promoção do bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento integral do jovem;
  • Respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude;
  • Promoção da vida segura, da cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação;
  • Valorização do diálogo e convívio do jovem com as demais gerações.

Desafios da juventude brasileira

No Brasil, os desafios da juventude se intensificam diante das profundas desigualdades sociais existentes no país, pelas quais o público jovem, pobre, negro e de periferia é um dos mais afetados.

Além de lutar pelo reconhecimento de seus direitos básicos no âmbito das políticas públicas – educação, emprego, saúde e lazer –, enfrentam diariamente problemas de criminalização de suas práticas e também altos índices de violência e vulnerabilidade social.

Os números comprovam esse cenário:

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Violência contra jovens pobres?

A centralidade do problema da violência é um dos principais desafios da juventude brasileira. Ao mesmo tempo em que são os jovens as maiores vítimas, eles são apontados – principalmente em discursos midiáticos e de políticos conservadores – como as principais fontes de violência no país. Nessa imagem tendenciosa da realidade, são especialmente os jovens pobres, negros e de periferia que desde muito cedo sofrem com a forte estigmatização da criminalidade.

Os homicídios são hoje a principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos no Brasil e atingem especialmente jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/Datasus) mostram que mais da metade dos 56.337 mortos por homicídio, em 2012, no Brasil, eram jovens (30.072, equivalente a 53,37%), dos quais 77% negros (pretos e pardos) e 93,3% do sexo masculino. Por essa razão, os homicídios de jovens representam uma questão nacional de saúde pública.

Exemplo dessas tendências de criminalização da juventude vulnerável brasileira são os projetos de lei que surgem no Congresso desde 1993 pedindo a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Os avanços de tais propostas – documentadas no recente reavivamento da PEC 171/93 – são exemplos de reações políticas que buscam impedir a distribuição de direitos às camadas mais desprotegidas por meio de discursos que deformam as reais causas da violência em nosso país. A confusão conceitual entre imputabilidade penal e maioridade penal é uma delas. Conforme a Constituição brasileira, todo indivíduo a partir de 12 anos de idade deve responder penalmente por seus atos infracionais. A diferença é que entre 12 e 18 anos, os infratores cumprem pena em centros de medidas socioeducativas – projetos políticos de proteção às crianças e aos adolescentes também resultado de lutas por avanços sociais.

Conheça mais sobre medidas socioeducativas em reportagem especial da plataforma Educação&Participação.

Plano Juventude Viva

Diante das condições de extrema violência que a população jovem enfrenta em nosso país, um avanço importante foi a criação do Plano Juventude Viva.

De iniciativa do governo federal, coordenado pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), o plano reúne ações de prevenção para reduzir a vulnerabilidade de jovens negros a situações de violência física e simbólica, com a criação de oportunidades de inclusão social e autonomia para os jovens entre 15 e 29 anos.

Priorizando os 142 municípios brasileiros, distribuídos nos 26 estados e no Distrito Federal, que em 2010 concentravam 70% dos homicídios contra jovens negros, o Juventude Viva desenvolve ações que visam à ampliação dos direitos da juventude, à desconstrução da cultura de violência, à transformação de territórios atingidos por altos índices de homicídios e ao enfrentamento do racismo institucional, com sensibilização de agentes públicos para o problema. Saiba mais.

Trabalho e inserção no mercado

A dimensão do emprego também é uma condição a ser considerada como desafio no contexto dos direitos da juventude.

De acordo com o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado em 2014, Trabalho decente e juventude: políticas para a ação, que compara dados entre 2005 e 2011, a taxa de desemprego juvenil na América Latina representa mais que o dobro da taxa geral e o triplo da de adultos. No Brasil, segundo o estudo, a taxa de desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos é superior à média da América Latina, e ficou em 15,3% em 2011 (queda sobre a de 19,4% em 2005). Na faixa etária de 25 anos ou mais, ficou em 4,6% no Brasil em 2011, a mesma média da região.

Taxa de desemprego entre os jovens no Brasil – 2011grafico-fim

Jovens e os desafios da educação integral

Nos últimos anos, com a redemocratização, aumentou o acesso de jovens à educação, e hoje há mais jovens concluindo o Ensino Fundamental e o Médio. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a escolaridade média dos jovens de família de baixa renda foi ampliada. No mapa abaixo, percebe-se que, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste houve um avanço em relação aos anos de estudo de jovens das populações mais vulneráveis  do país.

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Saiba mais sobre os dados da educação brasileira no documento Linha de base, com indicadores selecionados pelo Ministério da Educação e pelo Inep para o monitoramento do Plano Nacional de Educação 2014-2024 (PNE).

Em 2004, 79,1% dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos estavam na escola, e em 2013 a média nacional era de 81,5%. Mesmo tendo avançado, a educação voltada à juventude ainda está aquém da esperada e necessária. Em 2013, dos 10.644.789 jovens brasileiros de 15 a 17 anos, somente 55,5% estavam matriculados no Ensino Médio, etapa adequada a essa faixa etária; 22,8% ainda frequentavam o Ensino Fundamental; e os demais não estudavam ou estavam em outros níveis de ensino, conforme gráfico abaixo.

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Para atrair os jovens ao Ensino Médio e mantê-los na escola, o Plano Nacional de Educação (PNE) deixa evidente, por meio das estratégias que recomenda, o esforço de aproximar essa etapa de ensino à realidade dos estudantes, o que envolve, por exemplo, a revisão do currículo escolar.

O PNE também aborda questões relativas a outro entrave a ser superado, o das desigualdades sociais e econômicas. Nesse sentido, além do acesso, um ensino que esteja mais próximo à realidade dos jovens continua sendo uma das grandes questões a ser enfrentada pela educação brasileira. A escola parece mais acessível ao jovem, mas pouco interessante, porque há outras experiências que competem diretamente com ela: a rua, os grupos, os bares, os movimentos juvenis etc.

“Quando o jovem termina o Ensino Médio, que caminho irá seguir? Esse assunto não faz parte da discussão da escola pública de Ensino Médio no país. E isso é muito grave, pois de acordo com indicadores sobre o tema, há uma inversão quando o jovem completa 18 anos; ou seja, é a idade em que ele começa a se dedicar apenas ao trabalho, diferentemente de quando está na faixa etária entre 15 e 17, período em que apenas estuda, ou trabalha e estuda ao mesmo tempo. Por isso, as escolas de Ensino Médio devem enfatizar essa discussão, pois é nesta etapa da vida que o jovem passa por um momento de transição, respondendo aos seus atuais anseios: Quais são as universidades públicas do meu estado? O que são cotas raciais? Onde e como procurar emprego? O que são direitos trabalhistas?”, afirma Raquel de Souza, da Ação Educativa.

Leia a reportagem especial “Educação integral no Ensino Médio: os desafios de uma proposta para o jovem que conclui a educação básica”. Clique aqui.

Participação ativa dos jovens nas mudanças sociais

Como grande impulso para as transformações sociais, a juventude não aguarda ser compreendida e tampouco pede licença para participar ativamente das mudanças. Muito pelo contrário: ela é o fio condutor das transformações sociais.

Garantida no Estatuto da Juventude, a participação social e política dos jovens é entendida como um processo em que eles buscam influenciar e compartilhar o controle e a responsabilidade das decisões e do destino dos recursos que lhes afetam.

Pode-se dizer que participação juvenil refere-se ao envolvimento do jovem na transformação social, sendo ele considerado um ator estratégico do desenvolvimento, um cidadão ativo que participa dos processos sociopolíticos e da tomada de decisão sobre os assuntos de interesse do próprio jovem.

Nas décadas de 1960 e 1970,  a participação dos jovens foi estratégica para o fim da ditadura militar ao representarem a grande resistência a esse regime político. Num passado mais recente, na década de 1990, eles pressionaram o governo pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, e, em junho de 2013 e no começo de 2014, diferentes manifestações organizadas por jovens de metrópoles brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, mostraram que a juventude quer ter cada vez mais o direito à cidade.

O que especialistas indicam é a mudança da participação juvenil: nos últimos tempos, os movimentos e coletivos são feitos à margem dos partidos políticos. “As estruturas partidárias – pelo menos as grandes – não têm mais força alguma para mobilizar as pessoas. E os pequenos partidos cobram caro pela mobilização: um tipo de adesão que acredito que boa parte dos jovens não está disposta a dar, pelas melhores razões. Eles não querem virar instrumentos para uma lógica partidária. Essas mobilizações se fazem em torno de temas: você se organiza para certos objetivos, cria estruturas ou fóruns ligados a eles; depois, eles se dissolvem. É bem provável que isso seja cada vez mais utilizado”, explica o filósofo Vladimir Safatle (2012).

Para além das organizações político-sociais, outras transformações são vistas. De acordo com a Pesquisa sobre juventudes no Brasil, de 2008, o jovem já não se vê como os jovens de outras gerações se viam e não busca a mesma coisa que eles buscavam. O documento revela que há sinais de desconforto social. Segundo as informações levantadas, “hoje buscam-se outros encantos e prazeres: participar em redes de colaboração, contribuir para uma distribuição menos desigual das riquezas produzidas por todos, construir novas relações entre o ser humano e a natureza”.

Em relação ao desejo de participação, a pesquisa mostra que os jovens participam efetivamente menos que os adultos na maior parte dos tipos de entidades e movimentos. Entretanto, são os que mais desejam se engajar. Em todas as modalidades associativas investigadas, o percentual de pessoas que gostaria de participar é maior entre os jovens que entre os adultos, indicando, talvez, que existam maiores obstáculos nas organizações para incorporar a presença dos jovens.

 

A porcentagem de entrevistados que declara querer se engajar varia de 1/5 a 1/3 conforme as modalidades listadas, à exceção dos partidos políticos, que atraem menos de 15% dos entrevistados. O estudo também revela que “os grupos de proteção ao meio ambiente, apesar de contarem com uma participação real muito baixa, despontam como o tipo de atuação mais aspirada, por 37% dos entrevistados”.

Assista ao vídeo abaixo e conheça relatos de jovens que expressam diferentes formas de participação social e suas expectativas de desenvolvimento integral.

 

Itabira (MG): participação de jovens no desenho da política de educação integral

Desde maio deste ano, estudantes do Ensino Fundamental II do município de Itabira (MG) participam de grupos de escuta – que incluem pais, professores e técnicos da rede municipal – para colaborar na construção das diretrizes da política de educação integral do município.

A iniciativa de ouvir os alunos da rede de ensino partiu da Assessoria de Educação Integral que o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e a Fundação Itaú Social, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Itabira, realizam desde maio deste ano.

Os grupos são heterogêneos e têm alunos das cinco escolas do Ensino Fundamental II, de um total de 30 que compõem a rede municipal. Os jovens são distribuídos em duas turmas, que têm prevista a realização de três encontros de três horas cada – uma turma à tarde e a outra na manhã do dia seguinte. Toda a construção dos encontros é feita apenas pelos alunos.

Saiba mais sobre os grupos de escuta de jovens e a educação integral em Itabira

Comunicação e expressão : novos caminhos para transformação 

O apoio à expressão e à produção juvenil tem sido um dos caminhos mais efetivos para a promoção do desenvolvimento integral de jovens e adolescentes. Com os meios de comunicação digitais, os jovens têm cada vez mais participado e colocado suas pautas nos debates públicos. Essa participação tem acontecido principalmente com o uso de linguagens como fotografia, cinema, música, teatro e artes plásticas.

Esse tipo de expressão conduz os jovens não somente a se comunicar, mas também a exercer seu papel de cidadão, colocando suas histórias e pontos de vista no debate público, engajando-se em questões de seu interesse e em relação ao seu próprio território.

Conheça abaixo alguns projetos, criados por iniciativas do poder público e da sociedade civil organizada, que são exemplos significativos desse tipo de aporte.

Rios de Encontro
Um projeto desenvolvido por artistas plásticos de Marabá, município do Pará, leva diferentes linguagens artísticas para jovens e adolescentes da região e, com isso, estimula o desenvolvimento de novas formas de educação e expressão. Chamado de Rios de Encontro,  o  projeto, vencedor na categoria pequeno porte do Prêmio Itaú-Unicef em 2011, tem como objetivo preservar e difundir a cultura tradicional local por meio da promoção de diferentes linguagens culturais e artísticas.

Com oficinas de música, artes plásticas, e encontros culturais que envolvem os jovens e as comunidades, o projeto se concentra no desenvolvimento de sujeitos criativos, participativos, que pensam a história e o futuro de seu território. Nesse projeto, destacam-se as ações para o fortalecimento da memória, cultura e história do bairro e da identidade afro-indígena; a formação de adolescentes como gestores; e a ação em rede, envolvendo organização, parceiros, comunidade e grupos gestores comunitários de gerações distintas.

Saiba mais.

Conheça outros projetos de desenvolvimento integral de jovens: Prêmio Itaú-Unicef.

Programa para a Valorização de Iniciativas (VAI)

Por meio de subsídios econômicos, o programa do município de São Paulo (SP) incentiva atividades artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda e de regiões desprovidas de recursos e equipamentos culturais.

Uma das características do VAI é a diversidade de linguagens que abarca, financiando projetos com uma mescla de linguagens e intervenções, como montagem, produção, apresentação de espetáculos, eventos culturais com manifestações de rua e em espaços fechados, festivais, cultura indígena, cultura popular, entre outros.

A seleção dos projetos é anual e inicia-se com a abertura do edital, seguida da entrega de projetos por parte dos interessados. Ao término do prazo para entrega de projetos, que costuma ser no mês de janeiro, a Comissão de Avaliação e Propostas os analisa, atentando para a atividade proposta, a idade e o perfil dos proponentes e o local de realização, pois há prioridade para jovens de baixa renda (entre 18 e 29 anos), não profissionais, bem como para as regiões do Município que são desprovidas de recursos e equipamentos culturais.

Saiba mais.

Jovem como sujeito de direitos

Mais do que perceber o jovem como sujeito social, é necessário entender que ele tem um papel fundamental na construção de um país: é pela juventude que a sociedade percebe o novo, vê-se questionada e depara-se com novos desafios, sendo convidada (e muitas vezes obrigada) à transformação.

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A “juventude” é apenas uma palavra. Entrevista a Anne-Marie Métailié, publicada em Les Jeunes et le premier emploi. Paris: Association des Ages, 1978. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/16677551/Pierre-Bourdieu-A-Juventude-e-apenas-umapalavra>. Acesso em: 13 nov. 2015.

DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 28, n. 100, p. 1105-1128, out. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/es/v28n100/a2228100>. Acesso em: 13 nov. 2015.

FLETCHER, Adam. Participação juvenil: guia de oficinas. Tradução Iara Haasz. São Paulo: Fundação Itaú Social; Cenpec, 2013. Disponível em: <https://educacaoeparticipacao.org.br/wp-content/uploads/Guia-de-Participacao-Juvenil-Versao-Final.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2015.

KEHL, Maria Rita. Adultescência. Folha de S.Paulo, 20 set. 1998. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs20099809.htm>. Acesso em: 13 nov. 2015.

MARICATO, Ermínia et al. Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2013. Disponível em: <https://ujceara.files.wordpress.com/2014/01/cidadesrebeldes-passelivreeasmanifestac3a7c3b5esquetomaramasruasdobrasil.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2013.

SAFATLE, Vladimir. Safatle: juventude perdeu o medo do capitalismo. Entrevista a Beatriz Macruz, Guilherme Zocchio e Rute Pina. Outras Palavras, 3 jul. 2012. Disponível em: <http://outraspalavras.net/posts/safatle-juventude-perdeu-o-medo-do-capitalismo/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=safatle-juventude-perdeu-o-medo-do-capitalismo>. Acesso em: 13 nov. 2015.

SPÓSITO, Marília Pontes; CARRANO, Paulo César Rodrigues. Juventudes e políticas públicas no Brasil. In: DÁVILA LÉON, Oscar (Org.). Políticas públicas de juventud en América Latina: políticas locales. Viña del Mar: CIPDA, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n24/n24a03>. Acesso em: 13 nov. 2015.

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Créditos

Texto Vanessa Nicolav
Edição Marcia Coutinho R. Jimenez
Leitura crítica Lilian Kelian e equipe do programa Jovens Urbanos
Arte Thiago Luis de Jesus

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